"Oasis é uma bolha onde vamos poder mergulhar no que é a moda e esquecer um bocadinho o resto"

A diretora da ModaLisboa, Eduarda Abbondanza, esteve à conversa com o DN sobre a edição deste ano, o que podemos esperar destes quatro dias, como a tecnologia se tornou essencial para determinar quais as tendências e como o nomadismo marca este evento ano após ano.

De onde vem o nome desta edição "Oasis"?
O tema da edição é sempre muito importante porque é aquilo que vai unificar as áreas todas numa mesma história, sendo que acaba sempre por refletir aquilo que sentimos, o mundo à nossa volta e como o percecionamos. Tem de ser um tema que seja bom para todas as áreas poderem trabalhar. Como nós já temos muitas edições, já temos muitas palavras editadas, cada edição torna-se mais difícil porque não vamos estar a repetir palavras. Nesta edição Oasis não foi o primeiro tema. Começámos a trabalhar com outro tema e eu não me sentia muito confortável com ele, mas tinha um prazo para cumprir. Os textos de imprensa, por exemplo, não estavam a sair e eu aproveitei para mudar o tema e propor um que me parecia mais adequado. Oasis tem a ver com o contexto que nós atravessamos que é tão infértil neste momento. O mundo que estamos a viver, em que temos problemáticas pela frente tão grandiosas como seja as alterações climáticas, as situações de conflito que são cada vez mais, a guerra entre a Ucrânia e a Rússia, a crise do gás e as crises económicas, depois de dois anos de pandemia. É muita coisa que surgiu em comboio e Oasis é uma bolha. É figurativamente a ModaLisboa onde nos vamos encontrar e onde vamos ter quatro dias de dedicação aquilo que é a nossa atividade, que é moda em todas as suas vertentes, poder mergulhar nisso e esquecer um bocadinho o resto. E é nesse Oasis que teremos sempre possibilidade de encontrar as soluções, não cada um separadamente.

Apostam na questão da sustentabilidade este ano.
Começámos o caminho da sustentabilidade um ano antes da Lisboa Capital Verde, juntamente com a Câmara Municipal de Lisboa, em que assinámos o compromisso de redução em áreas que eram possíveis para nós. Não consideramos que a área da sustentabilidade seja uma questão temporária, temática ou deste ano, é a questão com a qual nós já vivemos há bastante tempo e continuaremos a viver. O green deal, o acordo assinado pela Comunidade Europeia e também por nós, propôs-se até 2030 a cumprir metas para combater o aquecimento global. Sabemos que a indústria da moda é uma das indústrias mais poluentes. Também devo dizer que é uma das indústrias que mais rapidamente e de uma forma mais ativa está seriamente a procurar soluções, já tendo desenvolvido uma série delas. Como tal as questões da sustentabilidade, da produção ética, e outras, temos de lidar com elas. Passa pelas escolas, por encontrar outros modelos do próprio design de moda, da produção e a tecnologia vai ser um aliado nessa transformação. A moda já está nesse caminho há algum tempo.

Nestes quatro dias de ModaLisboa que passos é que estão a tomar para tornar esta edição mais sustentável, mais amiga do ambiente?
Nós enquanto organização não temos tanto um efeito nocivo. A primeira fase foi mudar a resposta dos fornecedores com os quais trabalhávamos, mudar o uso do plástico, no catering por exemplo, isso tudo já fizemos. Basicamente é chamar a comunidade e é mostrar, dentro da própria comunidade, os exemplos que já estão a acontecer e como é que esse caminho foi feito para que outros os possam fazer. E isso ocorre muito a partir das fast talks e daí que nós comecemos a nossa fashion week por um momento de reflexão, discussão e pensamento. Porque a moda não é a roupa, é muito mais do que a roupa. E, portanto, achamos que começar refletindo, discutindo e pensando sobre as questões que estão em cima da mesa, que são a tecnologia e as questões da sustentabilidade, será sempre um bom começo para uma semana de moda.

