Arnaldo Santos não viu os dias da fundação da sua Caixa Agrícola, em 1914. Dias agitados, de revolução e contrarrevolução nas ruas, também nas ruas de Tomar onde o “banco para o povo” dividia as atenções com o Congresso Operário que mobilizou as 90 mil almas já sindicalizadas. É nesse ambiente de um comunismo antes do comunismo que um grupo de empreendedores decidiu iniciar o processo de criação da Caixa de Crédito Agrícola Mútuo de Tomar. Uma fundação que contaminou outras à volta - Riachos, em 1920, e Torres Novas, em 1928. Era sítio de grandes tradições cooperativas, foi aliás um torrejano quem publicou a chamada “Lei Basilar”, legislação vanguardista que permitiu a transformação gradual das confrarias e irmandades em cooperativas e instituições de crédito agrícola e industrial, e de onde viriam a emergir as Caixas de Crédito Agrícolas. O legislador chamava-se Andrade Corvo e era de Torres Novas.Arnaldo Santos não viu esses dias, mas presidiria durante 25 anos a uma caixa agrícola que fora resultado da fusão destas três caixas, mais a do Tramagal, em 2013, quase um século depois, a Caixa Agrícola do Ribatejo Norte. Uma façanha que o orgulha por sentir de alguma forma que, como Andrade Corvo, conseguiu também deixar uma marca, o que não é um pormenor. É que o pai, agricultor dos pés à cabeça, fora associado do Crédito Agrícola, embora nunca tenha pertencido aos órgãos sociais. Já a mãe trabalhava em casa, eram outros tempos e não tinha mãos a medir no acompanhamento dos nove filhos, cinco rapazes e quatro raparigas. Um orgulho que todos tenham estudado, que todos tenham tido o que precisavam apesar das dificuldades..Arnaldo Santos frequentou a antiga Escola Prática de Cavalaria, em Santarém, onde viveu com alegria os momentos decisivos da Revolução dos Cravos, na madrugada de 1974. Presenciou a saída da coluna militar da EPC, chefiada por Salgueiro Maia. Os seus olhos viram o capitão dos capitães a discursar na madrugada e a sair do quartel para mudar o curso da história. A sua vida seguiu em liberdade. Tornar-se-ia professor de Educação Física, no Ensino Básico, em Torres Novas e Ourém. Seguiram-se as funções autárquicas e a sua honorabilidade levou a que fosse desafiado a entrar a presidir a uma lista na Caixa Agrícola. Ficou 25 anos, uma parte substancial da sua vida. Em 1995, após a fusão das Caixas de Torres Novas e Riachos com a Caixa de Tomar, as forças vivas da cidade convencem-no a tomar conta do barco que se tornara maior do que alguma vez fora. O presidente que o antecedera estava doente e era absolutamente decisivo que alguém como ele, com talento para o compromisso e ambição, pudesse aceitar o desafio. Uma história de sucesso. O seu contributo para a Caixa de Crédito Agrícola do Ribatejo foi sempre no sentido da solidez e expansão, com eixos de ação enraizados no espírito de serviço público. Um perfil que aliava ainda uma obsessão pela perfeição que nunca o deixou descansar nos resultados obtidos embora lamente aos mais próximos não ter conseguido libertar energia financeira suficiente para prestar mais auxílio à comunidade. Uma história de sucesso que, no entanto, não acabou como ele desejaria. Em 2019, por divergências com a direção, pediu numa assembleia-geral a renúncia ao cargo. Fê-lo por convicção e respeito pelo passado, única forma de conseguir olhar o futuro. Não desejava fazer o que não lhe apetecia, já tinha idade, história e estatuto para ser dono da sua vontade. E, mais importante, chegara o tempo de conhecer e de privar com os netos com quem adora passear pelo Parque Natural das Serras de Aire e Candeeiros. É em tudo isto que pensa nas suas longas caminhadas pela sua vinha, o produto do que foi e lutou, uma vinha e um olival na freguesia da Chancelaria. Passeios onde pensa no futuro ancorado por um passado em que o seu pai está sempre presente, quase tão vivo como quando estava vivo, um pai que espera orgulhoso do filho que fez o que lhe prometera, respeitar e fazer tudo pela sua terra. .Uma parceria com a Agrimútuo