Carregar bagagem será uma coisa do passado? A promessa das malas inteligentes

Pretendem ser a próxima revolução nas deslocações. Ou, pelo menos, a maior ajuda desde que alguém (nos anos 70) se lembrou de instalar rodas numa mala. Venha connosco nesta viagem.

Por muito que se goste de viajar, carregar com as malas que o ato implica seguramente é uma das piores tarefas incluídas em todo o processo.

No tempo em que o turismo era tão caro que apenas a elite o podia fazer - uma realidade que se manteve basicamente até ao período pós Segunda Guerra Mundial - tinha-se empregados (os criados...) para transportar as bagagens. Com a democratização das viagens possibilitada pelo crescimento das economias liberais, primeiro, e quando os regimes autoritários foram, por fim, abrindo fronteiras a pelo menos alguns dos seus cidadãos, o tráfego mundial cresceu para números impensáveis em meados do século XX.

Com isto, a quantidade de bagagem transportada cresceu exponencialmente. E a grande maioria continuou a ser carregada, nos curtos trajetos, por força humana.

Até que, em 1970, o norte-americano Bernard Sadow teve a simples ideia de colocar, na sua mala de viagem, umas rodas e uma alça para a puxar. Ocorreu-lhe no aeroporto de Porto Rico, quando regressava para casa vindo de Aruba, nas Antilhas, com a mulher e os filhos, e tinha duas malas pesadas para acartar. Ideia brilhante!

Só que não. Diria, o próprio, à CNN, por ocasião dos 40 anos da invenção: "Mostrei [o protótipo] a todas as grandes lojas de Nova Iorque e a vários retalhistas e todos disseram que era uma coisa de gente doida. "Ninguém vai querer andar a puxar uma peça de bagagem com rodas!" As pessoas simplesmente não pensavam dessa forma".

Além disso, transportar o peso das malas "era uma coisa máscula", prosseguiu Sadow, dando esta como a principal razão para que a sua invenção - que conseguiu patentear em 1972, com o número 3 653 474 para "Rolling Luggage", nos EUA - demorasse alguns anos a encontrar o seu lugar ao sol.

Em 2010, quando esta entrevista aconteceu, Sadow tinha 85 anos. Viria a morrer no ano seguinte, mas teve bem tempo de ver o êxito da sua invenção. Quanto à patente, no entanto, não lhe serviu para muito. Menos de dois anos depois do registo, escreve a Forbes, vários fabricantes perceberam o potencial da ideia e encontraram soluções para contornar o registo. Hoje, segundo esta revista de economia, o mercado das malas de viagem vale mais de 23 mil milhões de euros.

Reinventar a roda... com inteligência

É a outro norte-americano, piloto da Northwest Airlines, que devemos a "mala de mão" com rodas e pega como a conhecemos hoje. Em 1987, farto de andar de aeroporto em aeroporto com malas pesadas ou sacos pouco convenientes, Robert Plath meteu-se na sua garagem e, eventualmente, saiu de lá com a solução para o seu problema. E facilitou a vida a milhões de pessoas.

Plath virou a mala tradicional para uma posição vertical, permitindo um melhor controlo sobre o seu movimento, colocou-lhe uma alça de plástico retrátil e, claro, rodas na parte inferior. Nascia a Rollarboard, que viria a registar e comercializar sob a marca de malas Travelpro - que continua a existir, com produtos de elevada qualidade.

O formato, esse, foi reproduzido basicamente por toda a gente. Incluindo pelas mais avançadas gerações de bagagem, que prometem vir a facilitar-nos a vida tanto quanto as inovações anteriores. Um dia...

Reinventar a roda... com inteligência artificial

Algumas até anunciam poder já ser compradas, mas apenas uma entregou exemplares aos clientes. A Cowa Robot lançou uma campanha de crowdfunding prometendo a "R1: A primeira e única mala de viagem robótica", que acompanha o dono sozinha para qualquer lado. Nos vídeos promocionais surge mesmo a rolar ao lado do dono.

Isto foi em 2016 e a startup chinesa, que tinha 455 mil euros como objetivo, arrecadou quase 568 mil. E, de facto, entregou (pelo menos algumas) malas aos compradores. Alguns vieram para as redes sociais dizer que saíram desiludidos.

Desde logo porque a mala é pesada - naturalmente. Ela tem de incluir o motor, a bateria, etc. "Só a mala pesa 6,2kg", escreve no Reddit um comprador, "o que quer dizer que só me sobram 800g para atingir o limite de peso dos compartimentos superiores do avião". Mas há quem goste: "Sim, não é perfeita, mas funciona! Ela segue-me!"

O que não faz, diga-se, é andar ao lado do dono, como os vídeos promocionais mostravam. O sistema implica usar uma pulseira Bluetooth que serve de "isco" eletrónico para que a mala saiba para onde ir.

Muito mais sofisticadas seriam as da Travelmate Robotics, que há pelo menos três anos prometia malas robô que, apesar de à vista terem um aspeto semelhante àquele que estamos habituados a ver nas bagagens modernas, encerrariam sistemas de inteligência artificial tão sofisticados que não apenas seguiriam o dono, como saberiam sempre onde estão, por GPS. Além disso, descobririam o dono via app no telemóvel e evitariam obstáculos com um conjunto de sensores incorporados do género dos que equipam os aspiradores robô.

Pequeno problema: depois de operações de crowdfunding (mais de um milhão de euros em 2021) e de a startup anunciar que tem as malas à venda no seu site, não é conhecida uma única unidade entregue. O pedido de contacto do DN à empresa não obteve resposta. A conta do Twitter da mesma foi, inclusivamente, suspensa...

Há ainda uma terceira empresa de robótica neste mercado. A chinesa ForwardX - que, segundo a VentureBeat, já assegurou mais de 9 milhões de euros em capital de risco - anunciou a criação da mala Ovis, semelhante ao modelo da Cowa Robot, mas que jura, esta sim, que é capaz de ir ao lado do dono, e de outro modelo, a Puppy1, que funcionaria também como transporte pessoal, tipo Segway. Mas não sabemos se alguma vez estes artigos verão a luz do dia.

Reinventar a roda... sem inteligência incorporada

O que já existe é a mala que é scooter. A Modobag custa uns 1400 euros (mais taxas e portes) e foi criada para o levar a si, juntamente com a sua roupa de fim de semana.

"Inventada pelo empreendedor e ávido viajante de Chicago Kevin O"Donnell", pode ler-se no site oficial do produto, "a ideia surgiu-lhe quando ele estava a empurrar os miúdos em cima da sua mala pelo aeroporto e pensou: "Mas por que é que não podemos andar nós em cima da bagagem e chegar até onde queremos mais depressa e com menos stresse?!" O amigo fabricante de motos Boyd Bruner gostou do projeto e nasceu assim a Modobag.

Uma carga completa da bateria permite viajar uns 9 quilómetros a cerca de 12 km/h. Em princípio, é mais do que suficiente para chegar a qualquer porta de embarque de um aeroporto.

Quanto a afastar-se das pernas dos outros passageiros ou das enormes filas de espera, no entanto, dependerá exclusivamente do condutor, neste caso. Já evitar aqueles degraus que, em alguns aeroportos (estamos a olhar para ti, Humberto Delgado...), parecem saídos do nada... nem a mais sofisticada inteligência artificial do planeta será, provavelmente, capaz de fazer.

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