Discos de vinil. Como limpá-los a preços variados

O ressurgimento da música em vinil trouxe também a necessidade de limpar os discos. Mas também aqui a tecnologia do século XXI dá uma preciosa ajuda para que o som gravado nas estrias seja o mais puro possível - e, de facto, melhor do que o digital.

Provavelmente uma das maiores vitórias do marketing do nosso tempo foi a ideia de que o "digital" é sempre melhor do que o "analógico". Ou seja, de que o facto de se pegar numa qualquer realidade (uma imagem, um som...) inevitavelmente holística e parti-la em pequenos pedaços, numerá-los, guardá-los num qualquer suporte e depois extraí-los para os reproduzir através de uma fórmula matemática era, de algum modo, um processo mais "verdadeiro" do que simplesmente encontrar uma forma de preservar essa mesma realidade congelada no tempo, talvez miniaturizá-la mantendo todas as suas componentes, e expandi-la quando necessário.

De uma forma extremamente simplista, a velha discussão já com décadas entre digital e analógico pode de certa forma resumir-se ao parágrafo acima. Ambos os métodos de gravar e reproduzir a realidade têm vantagens e inconvenientes e o mercado, em especial na música, tem vindo a demonstrar que a conveniência bate quase sempre a qualidade. No entanto, com 27,5 milhões de unidades vendidas em 2020 só nos EUA, o vinil é hoje o suporte físico de música mais procurado. Como se explica então o ressurgimento dos discos de vinil?

Há vários fatores a contribuir para o facto. Um deles é a necessidade humana de contacto físico com aquilo que ama, neste caso, a música, algo que o CD não permite de forma satisfatória. Com o vinil, dadas as dimensões da capa e do próprio disco, parece que estamos em maior contacto com a música. Depois, há simplesmente a questão do som - desde que não o esteja a ouvir num daqueles gira-discos de plástico que deviam ser classificados um crime contra a Humanidade!

E desde que não esteja a ouvir um disco cheio de lixo com a música a tentar passar pelo meio da "batata frita" do pó acumulado durante anos.

A revolução dos ultrassons

É assim imprescindível limpar os discos antes de os ouvir. Idealmente, até os acabadinhos de comprar (se nunca viu um disco ser impresso, faça uma pesquisa no YouTube e arrepie-se. Aqueles sítios são tudo menos limpinhos). E a melhor forma de limpar um disco de vinil continua a ser, hoje como antigamente, lavando-o.

Agora por favor não o faça com água da torneira, nunca (use sempre água destilada, e de preferência de qualidade laboratorial) e garanta acima de tudo que, quando põe o disco a tocar, este está totalmente seco. Se alguma vez ouviu a conversa de "pôr o disco a tocar molhado é que é bom" não vá nisso. Em primeiro lugar, dada a resistência que a água cria ao movimento da agulha, vai perder inevitavelmente as frequências mais altas (agudos). Em segundo lugar, ao fazê-lo está a dar cabo da cola usada para prender o diamante da ponta da agulha ao cantiléver, pelo que pode simplesmente destrui-la...

Regressemos à limpeza. Nas últimas décadas, o maior avanço tecnológico nesta área é a limpeza por cavitação. Basicamente, trata-se de mergulhar os discos em líquido que é, por sua vez, sacudido por ondas sonoras acima da capacidade auditiva humana. Isto gera bolhas microscópicas na água que entram nas estrias do disco e removem as impurezas, sem danificar os altos e baixos que são a gravação.

O truque para fazer isto de forma segura (para o vinil) e eficaz é acertar na frequência de som ideal, na quantidade de tempo que se deve manter a superfície do disco submerso e, claro, na qualidade do material utilizado na máquina.

Pioneiros nesta tecnologia são os alemães da Audio Desk, cujos sistemas continuam a ser considerados dos mais avançados do género. A máquina traz consigo dois frascos de líquido (cuja fórmula é exclusiva) e o funcionamento é simples: vertido o "detergente", basta introduzir o disco. Após uns seis minutos, está limpo e seco dos dois lados, com a sujidade toda tirada por ultrassons.

Esta conveniência, no entanto, tem um preço: cerca de 3 mil euros,

Entretanto, a concorrência não esteve parada e surgiram já no mercado outras alternativas. O especialista em áudio analógico norte-americano Michael Fremer experimentou já os modelos da CleanerVinyl.com e, apesar do aspeto talvez mais rústico destes modelos, parecem funcionar. E a marca vende internacionalmente.

A tradicional aspiração

O processo mais tradicional de "banhar" o vinil passa por usar uma esponja própria - que não liberte quaisquer pelos - para lhe remover as impurezas com o líquido de limpeza e depois secá-lo usando uma máquina de aspiração.

Modelo histórico neste sistema era o norte.-americano VPI, que é atualmente copiado por sistemas como o Pro-Ject de que vamos falar. O seu funcionamento é simples: um prato onde se coloca o disco (preso firmemente com uma rosca), que roda vagarosamente. O utilizador coloca o líquido sobre o disco e com a referida esponja de microfibra espalha-o na superfície. Depois, coloca o braço do aparelho sobre o disco e liga-o. Este vai aspirar o líquido, secando, e simultaneamente retirando o lixo.

O Pro-ject VC-S2 ALU "bebe" da melhor tradição do VPI e melhora em alguns aspetos: o prato roda para ambos os lados e o disco enquanto é limpo não toca em lado nenhum. E custa menos de 500 euros. Muito recomendado por quem o usa já há várias semanas.

Solução menos boa mas com um princípio parecido é a simples "maquineta" manual para dar uma banhoca aos discos, que depois são colocados a secar como se de pratos de cozinha se tratassem. Chama-se Pro-Ject Spin-Clean System MKII, não é brilhante, mas sempre é melhor do que ouvir discos sujos. Sim, são quase 150 euros, mas apesar de tudo faz diferença.

Pelo menos, uma escova destas

A AudioQuest faz a escovas para limpar discos praticamente desde que a empresa foi fundada, há 40 anos. Duas filas de cerdas de carbono, cujo objetivo é usar no disco enquanto ele está a rodar no prato. Gentilmente (sem pressionar) umas duas voltas, depois ergue-se a escova de maneira que a segunda fila apanhe o pó acumulado e arrasta-se do centro para fora, tirando o lixo.

O modelo é tão famoso que foi copiado por basicamente toda a gente. E é muito eficaz? Meh. O novo modelo, em que a marca norte-americana incluiu "contactos em ouro" para supostamente reduzir a eletricidade estática é assim tão melhor do que o antigo? Meh. Mas por 30 euros não ter uma coisa destas ao pé do prato e usá-la de cada vez que se vai deliciar com o som verdadeiro de um bom vinil é, no mínimo, algo um pouco turvo.

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