Telavive. Praia, história e vida noturna na cidade Bauhaus que nunca dorme

Moderna, cosmopolita, agitada, Telavive gosta de pedir emprestada a Nova Iorque a ideia de cidade que nunca dorme. E quem por ali passar dois dias, pouco tempo vai ter para o fazer se quiser aproveitar as praias de água morna, apreciar os edifícios de traça Bauhaus, regressar ao passado em Jaffa, comer um pita shoarma no mercado de Sarona ou aproveitar a vida noturna.

Longe da sensação refrescante (às vezes até demais) de molhar o pé nas praias da Costa da Caparica, da Arrábida ou da Costa Alentejana, ir ao banho em Telavive é entrar numa água de temperatura agradável, com o Mediterrâneo a convidar a uns bons mergulhos. No paredão que liga o porto da cidade à velha Jaffa, não falta quem aproveite para fazer desporto, passear o cão ou simplesmente usar a pista ciclável que o percorre para um passeio de trotineta elétrica ou bicicleta. Esta é apenas uma das atrações da cosmopolita Telavive. Mas uma escapadela de dois dias por ali é ocasião para muito mais. Desde apreciar os edifícios de estilo Bauhaus , a percorrer o Trilho da Independência, sem esquecer, claro, uma ida ao Mercado Carmel e outro "mergulho" inevitável: na sua agitada vida noturna.

Fundada em 1909 por uma comunidade judaica que saiu de Jaffa, Telavive inclui hoje o velho porto (com os seus 4000 anos de história e ainda, na atualidade, de maioria árabe) e tem uma população de meio milhão de pessoas. Naquele final da primeira década do século XX, um grupo de 66 famílias, parte do vasto movimento sionista de judeus vindos da Europa, e que defendiam a autodeterminação do povo judaico e o seu direito a um Estado na Terra Santa, juntou-se na praia e sorteou entre si parcelas de terra a norte de Jaffa onde construíram o seu bairro.

A partir daí, Telavive cresceu e muito. E foi aqui, naquela que fora a casa de Meir Dizengoff, o primeiro presidente da Câmara de Telavive, que a 14 de maio de 1948 David Ben Gurion proclamava a Independência de Israel. Hoje a casa, que após a morte de Dizengoff, foi um museu de arte, está em obras e não se pode visitar, como é habitual. Mas este é apenas um dos edifício dos Trilho da Independência, que constitui um troço da Avenida Rotschild.

Literalmente Colina da Primavera, o nome Telavive é também o título hebraico do livro Altneuland, de Theodor Herzl, o fundador do sionismo moderno, mas a cidade ganhou também epíteto de Cidade Branca, devido aos seus edifícios Bauhaus, Património da Humanidade da UNESCO. Afinal é a cidade do mundo com mais edifícios - mais de 4000- deste estilo arquitetónico vanguardista fundado pela alemão Walter Gropius em 1919, desde a Casa Reisfeld ao Cinema Hotel. Com vista para a fonte e as cadeiras coloridas da praça Dizengoff, este foi, até aos anos 90, o Cinema Esther e mantém à disposição dos hóspedes uma vasta coleção de objetos e cartazes ligados a essa atividade.

Com muitos mais israelitas a virem para Portugal do que portugueses a visitarem para Israel, o Ministério do Turismo israelita está decidido a mudar isso. Quem o explica é Tal Laktush, responsável pelo marketing do Ministério: "É um mercado ainda pequeno, mas queremos atrair todos os que queiram vir a Israel. Estamos a apostar na Europa, incluindo Espanha e Portugal, claro".

Neste momento, o turismo português em Israel é sobretudo religioso, centrando-se mais em Jerusalém do que em Telavive. "É importante as pessoas perceberem que Israel não é só um país religioso. Temos toda a vida noturna em Telavive, a experiência culinária, os vinhos e tanto mais", explica.

E depois de um passeio de manhã pelo Mercado Carmel, onde não faltam desde camisolas de Cristiano Ronaldo, a fruta fresca, passando por banquinhas a vender pão, especiarias, húmus ou roupas, segue-se um passeio pela zona de Sarona, com direito a uma belíssima pita - shoarma ou falafel - no Mercado de Sarona, espécie de mercado da Ribeira local.

