Uma aldeia submersa, pôr-do-sol sobre a Mesopotâmia e um templo mais antigo que as Pirâmides

Gaziantep, Mardin e Sanliurfa são cidades da Anatólia, no sudeste da Turquia. Cruzamento de culturas e civilizações exibem até hoje as marcas desse passado que se cruzam com a gastronomia rica e pedra calcário da paisagem.

Das águas azul esverdeado do Eufrates espreita a ponta de um minarete que pertenceu a uma mesquita de Halfeti até a aldeia ficar parcialmente submersa após a construção da barragem de Birecik, inaugurada em 2000. Hoje o que resta da velha Halfeti tornou-se numa atração turística muito apreciada pelas famílias de Sanliurfa e Gaziantep, as duas cidades da Anatólia, no sul da Turquia, mais próximas. E entre a visita ao castelo romano de Rumkale e um passeios de barco não pode faltar o almoço num dos restaurantes que ocuparam os edifícios abandonados pelos residentes, muitos deles realojados na Nova Halfeti, a 15 quilómetros dali.

Enquanto aprecia o que resta da aldeia fundada no século IX a.C pelo rei assírio Salmanaser II e por onde passaram inúmeras civilizações, desde os gregos, romanos, árabes, etc, antes de se tornar parte do império otomano no século XVI, o visitante pode apreciar a gastronomia em que não faltarão as espetadas de carne de borrego, o arroz e os pimentos grelhados.

No rio são muitos os barcos carregados de turistas, num claro sinal de retoma depois de meses de pandemia. Mulheres quase todas de véu, homens vestidos à ocidental passeiam os filhos aproveitando o fresco do arvoredo. A música vinda de uma das margens chama a atenção - no rio, jovens disputam uma corrida de barco a remos, sob o olhar de dois cartazes enormes colocados na encosta da montanha: um do presidente Recep Tayyip Erdogan, o outro de Mustafa Kemal Ataturk, o fundador da Turquia moderna.

A caminho de Gaziantep, numa estrada ladeada por centenas e centenas de árvores de pistácio, passamos por Nova Halfeti. Edifícios modernos, brancos e cinzentos, alguns cafés e restaurantes, longe do charme da velha aldeia.

Dominada pelo castelo, originalmente uma torre de vigia do tempo romano, Gaziantep apresenta ao visitante um emaranhado de ruas onde se sucedem lojas a vender sapatos, especiarias, objetos de cobre ou a inevitável baklava, o tradicional doce turco feito de massa filo, regado com mel e salpicado de pistácios.

Habitada desde os tempos pré-históricos, Gaziantep acolhe ainda um dos maiores museus de mosaicos do mundo, onde podemos apreciar as peças encontradas na cidade antiga de Zeugma. Fundada cerca de 300 a.C. por Seleuco I Nicátor, um dos generais de Alexandre o Grande, Zeugma cresceu no tempo dos romanos, beneficiando da sua localização privilegiada na Rota da Seda. Dos seus mais ricos edifícios chegaram até nós mosaicos, frescos e estátuas juntos numa coleção cuja estrela maior se encontra no primeiro andar, numa sala escura reservada só para ela. Estamos a falar de Rapariga Cigana, um mosaico de uma jovem cujo olhar parece seguir-nos. Descoberto em 1998, o mosaico foi assim chamado por fazer lembrar uma jovem cigana. Devido às folhas de videira e aos cachos de uva que decoram o mosaico, os especialistas acreditam tratar-se de uma ménade ou bacante, uma seguidora do deus do vinho romano, Baco.

Encosta com vista sobre a Mesopotâmia

Antes de chegar a Mardin, vale a pena uma paragem na necrópole de Dara, construída no ano de 507 pelos romanos. Mas a localidade é ainda mais antiga e reza a lenda que devia o nome a Dario III, rei dos persas derrotado por Alexandre na batalha de Isso e que estaria ali sepultado. Mas não passa mesmo de lenda: Dara vem de "dar", que significa "A Porta" em persa, por ser a porta de entrada entre a Mesopotâmia e a Ásia Menor.

