Quando a família Jung se mudou da Alemanha para Portugal há mais de 40 anos, a ideia era ter uma casa na praia. Ali, por cima do mar, a meio de uma estrada que atravessa Albufeira, de costas voltadas para a cidade, mas de portas abertas para quem queira entrar, a propriedade foi espaço de um casamento e de uma infância felizes. Klaus e Claudia permitiram a Joy, no Algarve, uma infância livre e despreocupada, integrada na natureza, com a companhia de animais e de um sentido estético e artístico que a marca até hoje.No início dos anos 1980, Claudia decidiu que era tempo de partilhar com outros aquilo que escolhera para ser a residência da família, e começou a fazer as alterações necessárias para que pudessem receber hóspedes. O seu toque ainda hoje é visível por toda a propriedade – a arte espalhada nos lugares mais inusitados, a discrição, a atenção aos detalhes e ao conforto de quem lá passa.No início dos anos 1990, Dieter Koschina junta-se ao projeto e torna-se, desde então, numa das referências da propriedade. Com Claudia, pensam os menus de forma a que não se repitam refeições porque, “quando recebemos pessoas em nossa casa, também não lhes servimos várias vezes a mesma coisa”, conta Joy, a filha de Claudia, enquanto se recosta no sofá. O sol brilha num dos quentes dias de outubro, e ilumina o alpendre onde, em poucos dias, vai acontecer um dos momentos altos do ano do Vila Joya: o Tributo a Koschina, a festa que substituiu o Tributo a Claudia, um evento que entre 2007 e 2017 homenageou a mãe de Joy, que faleceu entretanto.“Este ano não podíamos deixar de celebrar os 30 anos da primeira estrela de Koschina”, explica a empresária. “Quantos chefs, no mundo inteiro, têm duas estrelas Michelin há tantos anos? E que estão vivos ainda? (Risos) Não sei. Pedi a um amigo jornalista, na Alemanha, para investigar, mas não tem sido fácil”, conta divertida.Joy é uma cabeça sempre em movimento. Enquanto fala connosco olha, atenta, para tudo o que se passa à sua volta. Os funcionários que passam quase sem serem notados, numa espécie de dança que se mistura com o vento. As toalhas que vão sendo tiradas ou estendidas das mesas que receberam o pequeno-almoço (enrugadas) e se tornam lisas e sem rugas para as refeições seguintes. “Quero fazer uma instalação com as latas de caviar que usamos. Pedi ao nosso fornecedor que me enviasse centenas delas. Vou pendurá-las, com espelhos colados feitos à medida”, conta enquanto os olhos vagueiam pelo mar, lá ao fundo. “E também vamos trazer motas Harley Davidson para uma das noites. O Koschina adora as motas. Pedi a amigos, a clientes – claro que vou ter alguém a tomar conta, que ninguém pode mexer-lhes!”, continua. “Convidei chefs e bartenders de vários lugares para desafiar o Koschina. Ele tem de ser desafiado. Vai ser muito bom, vai ser uma festa”. .E como festas têm de ter champanhe, sobretudo as de Koschina, Joy preparou para uma das noites uma recolha de 50 mil rolhas para fazer uma outra instalação: pediu aos amigos, a hotéis da região e à própria Amorim Cork. “Tem de ser uma comunidade”, suspira feliz.Para Joy, o Vila Joya é a casa onde cresceu, onde recorda os pais e onde pode continuar a criar. Com quatro quartos e nove suites, é a escolha de muitos clientes que voltam ano após ano, porque os funcionários se lembram dos seus rostos, dos seus gostos, das suas dinâmicas. Aqui não há pressa, só um encadeamento tranquilo do tempo. E é por isso que Joy e Koschina fazem uma equipa difícil de igualar: porque não deixam de lado a qualidade – as duas estrelas Michelin que nunca fugiram, mesmo com um menu diferente a cada dia – e a serenidade – cerca de 50% do staff está na casa há mais de 10 anos, e há mesmo quem trabalhe aqui há mais de 25 (são cerca de 10%). Para manter a engrenagem de 150 pessoas a funcionar, de 26 nacionalidades distintas, houve mudanças importantes, sobretudo depois da pandemia, conta Joy. A equipa passou a contar com consultas de psicologia (que são disponibilizadas, mas não obrigatórias) no seu pacote de benefícios, algo que a responsável pelo Vila Joya acredita ser fundamental para manter o negócio a correr sobre rodas. “Se tenho pessoas a receber clientes, elas têm de estar bem, mentalmente. E têm de ter ferramentas para atravessar os dias piores”, acredita. Fala, por isso, de um investimento com retorno, e não de um custo com pessoal.Questionada sobre a dimensão da equipa - afinal, o Vila Joya tem apenas capacidade para poucas dezenas de hóspedes em simultâneo - Joy é perentória: "Podia ter menos dez pessoas, mas o custo que teria em saúde mental dos funcionários, e o que perderia em capacidade de resposta quando alguém fica doente, por exemplo, seria imenso".O serviço é tudo, salienta. E num momento em que em Portugal tantas unidades se debatem com a falta de recursos humanos ou com pessoas muito inexperientes, o Vila Joya quer continuar a ser garante de elevados padrões de qualidade na hospitalidade. Que é como quem diz: não quer perder os ativos que tem e que o têm afirmado como referência no setor. .O tempo ameno que se faz sentir enche a varanda do edifício. Os hóspedes, na maioria estrangeiros, e com uma idade média avançada, aproveitam o sol de outono do Algarve tão diferente dos países de origem. São na sua maioria alemães, mas há também americanos e oriundos de outros países do centro da Europa. Joy cumprimenta cada um com um sorriso caloroso e um cumprimento na língua nativa. Os jornais internacionais acumulam-se nas mesas do alpendre, quando depois do pequeno-almoço os hóspedes os vão deixando para que outros os possam ler. Alguns trocam a imprensa por um dos livros que ocupam as estantes dos espaços comuns, outros descem até à praia para um mergulho no mar cálido do Algarve. Ouvem-se os pedidos de marcações de reserva para jantar – seja no restaurante temático, junto à praia, e cuja última inspiração foi a cozinha pan-asiática, seja no Vila Joya, de Dieter Koschina – ou para outros serviços como massagens, yoga, tai-chi ou sauna e banho turco.À saída do edifício principal, no percurso que serve duas das suítes, estacamos com surpresa. A parede parece em mau estado, com o reboco a soltar-se. Damos alguns passos atrás e percebemos: ali, de olhos postos no mar e eternizada na pedra que construiu, está um retrato de Claudia, replicado por Vhils. O artista, que era cliente do Vila Joya sem que ninguém desse por ele, acabou por aceder aos apelos de Joy para que a arte e a idealizadora daquele espaço caminhassem juntos de olhos postos no oceano.O Vila Joya é, à semelhança de outros empreendimentos de luxo da região, um dos lugares favoritos de muitos estrangeiros que há décadas escolhem o Algarve para viver. A grande diferença do projeto é o facto de nunca ter cedido às pressões do crescimento ou das tendências do mercado. Autointitula-se de “paraíso”, e é assim que quer continuar a ser, garante Joy. Para já, nas mãos da herdeira da família. No futuro, o tempo o dirá.O que é certo é que em 2026 deverá haver mais uma novidade, com a chegada ao mercado de um livro para celebrar a parceria entre Koschina e a casa de Joy. "São 13 capítulos com detalhes que são importantes para a história do Vila Joya, e que celebram os 35 anos do restaurante" que é tanto do austríaco como dos seus fieis clientes de décadas.