Geórgia. O país berço do vinho que resistiu até à fúria de Tamerlão contra as vinhas

Há já oito mil anos, na Transcaucásia, se fermentavam as uvas para fazer bebidas alcoólicas. Em recipientes de barro, os qvevris, enterrados, como ainda hoje acontece na região georgiana da Kakhetia, apesar de também se produzir no país vinho com técnicas modernas, legado de um general que também era poeta.

Os retratos de homens e mulheres pendurados nas paredes, as elegantes poltronas onde se costumavam sentar a falar sobre política e literatura, o velho piano, a adega anexa, os cuidados jardins ingleses em redor, tudo ajuda a imaginar como seria na primeira metade do século XIX a vida neste palacete em Tsinandali, então propriedade dos Chavchavadze, família que deu à Geórgia figuras como o príncipe Garsevan, o embaixador que assinou com Catarina a Grande o tratado de proteção pela Rússia, e o seu filho Alexander, umas vezes general ao serviço dos czares, outras vezes rebelde contra Moscovo, pois o sentimento de independência sempre foi muito forte entre os georgianos. Alexander era também poeta e é considerado o pai do romantismo georgiano.

"O príncipe Alexander era muito avançado para a época e foi o introdutor do método moderno, ou europeu, de fazer vinho. Na Geórgia só se usava o método tradicional, de fermentação em potes de barros, os qvevris", explica Mariami Mamulashvili, enquanto me serve de guia pelas salas do palacete, cuja varanda tem vista para o Cáucaso, cordilheira onde estão os mais altos picos da Europa.

Os vinhedos da propriedade continuam a produzir excelente vinho, com os rótulos a exibirem o nome em inglês "Prince Alexander Chavchavadze" e um esboço da fachada do palacete. Atenção que as garrafas com um líquido transparente não são de vinho, mas sim de chacha, aguardente que também é prova da perícia vinícola dos georgianos.

Situada na região da Kakhetia, desde a antiguidade produtora de vinhos, Tsinandali é o nome de uma vila a apenas 80 quilómetros de Tiblissi e as suas muitas adegas são cada vez mais visitadas, à medida que o turismo vai descobrindo os atrativos da Geórgia, país que se tornou independente em 1991 da União Soviética, mas tão antigo que os seus dois grandes reinos no passado, a Iberia e a Cólquida, foram assim nomeados pelos historiadores greco-romanos. O próprio nome Geórgia tem provável origem grega, pois os georgianos chamam-se a si mesmos de kartevelianos.

Ora, a recente era de independência nacional trouxe também um renascido interesse pelas tradições, a começar pela do vinho. E a adega Twins (fundada por dois irmãos que adotaram este nome em inglês como marca) foi a primeira em 1994 a engarrafar o vinho feito nos qvevris. "Não há família no campo que não faça o seu próprio vinho. Os qvevris podem ter tamanhos enormes, levar até dez mil litros, mas também podem ser pequenos, enterrados em casa. Na Twins usamos qvevris de três, quatro e cinco mil litros. Assim, o que produzimos aqui é aquilo que a Geórgia sempre produziu, vinho de grande qualidade", diz Eldar Ramishvili, um dos técnicos por trás do sucesso da Twins. E sentado à mesa, num restaurante com mesas de madeira que serve para provas, manda vir uma garrafa de chacha, para acompanhar a conversa. O meu anfitrião quer também saber mais dos vinhos portugueses. Não é por acaso que na colina de Tiblissi onde fica a fortaleza de Narikala a enorme estátua a simbolizar a Mãe Geórgia tem o copo para o vinho numa mão e a espada noutra. A mensagem desta gente hospitaleira é clara: quem vier por bem será bem recebido neste país que se intitula, e com razão, o berço do vinho. Quem vier por mal...

"Tudo na Geórgia se conjuga para dar vinhos de grande qualidade. No passado, exportava-se muito para os países da União Soviética, mas hoje é para todo o mundo. E a antiguidade da nossa relação com o vinho, as inúmeras castas autóctones, os muitos microclimas por causa das montanhas, contribuem para que cada vez mais se procure o vinho georgiano e muitos dos nossos visitantes vêm cá almoçar e fazer uma prova, mas já nos conhecem antes", afirma Aleko Burnadze, da Shumi, adega também da Kakhetia, fundada em 2001 e que se orgulha de ter criado o primeiro museu da vinha e do vinho no país. Por um lado, expõem achados arqueológicos ligados ao vinho e também réplicas, como da famosa estatueta em bronze do mestre do brinde, o tamada, segurando o tradicional corno que serve de copo; por outro, uma zona de vinhedos com cerca de 300 castas georgianas e mais 105 de vários países. Shumi em georgiano quer dizer "puro", vinho não diluído, faz questão de acrescentar Burnadze, que tem estudado a história do vinho.

De regresso à capital, uma passagem por Alaverdi, mosteiro com mil anos mas cuja primeira edificação deverá ter ocorrido ainda no século VI. Também ali há vinhas, a relembrar que com a conversão ao cristianismo em 337, pelo rei Mirian III, o vinho ganhou novo papel na vida dos georgianos, o religioso. E santa Nino, a evangelizadora vinda da Capadócia, fez a sua cruz a partir de um ramo de videira, diz a lenda. Seguidor de um islão fanático, Tamerlão, descendente das hordas mongóis, invadiu oito vezes a Geórgia e numa delas, no início do século XV, chegou a ordenar que se arrancassem todas as vinhas, para não haver vinho para os cristãos.

"A antiguidade do vinho na Geórgia está atestada por achados arqueológicos. Pelo menos oito mil anos. Por isso, nos consideram o berço do vinho. A própria palavras ghvino, com o som difícil georgiano gh a cair, deu origem a vino e vinho em muitas línguas", esclarece Ia Gotsadze, do Museu do Vinho em Tiblissi. E mostra as qveris, tão semelhantes às talhas com que em certas zonas do Alentejo também se faz vinho ainda hoje. Não esquecer que houve um tempo em que a Iberia do Cáucaso e a nossa Ibéria até fizeram parte do mesmo império, o romano.

O DN viajou a convite da Embaixada da Geórgia (e agradece ao guia Giga Martashvili)

leonidio.ferreira@dn.pt

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