Víbora-cornuda é "tímida" e perigosa. O veneno não é letal, mas é "poderoso"

Os casos de mordidelas são raros, diz especialista ao DN, mas quando acontece o melhor é manter a calma, evitar mexer-se para não espalhar o veneno no corpo e ser imediatamente assistido. Excecionalmente, pode representar risco de vida

Um menino de 11 anos, de origem inglesa, foi mordido esta semana por uma víbora-cornuda na Serra do Espinhal, em Penela. Chegou ao hospital em "choque", recebeu por parte do Centro Hospitalar e Universitário de Coimbra (CHUC) uma "intervenção de caráter intensivo". Três dias depois, o CHUC informa que a criança está "estável e a evoluir favoravelmente". Mas esta víbora, considerada esquiva e "tímida", é perigosa. Apesar de o seu veneno não ser letal, é tóxico e exige assistência médica imediata.

A víbora cornuda, ou vipera latastei, "é uma espécie endémica da Península Ibérica", começa por explicar ao DN Fernando Martínez-Freiría, investigador do CIBIO, Centro de Investigação em Biodiversidade e Recursos Genéticos, da Universidade do Porto. Em Portugal, há duas espécies de víboras, a cornuda, que "está em quase todo o território" nacional, e a Seoane, "localizada no norte do país", cujo veneno é também tóxico e não letal.

Não se sabe quantas víboras-cornudas existem em Portugal, uma espécie "esquiva, tímida, muito difícil de detetar", refere o especialista. Só atacam quando se sentem ameaçadas. "Só quando são acidentalmente tocadas, colhidas. Se passarmos ao lado delas, não atacam", afirma o investigador galego do CIBIO.

De acordo com Martínez-Freiría, há cerca de 200 casos de mordidelas de víboras ibéricas por ano. Na Península Ibérica, além da víbora cornuda e da Seoane existe ainda uma terceira, denominada Áspide, cuja população está localizada na zona dos Pirinéus, na Catalunha, refere o especialista. "Este caso da mordidela na criança [na Serra do Espinhal, Penela] deve ser o primeiro em Portugal desde há muito tempo", considera.

Apesar de ser difícil avistá-la, esta víbora é perigosa. O seu veneno "é hematóxico, leva à coagulação do sangue, provoca danos nos tecidos, hematomas e inchaço" na zona do corpo onde a cobra mordeu. "Se a mordidela for num dedo, o inchaço pode estender-se ao braço todo. É um veneno poderoso, mas não é letal".

Após a mordidela, é importante evitar mexer-se para não espalhar o veneno

Excecionalmente, o veneno tóxico desta espécie pode representar risco de vida e "raramente" a morte. "Podem existir casos mortais quando se trata de idosos e crianças, pessoas que estão debilitadas, mas é algo muito excecional", esclarece o especialista. Ainda assim, é preciso não entrar em pânico quando se é mordido por este tipo de víbora, aconselha Fernando Martínez-Freiría. "Podem dar-se casos graves quando, por exemplo, as pessoas ficam muito nervosas e se assustam; o veneno espalha-se pelo corpo e começa a ser perigoso", alerta.

Por muito difícil que seja, tendo em conta o susto e a dor que pode representar a mordidela de uma víbora, "o melhor é sempre manter a calma, evitar mexer-se para não espalhar o veneno" no organismo e chamar logo a ambulância para ser imediatamente assistido.

E nunca, em caso algum, tentar chupar o veneno, avisa o especialista. "O veneno entra em contacto com o sangue e podemos ter feridas na boca, o que pode fazer com que o veneno se possa espalhar a outras partes do corpo", explica.

Não há antídoto para o veneno desta víbora, sendo utilizados "anti soros polivalentes, que valem para várias espécies". Os efeitos da mordidela podem durar de um a três dias. Aliás, a Organização Mundial de Saúde aconselha vigilância durante 72 horas após a mordidela, segundo conta Marínez-Freiría.

Apesar de ser difícil avistar esta cobra, saiba quais são as suas características físicas deste animal caso se depare um dia com uma delas. Até porque é importante saber distingui-las. São víboras pequenas, "têm no máximo cerca de 50 centímetros de comprimento, uma cabeça triangular com um apêndice" na zona nasal, o que levou a serem denominadas por cornudas. Mas há outras características que a distinguem das outras espécies.

Se vir uma víbora com um padrão de coloração normalmente escura, em ziguezague na zona dorsal, com as pupilas verticais, está perante a víbora cornuda. O melhor é afastar-se e não fazer nada que a faça sentir-se ameçada.

Normalmente circulam sozinhas, só andam em grupo na época de acasalamento, durante a primavera. Apesar de estarem espalhadas em todo o território nacional, podem existir em maior número na região norte.

Uma espécie ameaçada

Não se sabe quantos indivíduos existem em Portugal, mas não são em grande número. A víbora-cornuda é, aliás, uma espécie ameaçada na Península Ibérica, conta o investigador espanhol. "As suas populações estão isoladas e a desaparecer. Há algumas que foram extintas e outras que estão no limite da extinção".

Apesar das serpentes provocarem, na maioria das vezes, atitudes de repulsa - a verdade é que não são consideradas as melhores amigas dos humanos -, não é uma boa notícia saber que esta espécie de víbora está a desaparecer. "São muito importantes nos ecossistemas", sublinha o especialista, que se refere, por exemplo, ao facto de terem influência no controlo da população de "ratos e outros roedores", "muitas vezes prejudiciais" na agricultura. "E depois há outras espécies que se alimentam destas víboras. São uma parte imprescindível nos nossos ecossistemas", reforça.

O facto de serem uma espécie ameaçada deve-se à destruição dos seus habitats naturais pela mão do homem, indica Fernando Martínez-Freiría. Os efeitos das alterações climáticas têm tido influência também na redução das populações dos indivíduos desta espécie, como acontece com milhares de outras no mundo.

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