Foram 44 anos, uma vida dedicada à Caixa de Crédito Agrícola de Pombal, quase todo o tempo da história da jovem democracia portuguesa. E, quando Carlos Courelas revisita o que foi o seu caminho, imediatamente lhe vem à cabeça que, em 1975, no seu primeiro ano na instituição, não pressentia ali grande futuro. Quem diria que ali encontraria o sentido da sua vida, dos 24 aos 68 anos.E ainda menos que teria um papel decisivo na transformação de uma modesta caixa agrícola numa das maiores do país.Nasceu em Pombal, em 1951. O pai era operário e a mãe doméstica. Cresceu com três irmãos, dois rapazes e uma rapariga. Depois de completara instrução primária, o pai desejava que Carlos seguisse os estudos, mas não tinha possibilidades financeiras para o fazer; por isso, aos doze anos Carlos começou a trabalhar como paquete no Grémio da Lavoura.Dois anos depois inscreveu-se na Escola Industrial e Comercial de Pombal sem nunca deixar de trabalhar. Aos dezanove começou a cumprir o serviço militar na Marinha de Guerra Portuguesa e cinco anos depois tornou a Pombal e casou com Maria Elídia, o amor e o grande apoio da sua vida..Desviamo-nos um pouco da história ou andámos demasiado depressa. Estávamos no PREC, em pleno Verão Quente, quando o jovem Carlos Courelas começou a trabalhar. Fun-dada em 1917, a Caixa de Pombal, nesses tempos revolucio-nários, funcionava apenas com dois trabalhadores num pequeno escritório. Foi mesmo um grande caminho.A sua mulher acompanhou-o na aventura. Trabalhava numa caixa vizinha antes de ser transferida para Pombal. Tinha o curso comercial de contabilidade e gestão, mas não queria ficar por ali, achava de menos.Licenciou-se em Direito e os sucessos de Carlos Courelas foram também os seus, a entrega de um foi a entrega do outro. Um caminho trilhado a dois.Como o casamento.O crescimento foi rápido.Courelas beneficiou do crescimento da indústria em Pombal, o negócio das resinas teve um impacto enorme na transição da década de 1980 para a de 90. Uma enorme mudança em relação ao que encontrou em 1975 quando a cidade dependia de um setor primário onde se produzia, maioritariamente, trigo, milho, arroz e leite.Um minifúndio que não era suficiente para que a economia crescesse e a Caixa deixasse de ser um projeto de águas para-das.O peso crescente da indústria teve como consequência a multiplicação de serviços, o alargamento da atividade, o aumento dos empréstimos e dos balcões. Carlos começou por fazer serviço de caixa, mas em pouco tempo tornou-se responsável pela contabilidade. A partir de 1981, as caixas deixaram de estar sob alçada da Caixa Geral de Depósitos, e Pombal cresceu mais do que alguma vez alguém pensara possivel..Courelas estava longe de ser apenas um contabilista. As suas ideias eram certeiras e o seu rigor pouco habitual entre os que conheciam o funcionamento da Caixa. Eram necessárias mais pessoas, contratar, investir. Começaram a trabalhar com depósitos. Abriam-se novas perspetivas, e Carlos aproveitou os ventos de mudança para se impor como líder para os novos tempos. Introduziu uma nova ética profissional em que a ideologia era o trabalho. Ficavam de fora a política, o futebol e a religião. A máxima responsabilidade foi o seu lema e zelou sempre pelo bem-estar de quem ali trabalhava.O seu coração é lendário e muitas histórias são contadas.Uma das que mais o orgulha é a de um jovem colaborador cuja mulher teve um cancro. Reuniu com o conselho de administração para garantir que se o problema da jovem tivesse de passar pelo estrangeiro, a Caixa se disponibilizaria para a apoiar, o que viria a acontecer..Carlos Courelas criou um clube de lazer com ginásio e monitores para dar apoio aos colaboradores, onde não faltava um osteopata para fazer sessões de tratamento aos fins-de-semana. O ativo principal de cada empresa são as pessoas, nunca deixou de dizer.Em 2002 é chamado a assumir responsabilidades na Caixa Central. Um desentendimento com o Banco de Portugal leva o regulador a suspender o conselho de administração da Caixa Central. Perante a crise e o impasse muitos colegas de várias caixas de todo o país pressionam Courelas para que fosse a votos para ser o substituto de Jorge Nunes, presidente que fora obrigado a bater com a porta. Aceita liderar uma lista opositora à de Licínio Pina. As duas listas a sufrágio acabam por ser fundidas e é Adriano Diegues, de Bragança, quem assume a presidência. Quase no final do mandato, Diegues prefere não continuar e Carlos Courelas é indigitado. Foi o impulsionador de uma fase de moderação da Caixa Central e contribuiu para uma maior união das várias caixas.Carlos tem dois filhos e quatro netas. O filho trabalha na Caixa de Pombal e a filha é médica. Gosta de todo o tipo de música. O vinho é como a música, palavra de produtor. Porquê, perguntamos-lhe. "Por-que um e o outro abrem a caixinha das memórias e conjugam os dois prazeres de forma que se tornem numa nota só. É como ter sorte no amor", responde.Carlos é um sortudo.