Pouco passava das 9.30 da manhã e o sol era já abrasador, naquele sábado de julho, junto à base de acesso ao Panteão dos Almeida e Castelo/Forteleza de Abrantes. Entre o pequeno e eclético grupo de pessoas que começava a reunir-se em amena conversa, havia professores catedráticos - um ou ou outro com experiência de cargos políticos -, um autarca, funcionários universitários (vários cumulando essa categoria com a de alumni) e entre dois a três jornalistas. A formação prevalente? Ciências Económicas e Gestão, com um ou outro penetra de Direito e, quiçá, alguma outra área do saber que terá passado despercebida. O programa parecia fora do comum: Visita Cultural e Gastronómica a Abrantes. A ideia partia de fonte ainda mais inusitada: do professor Eduardo Catroga, nascido e criado na Aldeia de S. Miguel de Rio Torto, a escassos quilómetros da cidade escalabitana..Sempre orgulhoso das suas origens, Eduardo Catroga quis organizar um evento que desse a conhecer o muito que a sua terra tem a oferecer aos amigos, colegas e quem mais se quisesse juntar num périplo cultural pelas bandas de Abrantes. Como bom português, a cereja sobre o bolo seria, após uma boa manhã de caminhadas por monumentos e museus, uma almoçarada oferecida pelo próprio na sua quinta e um fim de tarde com lanche na aldeia onde nasceu..Mas vamos por partes. Quem, do DN, aceitou o Desafio Catroga, saiu de Lisboa na véspera, rumando a Abrantes ao fim da tarde. Para pernoitar, e após uma breve pesquisa nos sites de reservas, chamou à atenção a Quinta de Coalhos, a escassos cinco 5,5km de Abrantes, com apelativas fotos no Booking.com e pontuação de 9 em 10..Logo aí a primeira surpresa. Franqueado um portão, aberto por meio eletrónicos, e percorrido um longo caminho pelo meio de denso arvoredo, revela-se subitamente um edifício que parece saído de um conto de fadas. Fica-se mais tarde a saber que a quinta, construída em estilo romântico evocativo da Belle Époque no início do século XX, foi pertença da mesma família durante várias gerações. Na posse dos atuais proprietários está desde os Anos 1980 que têm vindo a recuperá-la e a dedicá-la ao turismo..Os quartos, cada um de sua cor - a nós coube o Quarto Grená - são maravilhosos e decorados com extremo bom gosto, como aliás toda a quinta..Tendo chegado já bem tarde, José Alberty, proprietário da quinta velou para não passássemos fome: fez reserva no restaurante Santa Isabel. Situado em pleno centro de Abrantes, na rua com o mesmo nome, o Santa Isabel já por dois anos consecutivos teve recomendações na lista do Guia Michelin. Propriedade de Alberto Lopes, nas paredes em pedra negra estão espalhadas muitas fotografias suas com caras famosas. Percebe-se porquê....Como tão bem anunciava no seu menu, "pela sua localização geográfica, Abrantes sofre influência de três distintas regiões - Beira Baixa, Alentejo e Ribatejo - o que lhe enriquece sobremaneira a gastronomia". Já para não falar de que está ali à beira do Tejo, o que talvez explique um dos seus pratos mais famosos de nome Sabores do Rio, composto por Sável, enguias e ovo de sável. Aliás as enguias fritas com açordas de ovas são outro must da casa, mas optámos por provar a maior variedade de iguarias possível, por isso foi pedida Telha de porco preto com vários acompanhamentos: nada mais, nada menos, que espargos, migas de alheira, esparregado e batata frita. E tudo isto servido numa telha autêntica. Uma delícia!.Mais tarde, ficámos a saber que naquela cidade, com pouco mais de 16 mil habitantes, ainda existem outros dois restaurantes atualmente com recomendações Michelin: A Velha e Chef Victor Felisberto..A par da recomendação Michelin, ficámos no dia seguinte ainda com uma recomendação Catroga, que tem uma predileção não só por estes, mas também pel'A Pegacha e o mais sofisticado Tulipa, no Pego, "a 10 minutos de Abrantes, pela Nacional 118", segundo diz o próprio..Bem vistas as coisas a nossa viagem começa na Idade do Bronze, uma vez que o primeiro reduto muralhado onde hoje se situa o Castelo de Abrantes terá sido construído nessa época. Mas não querendo andar tão para trás, ao subirmos a rampa