Nova "Barbie autista" está a gerar polémica
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Nova "Barbie autista" está a gerar polémica

Inclusão de um botão de "pronomes" num acessório de comunicação da boneca divide opiniões e motiva acusações de "doutrinação" por grupos conservadores.
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A gigante mundial dos brinquedos Mattel encontra-se novamente no centro de um intenso debate ideológico após o lançamento da sua mais recente boneca da linha Fashionistas: a primeira "Barbie com autismo". Embora o lançamento tenha sido inicialmente saudado, por alguns setores, como um passo histórico para a representatividade neurodivergente, o foco da atenção mediática desviou-se rapidamente para um detalhe num dos acessórios.

A boneca é acompanhada por um tablet de comunicação (conhecido como dispositivo AAC - Comunicação Suplementar e Alternativa), utilizado por muitas pessoas autistas não-verbais para comunicarem. No ecrã de plástico deste acessório, entre vários ícones que representam necessidades e sentimentos, encontra-se um botão explicitamente rotulado como "pronomes".

Este detalhe foi suficiente para desencadear, desde logo nos EUA mas não só, uma vaga de críticas em plataformas como o X (antigo Twitter) e o Facebook.

Grupos conservadores e críticos da chamada "ideologia de género" acusam a Mattel de aproveitar a representação de uma deficiência para introduzir conceitos de identidade de género junto de crianças. Alguns comentadores chegaram a apelar ao boicote da marca, tal como aconteceu no passado com outros lançamentos inclusivos.

Roupa suave ao toque e articulações nos pulsos e cotovelos que visam permitir imitar os movimentos típicos dos autistas são das características da nova boneca. Na mão, o AAC que está a provocar discórdia.
Roupa suave ao toque e articulações nos pulsos e cotovelos que visam permitir imitar os movimentos típicos dos autistas são das características da nova boneca. Na mão, o AAC que está a provocar discórdia.Mattel

Além dos acessórios, a própria estrutura física da boneca foi alterada. Ao contrário de outros modelos da linha, esta Barbie possui articulações adicionais nos pulsos e cotovelos.

Esta modificação não é meramente estética; foi desenhada para permitir que a boneca realize movimentos repetitivos, conhecidos como autoestimulação, um comportamento comum no espectro autista para ajudar na regulação sensorial. Embora esta funcionalidade tenha sido amplamente elogiada por associações de autodefesa do autismo pela sua precisão e realismo, tornou-se também um ponto de discussão sobre até que ponto os brinquedos devem mimetizar comportamentos específicos de saúde mental e desenvolvimento.

Representação técnica vs. ideologia

Em defesa da Mattel, representantes da comunidades de autistas vieram entretanto esclarecer que esta inclusão de pronomes em dispositivos AAC não é uma escolha política, mas sim uma necessidade linguística real. Para que um utilizador destes dispositivos consiga construir frases gramaticalmente corretas -- como "Eu quero comer" ou "Ela está a brincar" -- os botões de pronomes são ferramentas essenciais e padrão na tecnologia real.

A empresa foi ainda elogiada pelo facto de ter incluído roupa com texturas suaves na boneca. O vestido foi desenhado especificamente para evitar elementos que causem desconforto sensorial. Foram escolhidos tecidos suaves e costuras minimizadas, refletindo a realidade de muitas crianças autistas que sofrem de hipersensibilidade a certas texturas ou etiquetas de roupa.

A Mattel sublinhou que a boneca foi desenvolvida em estreita colaboração com a Autistic Self Advocacy Network para garantir que todos os detalhes, incluindo acessórios como os auscultadores de cancelamento de ruído que acompanham o brinquedo, fossem o mais fiéis possível à realidade vivida por muitas pessoas no espectro.

Um historial de controvérsia

Esta não é a primeira vez que a marca enfrenta polémicas. Nos últimos anos, a Barbie tem diversificado a sua linha para incluir bonecas com vitiligo, em cadeiras de rodas, portando aparelhos auditivos e até uma versão inspirada na atriz trans Laverne Cox.

Para os especialistas de marketing, esta nova controvérsia é apenas mais um capítulo nas "guerras culturais" que continuam a moldar o consumo e a perceção das marcas globais em 2026.

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