Como funciona o concurso de jovens designers Sangue Novo?
O Sangue Novo é um concurso anual com duas fases. Nós terminámos na última edição a fase final de um ciclo de concurso em que houve os vencedores finais e que neste momento estão a executar os programas que ganharam. E agora vamos iniciar novamente a primeira fase de um ciclo de um ano. Na primeira fase o call é enviado para todas as escolas de moda nacionais e os alunos que querem, concorrem. Recebemos próximo de 70 projetos, e um júri escolheu dez desses. O júri acompanha estes dez e escolhe os protótipos em digital, sendo que agora estão a construí-los fisicamente. No próximo dia 7 iremos assistir às apresentações desses dez e o júri vai deliberar quem são os cinco que passam à segunda fase, e claro que vão receber prémios no final desta primeira fase.

Como é que foi o processo de seleção dos designers?
Nós trabalhamos com uma família de designers que apoiamos já há muito tempo, e é essa a nossa família. Na parte mais jovem da plataforma Workstation há sempre novas entradas, e são uma geração que está a começar e precisa de apoio. As entradas fazem-se muitas vezes através do Sangue Novo, depois passa para a Workstation, para o Lab e depois para a passerelle. Nós temos, digamos, uma escola de crescimento interno. Vamos ter um desfile do Luís Borges, que não fazia parte do plantão anterior, mas que é uma pessoa com quem nós já colaboramos há muito tempo e que, portanto, precisa desse arranque.

Quantas pessoas é que estão envolvidas na ModaLisboa?
Muitas. Eu não consigo contabilizar porque é uma estrutura em rede. Nós trabalhamos com chefes de equipa e eles trabalham com as equipas deles. Só consigo ter uma ideia mais real do número de pessoas quando estamos lá, a partir do catering porque é lá que nos vemos uns aos outros e temos a dimensão de quantas pessoas são. Mas à volta de 500 ou mais talvez.

Quais é que são as previsões para este ano?
Uma das coisas com que estamos a lidar é exatamente essa. A moda está a sofrer muitas alterações porque as tecnologias, o chamado algoritmo introduziu a informação em tempo real à escala global. Ou seja, há empresas que à escala global conseguem saber o que é que se está a consumir na hora. Isso cria uma rutura naquele lado mais visionário da moda, que era prever o que é que se ia usar daqui a seis meses, daqui a um ano. A moda pode ainda conseguir prever isso, só que não é praticado porque as marcas estão a responder no imediato. As tendências de moda não são um assunto tão relevante atualmente porque vão perder validade até chegarem. Aquilo que para nós neste momento é mais relevante são as tendências tecnológicas. O que é que do ponto de vista tecnológico está previsto e que se vai democratizar no mercado até 2023 ou 2024, porque isso é que vai determinar tudo o que vai acontecer. Falamos mais de tecnologia do que de cores, porque as cores neste momento podem ser fabricadas de um dia para o outro. A previsão de cores acontecia porque os fabricante de pigmento tinham de o fabricar para ele existir no mercado, mas agora a possibilidade de produzir cor é infinita, portanto já não é possível fazer essa previsão. Agora o que é que nós sabemos? Sabemos que tudo o que tem a ver com maquinaria que produz 3D vai conseguir produzir uma ideia de vestuário nova. Neste momento há dois territórios onde as pessoas atuam, que é o território mais tangível que conhecemos, e o território mais digital onde as pessoas já compram roupa, os NFT"s, e que começa também a ser uma zona de comércio. Sabemos que os biomateriais estão em franco desenvolvimento e, portanto, é uma atenção muito grande sobre os novos biomateriais e que resposta é que eles podem dar, também a uma série de questões na área da sustentabilidade. Sabemos que poderá existir uma gama grande de biomateriais que duram pouco tempo, mas como são bio, poderão no futuro a ser uma solução para as marcas de fast fashion. Duram pouco, são baratas e não criam desperdício. Neste momento as questões para nós de tendências estão mais alocadas aquilo que a tecnologia pode proporcionar em termos de materiais, das próprias cadeias de fabricação, e cada vez mais, protegendo muito as economias locais. Já se fala, ainda pouco, naquilo que é o passaporte digital da roupa e que assenta na tecnologia do blockchain da cripto moeda, o que significa que dentro em breve uma peça de roupa pode estar toda rastreada e não ter buracos negros na sua produção (não se sabe de onde vem o fio, e outros elementos). Isso vai ser possível em breve visto que a certificação atualmente é uma coisa fundamental para todas as marcas. O futuro vai também poder determinar qual a roupa que é eticamente produzida e que não tem buracos negros na sua produção e qual é a roupa que não tem essa certificação. Digamos que as tendências estão muito alavancadas em todas as soluções tecnológicas que nos vão permitir produzir, desenhar, confecionar e vender e comprar melhor.