Estando ali, é impossível não reparar no contraste entre os arranha-céus em redor e as vivendas do bairro, antiga colónia de templários alemães, uma corrente religiosa protestante que ia buscar o nome aos cavaleiros da Idade Média, chegados ali na segunda metade do século XIX. "Acreditavam que vivendo na Terra Santa iam ajudar os judeus a reconstruir o Templo e que Jesus ia voltar", conta Dina Shaked, num português colorido pelo sotaque brasileiro. Nascida no Uruguai, aos dois anos esta filha de sobreviventes do Holocausto foi viver para o Brasil, antes de a família se mudar para Israel quando tinha 10 anos. Hoje, faz do domínio do português e espanhol a sua mais-valia, trabalhando como guia.

Quanto a Sarona, os alemães acabaram expulsos pelos britânicos - a região estavam então sob seu mandato - quando, durante a II Guerra Mundial, se aproximaram dos nazis. Meio abandonadas nos primeiros anos de Independência de Israel, usadas mais tarde pelo Exército, nos anos 1990 as casinhas de Sarona foram reabilitadas e são hoje uma atração turística.

Quem prefere a frescura de um museu também não fica desiludido. Pode começar pelo Museu de Arte, onde, entre Picassos, Mirós e artistas israelitas, como Maurycy Gottlieb, não falta a coleção de quartos em miniatura de Helena Rubinstein. Já no museu Ilana Goor, em Jaffa, onde a artista de 86 anos vive, podemos apreciar não só obras suas, como outras que ela foi colecionando. Além, claro, de se poder deliciar com a vista do terraço, com o Mediterrâneo em todo o seu esplendor.

O próprio edifício, construído em 1742 e que durante décadas foi local de dormidas para os peregrinos judeus a caminho de Jerusalém, é uma obra de arte. Chegou a ser uma fábrica de sabão, antes de, nos anos 1970, ter sido comprado por Ilana Goor e reabilitado no estilo otomano original.

E há ainda a Casa Museu Ben Gurion, onde é visível a frugalidade do primeiro primeiro-ministro de Israel e onde a sua biblioteca com mais de 20 mil livros ocupa quatro divisões do primeiro andar.

Quando se pensa em Israel, dificilmente se pensa em whisky. Para saber mais, não pode faltar uma visita à destilaria da Milk and Honey, onde Yotam Baras começa por servir um gin, bebida que também produzem. Depois leva-nos para a zona da destilaria em si, explicando que os israelitas não têm tradição de beber whisky, e por isso neste momento exportam 90% da sua produção. O segredo do whisky M&H? A evaporação acelerada, sobretudo nos barris envelhecidos junto ao Mar Morto. "Um whisky que envelheceu ano e meio em Telavive, mais ano e meio no Mar Morto corresponde a um whisky escocês de 25 anos", afirma.

Depois de um jantar em Jaffa - cuja forte comunidade árabe se impõe quando as jovens de calções e camisola de alças começam a dar lugar a raparigas de lenço na cabeça -, e, quem sabe, de fumar uma shisha numa esplanada, a noite em Telavive tanto convida a uma cerveja num bar para aproveitar o (pouco) alívio na temperatura, como a um cocktail num rooftop ou a ouvir música e dar um pé de dança num dos muitos clubes. E aqui a escolha e os conceitos não faltam: da TEDER.FM, que mistura restaurante, bar e uma rádio, num pátio ao ar livre, à Kuli Alma, com as suas salas com músicas para todos os gostos, e pode acabar a beber uns shots no Sputnik.

Para chegar a Telavive, a opção mais prática é na TAP, com voos diretos que o levam de Lisboa ao Aeroporto Ben Gurion, quase a meio caminho entre Telavive e Jerusalém em pouco mais de cinco horas. Mas cuidado, sobretudo no regresso chegue bem cedo ao aeroporto porque as filas, entre check-in e controlos de segurança, arriscam-se a ser demoradas.

O DN viajou a convite do Ministério do Turismo de Israel

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