João Tique tem o porte e o tom de um alentejano de gema: é assertivo, claro e sabe muito bem o que quer dos seus vinhos. Depois de décadas a trabalhar em importação e exportação para os mercados internacionais, sobretudo o asiático, João sentiu aquilo que muitos outros produtores têm sentido: que os vinhos nacionais se aproximavam cada vez mais das tendências pedidas pelos consumidores, crescendo em visibilidade, mas perdendo em algo que é fundamental para os manter atrativos e diferenciados. A sua capacidade de expressar o terroir nacional, usando castas indígenas e deixando que a natureza mostre o que de melhor cada matéria-prima pode aportar a um vinho.Foi por isso que decidiu que era tempo de voltar a pôr mãos à obra. Quando o pai faleceu, tinha João 14 anos, o irmão promoveu-a a adegueiro nas lidas da casa. Quando foi para a Universidade, conheceu “o professor Colaço” – Francisco Colaço do Rosário, sobejamente conhecido por ser responsável de referências como o Pêra Manca – “porque era colega do seu filho, e ele foi-me ensinando uma série de coisas”, conta durante uma conversa com um grupo restrito de jornalistas, em Lisboa. “Aquilo que se ensina hoje na universidade é em prol da quantidade”, mas “para mim o vinho é arte”. E isso significa, continua, que um vinho tem de ser algo “em que se entende claramente as regiões”. E talvez tenha sido também uma das razões pelas quais deixou o curso universitário a meio.Desde 2020 que o mercado recebe vinhos produzidos por João Tique – “sou eu o enólogo e o viticultor”, diz orgulhoso – nos 5 hectares de vinha que alugou mesmo ao lado do Convento do Espinheiro.Produz não mais do que três mil garrafas por cada uma das referências que tem até agora, num total de cerca de 10 mil garrafas anuais. Os 11 vinhos que estão atualmente no mercado dividem-se por três gamas diferentes, com preços que variam entre os 18 euros e os 200 euros.Suavis, Bellus e Cultus tentam ser autoexplicativos para os consumidores, que os podem encontrar sobretudo em restaurantes e garrafeiras especializadas, fora dos grandes circuitos comerciais. Os vinhos Suavis são referências mais acessíveis e versáteis, com um perfil mais consensual; os Bellus apresentam-se mais gastronómicos e com mais corpo e complexidade – e também mais referências, havendo lugar a tintos, brancos, rosés e alguns monovarietais.Já os Cultus, os topo de gama, aparecem na opção branco e tinto, e ganharam uma nova referência este ano: o Cultus Grande Reserva 2021. Foi precisamente o lançamento deste último que juntou jornalistas e produtor, em Lisboa, porque João Tique queria dar a provar, presencialmente, aquele que considera ser o expoente máximo da sua visão para os vinhos que produz. Este vinho conta ainda outra história: é o primeiro a ser totalmente produzido com uvas próprias, o que reforça o carácter profundamente autoral deste projeto, que é também um negócio de família. “Não faço isto para ser rico”, atira com uma gargalhada quando questionado sobre a sustentabilidade do negócio. “Mas é sustentável”, garante. A afirmação é confirmada pela mulher de João Tique que, na outra ponta da mesa, acena enquanto esclarece que é ela quem toma conta das contas – passando o pleonasmo – da empresa.O Cultus Grande Reserva 2021 é um monovarietal de Petit Verdot, uma casta que cada vez mais ganha expressão no Alentejo, onde a frescura das uvas ajuda a equilibrar o clima mais quente. Estagiou 42 meses em barrica usada, seis meses em garrafa antes de ser comercializado. As vinhas onde crescem são influenciadas pelos rios Degebe e Xarrama, situando-se a norte da cidade de Évora. João Tique é um defensor e utilizador de práticas sustentáveis, sem utilização de herbicidas ou fertilizantes químicos, com trabalho maioritariamente manual e fermentações espontâneas. “O trabalho começa na vinha”, garante, enquanto propõe outro brinde, e explica que mantém na adega a mesma intervenção minimalista. “O que eu quero é que as pessoas bebam o melhor que a terra dá”.Não são precisos – nem se querem – grandes artefactos, nota o empresário. “Os consumidores sabem reconhecer um vinho com identidade”, salienta. Não será por acaso, continua, que as suas referências têm lugar nas cartas de cerca de 150 restaurantes, muitos deles com distinção no famoso Guia Michelin.João Tique produziu apenas 250 garrafas, numeradas, deste Cultus Grande Reserva 2021, que tem um PVP de 200 euros e que se apresenta como um vinho muito intenso na cor, já a acusar algum envelhecimento e com muitas notas de frutos pretos e tabaco no nariz. Na boca, é um vinho que revela elevado potencial de evolução, com taninos ainda muito presentes, mas bastante fresco e com um final longo elegante.Um vinho que revela um Alentejo menos comum, mas talvez mais fiel aos seus princípios mais básicos.