João Costa Pinto

João Costa Pinto

O homem que foi tudo
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João Costa Pinto é um dos melhores portugueses. Porventura a figura que no sistema financeiro melhor conhece todos os passos, todas as áreas, todos os modelos. Não há ninguém que tenha a sua experiência e conhecimento - na regulação, na banca comercial e cooperativa, na relação com o Estado, na cultura, na diplomacia, na academia. É único, mas não um vitorioso. Ganhou e perdeu. Ganhou muito e perdeu alguma coisa, já lá vamos.

Não somos adeptos de perfis a partir de cronologias redondas, mas desta vez começamos no princípio e acabamos no presente. João nasceu num tempo de esperança, mas num lugar ermo, afastado, para o bem e para o mal, de um mundo que acabara de celebrar o final da Segunda Grande Guerra. Nasceu quase no Natal, num dia gelado de dezembro, numa vila da Guarda, a poucos quilómetros da Serra da Estrela. A sua Vila Nova de Tazém é o lugar da cristandade com mais “Alminhas”, invenção do Concílio de Trento, no século XVI, que criou o conceito de pequenos templos dedicados ao purgatório dos espíritos. Quis Deus, ou alguém por ele, que João visse a luz num verdadeiro Purgatório, terra onde foram construídas 24 Alminhas para que ninguém se ousasse perder.

Não fazemos ideia se João tem alguma relação com Deus ou se rezou no lugar dos perdidos ou por perder, mas sabemos que o seu talento para o pensamento levou os pais a tirarem da ideia que o rapaz seria lavrador. Foi estudar para Viseu e licenciou-se em Economia no Porto. Terminou o curso no ano da revolução, só que era um precoce e, antes do diploma, já entrara no Banco de Portugal onde é um dos únicos, se não mesmo o único, a ter passado por todas as etapas possíveis, do mais baixo ao mais alto. técnico assessor, diretor de departamento, consultor, administrador, vice-governador e, por fim, presidente do Conselho de Auditoria.

O texto de hoje é diferente, impossível ir a todas as dimensões do nosso protagonista, e o nosso foco está no cooperativismo, nos grandes cooperativistas, em homens com vidas exemplares que alteraram paradigmas, sacrificaram-se por uma ideia comum ou resistem a este tempo de egoísmo e ausência de valores. João Costa Pinto simboliza no movimento da Economia Social, com foco na Caixa Central do Crédito Agrícola, a dificuldade de resistir a movimentos que se tornaram dominantes e que podem pôr em causa, no limite, a existência de uma banca cooperativa.

Entre 2002 e 2013, presidiu à Caixa Central. Existia no setor a ideia de que é o homem certo para efetivar uma reestruturação profunda. Costa Pinto vê o desafio como uma missão. Liderara o Banco Nacional Ultramarino e sua a incorporação na Caixa Geral de Depósitos. Essa experiência é vista pelo setor político, financeiro e económico como um óbvio sinal de que é a pessoa certa para efetivar fusões de caixas agrícolas e criar as condições para uma centralização de procedimentos que resolvesse a dispersão de poder e a dificuldade de adaptação a uma lógica mais profissional.

É o que acontece e a adaptação é feita com eficácia. As caixas modernizam-se e a Caixa Central assume o controlo e dá resposta às necessidades cada vez mais apertadas de regulação. Em 2011, João Costa Pinto preside às comemorações do centenário das Caixas Agrícolas e o seu esforço e resiliência, provada na crise da troika, é distinguido e valorizado por todos os poderes. No entanto, é nessa altura que começa a ter dúvidas no processo, não existiria o perigo de a sua cura poder matar o que o doente tinha de único, a sua capacidade de respeitar cada comunidade, a proximidade, no fundo o fator distintivo à banca comercial? Não estaria ele a, inadvertidamente, permitir que outra liderança tivesse a faca e o queijo na mão para desvirtuar a riqueza única das cooperativas?

Rodrigo Santos

João Costa Pinto promove e confia em Licínio Pina, seu administrador com quem se incompatibiliza quando percebe que o futuro estava a ser desenhado sem o seu conhecimento ou ação. Sai da Caixa Central em 2013, substituído por um homem diferente de si que estabelece, a partir desta nova ordem, uma estratégia diferente e fortemente alavancada num risco que, historicamente, as Caixas Agrícolas nunca haviam assumido. Licínio faz uma política de rutura com o passado e João afasta-se por completo, mas sem nunca perder o sentido crítico que considera sua responsabilidade enquanto figura de referência do sistema: em 2022, critica várias emissões de dívida - obrigações convertíveis em capital - que a Caixa Central realizou para cumprir exigências regulatórias. Alerta também para o peso excessivo da dívida pública no balanço da instituição.

João Costa Pinto pertence ao Conselho Estratégico da Caixa de Crédito Agrícola de Torres Vedras, tornou-se próximo de algumas figuras independentes do sistema, como Manuel Guerreiro considerado um dos ideólogos do cooperativismo e o principal opositor do caminho seguido pela Caixa Central. Uma proximidade que é também um sinal simbólico do seu posicionamento.

É um dos melhores portugueses, dissemos no início. O que é verdade. Por ser transversal no sistema financeiro, mas também por ser influente na diplomacia e na cultura. Ocupa o lugar de vice-presidente da Fundação Oriente e é um dos portugueses que mais sabe sobre a China. Escreveu sobre isso, sobre a cultura oriental, sobre o modo de ver o mundo dos chineses, sobre Macau que é uma segunda pátria - em 1982, quando os chineses começam a sair para o mundo, foi nomeado por Ramalho Eanes para o Governo de Macau, liderando a pasta da coordenação económica. Teve também um papel decisivo na implementação da moeda única, trabalhou no Banco Central Europeu e continua tão desperto como na sua adolescência de estudante de liceu em Viseu. Mantém a curiosidade, faz a apologia da pergunta e da liberdade, lê e escreve, pensa e partilha, é um homem do futuro sem deixar de ser um passageiro da renascença.

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