A última viagem do comboio presidencial

O The Presidential é uma viagem do Porto ao Douro acompanhado pela gastronomia de chefs com estrela Michelin. O DN esteve a bordo da sua última viagem.
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Domingo de outono chuvoso no Porto. Dentro da Estação de São Bento muitos turistas abrigam-se do mau tempo e descobrem, talvez por acaso, os azulejos que cobrem as paredes do interior do edifício projetado por José Marques da Silva. Tudo normal. Mais inusitada é a fila que se formara minutos antes, por volta das 11h00. Um grupo heterogéneo de 68 passageiros prestes a entrar para a última viagem oficial do comboio The Presidential. Entre eles dois ex-ministros, uma atriz famosa, gentes da rádio e tv e turistas nacionais e estrangeiros. Quase o imaginário do livro de Agatha Christie para o Expresso do Oriente.

O comboio formado por seis carruagens antigas, cada uma delas de um azul-marinho imaculado, chamava a atenção aos passageiros das linhas vizinhas. Estas são, talvez, das carruagens com mais história em Portugal. Nelas foram transportados reis e rainhas (como Isabel II) ou o Papa Paulo VI. Retirado de circulação nos anos 1970, foi posteriormente recuperado, e esteve durante anos em exibição no Museu Nacional da Ferrovia, no Entroncamento. Até que em 2016, numa visita ao museu, o empresário Gonçalo Castel Branco teve a ideia de criar a experiência The Presidential - uma viagem do Porto até à Quinta do Vesúvio (190 quilómetros) bem no interior do Douro e respetivo retorno. Em 2017 foi reconhecido como o melhor evento público do mundo por uma organização internacional de turismo, os BEA World Awards. Contudo, e por várias razões o projeto não tem futuro imediato. E esta foi a sua última viagem "oficial".

Ainda antes de entrar nas carruagens, aguarda-nos um serviço personalizado de boas-vindas, é entregue um bilhete à antiga e somos conduzidos à carruagem respetiva. Ao DN calhou o lugar na cabina que em tempos era destinada aos jornalistas nas viagens oficiais. Propositadamente afastada das que transportavam as altas figuras de Estado de então.

Uma vez todos acomodados, e mal a marcha é iniciada, começam a ser servidos um rol de experiências gastronómicas e vinícolas que vão continuar, e em crescendo, ao longo das cerca de nove horas que dura a experiência, ou viagem, se o leitor preferir. É servido espumante acompanhado dos amuse bouche que vão saindo da cozinha improvisada e partilhada pelos chefs João Oliveira (restaurante Vista, Portimão) e Pedro Lemos (restaurante Pedro Lemos, no Porto), ambos com estrelas Michelin. Em duas carruagens contíguas vão cozinhando em equilíbrio toda a comida servida durante o percurso. Passados trinta minutos do início da viagem, somos conduzidos a uma das três carruagens restaurante com mesas de quatro. Chegava assim o esperado momento do almoço. Ao lado do DN sentam-se dois homens, primos, na casa dos quarenta, que após os momentos iniciais de silêncio e cortesia contam as suas expectativas da viagem. João Sousa Valles, consultor imobiliário, explica que era para estar acompanhado da sua mulher, mas um problema de saúde impediu uma viagem mais romântica. Acabou por escolher o primo para o acompanhar. "A viagem era para ter acontecido na semana anterior, mas a organização tomou isso em conta e remarcou para o dia da última viagem do comboio", conta. E desta vez, por motivos logísticos, a mulher ficou com os filhos. Mais tarde, na viagem, contará ao DN que os detalhes da organização confirmaram o investimento no bilhete (750 euros por passageiro). "A experiência é incrível, da comida à bebida, ao cuidado a sentarem as pessoas, no início da viagem a perguntar se a minha mulher já estava melhor."

O meio da viagem dá-se então na Quinta do Vesúvio pelas 15h30. Considerado o local mais silencioso do mundo e que no século XIX se tornou um dos mais importantes locais de produção de vinho do Douro, informação explicada pelo anfitrião Gonçalo Castel Branco. De seguida somos convidados a visitar a casa dos produtores, a beber o vinho do Porto e, quem quis, fumar charutos no palacete adquirido pela família Symigton em 1989. No momento de pausa, antes da visita à adega construída em 1826, um dos passageiros, o ex-ministro Miguel Poiares Maduro, revela ao DN que é um repetente daquelas andanças. "Esta é a terceira vez que faço a viagem ao longo dos anos. Desta vez vim por ser a última edição e poder despedir-me do projeto". Questionado sobre o fim do projeto, o ex-governante explicou não conhecer as razões mas disse acreditar que para se ter um turismo que traga mais receitas, "e poder pagar melhores salários, há que apostar em projetos inovadores e de alta qualidade, e menos intensivos, e este é o caso. Acho uma pena perder um projeto nesta região que, por proteção ambiental e também de sustentabilidade, não pode ser de massas. O turismo não deve ser apenas para elites, mas tudo o que sejam projetos de grande qualidade e inovação fazem sentido, sobretudo nesta região".

Somente para pormenor de reportagem, Graça Fonseca, sempre discreta, foi a outra ex-governante presente na viagem. E Rita Pereira a atriz mencionada no início do texto.

Quem pensava que o regresso da viagem seria feito em modo de descanso, enganou-se. Mal é dada a partida da saída da Quinta do Vesúvio o serviço continua: chá, enchidos e queijos, vinho e mais vinho. Depois veio a música: guitarra portuguesa e o piano tocado numa das carruagens. Na carruagem restaurante, um casal de turistas estrangeiros, ela sul-africana, ele italiano, habituado a eventos de luxo e à produção de vinho, dá azo à felicidade servida em copos, sem nunca perder a compostura. A poucos minutos do fim da viagem, falamos com Gonçalo Castel-Branco sobre o fim do projeto que durou sete anos e fez 90 viagens. "Mantemos o empenho e o interesse para que este projeto não acabe. Achamos um desperdício que o projeto mais bem-sucedido da ferrovia termine. Continuamos a acreditar no bom senso das entidades e a acreditar que o governo vai, ao cair do pano, decidir salvar o projeto que teve como impacto direto 10,3 milhões de euros na economia local".

No final da última viagem, à medida que os passageiros saíram das carruagens uma linha com toda equipa que serviu e trabalhou durante a viagem aplaudiu-os. Talvez aqui os papéis estivessem trocados. Quem mereceu os aplausos foi quem serviu sem falhas. Amanhã há uma viagem mais exclusiva, com os preços a custar o dobro e com oito chefes a bordo a cozinhar na última festa do The Presidential. Será?

filipe.gil@dn.pt

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