da acesso ao interior da Fortaleza e franquearmos os maciços portões e grossas muralhas podemos bem imaginar como terão servido bem a sua função de vigilância e proteção ao longo do séculos, passando por mãos muçulmanas e cristãs até ter caído sob o poder do Reino de Portugal..Durante as Invasões Francesas, serviram ambos os "patrões": gauleses e britânicos. Um enorme painel ao longo da muralha na rampa vai contando factos históricos até curiosos, como que os franceses, ao chegarem, exigiram 12 000 pares de sapatos para as suas tropas, tão rica era região em sapateiros, e os abrantinos fizeram-nos..Mas não faltaria muito para que a Fortaleza de Abrantes viesse a ter um papel decisivo para o Exército do Duque de Wellington, tendo sido reforçadas as respetivas fortificações..No seu interior, alberga-se a Igreja de Santa Maria do Castelo erigida em Panteão dos Almeida por nela ter esta nobre família portuguesa mandado instalar os seus túmulos, monumentos que vão do estilo gótico ao manuelino. Uma das famílias mais famosas de Abrantes e da corte, entre os quais se destaca D. Francisco de Almeida, primeiro vice-rei da Índia. A igreja foi intervencionada em 2020 da forma menos invasiva possível que conta toda a história desta antiquíssima família e período da História de Portugal: ficamos a saber, por exemplo, que nela se reuniu o Conselho de Guerra da Batalha de Aljubarrota, e foi onde D. João I conseguiu convencer os nobres a avançar para peleja..Lá fora, no vasto largo que medeia até à Torre de Menagem, ter-se-ão reunido os cavaleiros antes de se lançarem para a batalha. E subindo à torre, é possível ver 360º graus em torno, num raio de pelo menos 70km: a planície alentejana para sul, o início da lezíria, junto ao Tejo, e região beirã montanhosa para norte..Dali, com a mente cheia de sons e imagens de batalhas e cavaleiros, partimos para o Museu Ibérico de Arqueologia e Arte de Abrantes, que está instalado no antigo Convento de S. Domingos bem no centro da cidade. Aí descobrimos, de facto, que a proximidade das margens do rio Tejo atraiu para região a fixação de povos desde os tempos mais remotos. E nos seus dois pisos, as suas 14 salas estão dividas por épocas ou temas como da ocupação romana, a Idade Média ou o acervo de peças sacras, todas recolhidas ou encontradas na região..Uma das mais curiosas é uma enorme estátua romana que ocupa o centro de uma sala, sem mãos nem cabeça, que anda exibe num dos lados da suas amplas vestes as marcas da fresa do trator que revelou. Como explicou o nosso simpático e paciente guia, as partes em falta prendem-se com o facto de os romanos serem muito práticos e fazerem as estátuas de modo a terem de substituir apenas a cabeça e as mãos do cônsul ou praetor ou outro responsável de momento nas boas graças..O passeio não terminaria sem passar pelo Jardim do Castelo, junto à Escola Industrial e Comercial de Abrantes, que Eduardo Catroga frequentou. Tão pouco escapou a aldeia de São Miguel de Rio Torto, onde o economista e antigo ministro das Finanças e seu irmão Francisco, catedrático e historiador nasceram. A casinha de piso térreo totalmente recuperada ainda lá está, mas o atual proprietário recusou que a junta de freguesia nela colocasse uma placa de homenagem, pelo que a mesma foi parar deslocada vários metros ao lado..O almoço na Quinta Catroga teve direito a petiscos da região, Caldo verde ou, à escolha, a tradicional sopa local de couves com feijão, que nos meios rurais da região se come com cebola crua macia a acompanhar, e carne de porco à alentejana, ou não estivéssemos às portas do Alentejo..No final, no Café Vicente, na Praça Eduardo Catroga que deve o seu nome ao busto ali inaugurado em 2018, terminámos o dia com petiscos bem portugueses. E à despedida, o anfitrião tinha à nossa espera uma caixa de doces regionais da Fábrica local Tágide Gourmet, do Chef Fernando Correia com tigeladas, bolinhos de palha de Abrantes e broas de mel, azeite e erva doce. Tudo, simplesmente a pedir para um regresso, que será em breve com certeza..Corrigido às 15:49 atualizando informação quanto às sopas locais e restaurantes no Pego