Pode o algoritmo, este imediatismo tirar algum propósito às semanas da moda?
Não é às fashion weeks porque estas podem fazer see now, buy now. Nós já não trabalhamos com seis meses de antecedência nas coleções há muito tempo. Há criadores que apresentam porque o seu modelo de negócio ainda está orientado dessa maneira e há outros que apresentam see now, buy now. Portanto nós já retirámos a estação para a qual estamos a trabalhar, já antes da pandemia, exatamente para flexibilizar para que o nosso evento seja o mais útil possível ao conjunto de designers que trabalhamos. Eles devem trabalhar de acordo com aquilo que é a filosofia da sua empresa. Para um criador que vende internacionalmente, em showrooms, tem sempre de ter uma antecedência grande senão não é possível proporcionar a entrega. Porque a moda tem um lado organizado e não estamos a assistir como no passado que era tudo organizado. Agora temos cinquenta mil possibilidades, e nós enquanto organização tivemos que flexibilizar para responder a esse conjunto de possibilidades que a nossa família de criadores usa.

O que é que torna esta edição especial?
O que é que torna esta edição especial? Para já, novas coleções. Sendo que o produto dos criadores foi sempre o mais sustentável de todos. Porque produzem em escala controlada, não têm desperdício. Sendo que há criadores que já nasceram com base nos pressupostos da produção ética, o caso de uma Constança Entrudo, de uma Duarte. Quando surgiram já estavam debaixo disso e depois temos outros criadores que já existiam antes e que vão fazendo o seu trabalho e adaptando as suas marcas aquilo que é o caminho mais interessante para eles enquanto marca. Ver as coleções continuará, em moda, a ser a coisa mais importante do mundo. Portanto nesta edição vamos estar num espaço que nunca estivemos, e que mais uma vez a cidade de Lisboa ainda não habita, não conhece, ainda não visitou. Isso faz muito parte do nosso ADN, esse nomadismo pela cidade para dar a conhecer novas áreas da cidade. Na edição passada estivemos na Factory Lisbon, no Hub Criativo, um espaço que ainda nem estava pronto. Nesta edição vamos ocupar um espaço que irá futuramente ser um hub social que pertence à Santa Casa da Misericórdia e que nos desafia. Nós também precisamos de desafios porque somos uma organização criativa de pensamento, não somos uma organização só executiva, não somos uma produtora. E, portanto, precisamos de desafios para continuar a sentir a cidade e percebê-la. Porque a cidade, então neste momento, está em constante mutação. Esse lado do espaço é sempre emocionante. E depois o mix de pessoas. A ModaLisboa não trabalha só num segmento de pessoas. A ModaLisboa através do seu conjunto de criadores trabalha vários targets dentro da própria cidade. E, portanto essa é também uma das missões da ModaLisboa neste momento que é numa Lisboa tão diferente, numa Lisboa que é habitada por tantas outras pessoas que não são de nacionalidade portuguesa, mas que fazem parte da cidade e que já são muitas, promover esse encontro das múltiplas comunidades que a habitam. E em termos de faixas etárias, de grupos da própria cidade. Desde os muito jovens até ao público que nos acompanha há 30 anos.

sara.a.santos@dn.pt

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