Hoje são muitas as sepulturas que podemos ver ali, a 30 km de Mardin, sepulturas. Umas no exterior outras numa câmara funerária com três pisos coberta por um vidro e a que se acede passando por uma porta de pedra decorada com cenas da morte e ressurreição, em que se veem a Virgem com o menino, anjos, a mão de Deus, tudo sob um teto em V.

De Dara, segue-se para Mardin, cuja cidade velha surge em escadinha pela encosta de calcário coroada pelo castelo com mais de 3000 anos e situado mais de mil metros acima da planície circundante. Com uma população multiétnica, onde se misturam turcos, curdos e árabes, a cidade desenvolve-se a partir da praça central, onde não faltam as letras brancas I Love Mardin, uma oportunidade fotográfica para qualquer turista, nem a estátua de Ataturk. E onde se pode ver a torre da velha igreja ortodoxa. Ali perto fica o restaurante Cercis Murat Konagi, da chef Ebru Baybara Demir. Com uma decoração imponente, aqui a chegada do tradicional borrego é um verdadeiro espetáculo, com os empregados a cortar a carne no momento e a trazer os pratos à mesa ao som da música tradicional turca.

Da praça central segue-se pelas ruas estreitas, onde as cores das frutas disputam a atenção com as cores das especiarias. Enquanto subimos, passamos pela grande mesquita de Ulu, a mais antiga da cidade, mandada construir em 1186 e cujo minarete (tinha dois mas o outro foi destruído) foi reconstruído no século XVIII, mas cujas decorações respeitam as originais.

Da mesquita, é sempre a subir pelo souk, entre pregões dos vendedores de doces ou de sabonetes e lojas que vendem lenços cujas flores vermelhas fazem lembrar os das nossas minhotas. Pelo meio, não faltam os cafés onde descansar as pernas enquanto se bebe um chá bem quente e açucarado. Passamos pelo mosteiro de Deyrulzafaran, em tempos sede do Patriarcado Siríaco Ortodoxo, e terminamos no telhado da madrassa de Zinciriye, de onde se tem uma vista incomparável sobre o sol que se põe sobre a planície da Mesopotâmia.

O templo mais antigo e o seu irmão ainda maior

Hoje com dois milhões de habitantes, reza a lenda (mais uma) que Sanliurfa foi a terra onde o rei Nimrod mandou catapultar Abraão para uma pira funerária, mas Deus transformou o fogo em água e as brasas em peixes. O lago de peixes sagrados ainda hoje pode ser visitado, bem ao lado da mesquita que substituiu a igreja bizantina que marca o local onde o profeta e "pai" das três religiões monoteístas caiu. Hoje essa zona, abaixo do castelo da cidade, é um dos locais mais populares junto dos habitantes locais que aí se reúnem ao fim do dia.

Mas a grande atração fica a poucos quilómetros da cidade. Göbeklitepe foi no momento da sua descoberta, há pouco mais de duas décadas, apresentado como o templo mais antigo da humanidade - mesmo que hoje se saiba que com os seus 12 mil anos é certamente mais antigo que as pirâmides ou que Stonehenge mas será certamente muito mais do que um simples templo - tendo funcionado como local de trocas comerciais e de procura de parceiro para os homens do Neolítico que ali viviam.

Agora, as autoridades turcas acabam de anunciar a abertura ao público de Karahantepe, uma espécie de "irmão" de Göbeklitepe, situado a poucos quilómetros da fronteira com a Síria e onde também se encontram os inconfundíveis pilares em forma de T e as representações de animais, além de um cabeça barbuda esculpida na parede de um dos edifícios que estes homens do Neolítico enterravam quando já não tinham uso. Para quem procura mais informação, recomenda-se a visita ao Museu Arqueológico de Sanliurfa, mas nada como ir ao local e ver com os seus próprios olhos aquele que foi apelidado de "ponto zero da Humanidade".

helena.r.tecedeiro@dn.pt

O DN viajou a convite da Agência de Turismo da Turquia

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