Ventiladores, testes, máscaras. Investigadores e empresas nacionais procuram soluções

Criar um kit de diagnóstico, produzir gel e viseiras, recuperar ventiladores. Universidades e laboratórios portugueses estão a trabalhar em conjunto com empresas para encontrar soluções rápidas para fazer frente aos problemas colocados pelo covid-19.

Um kit para diagnóstico ao coronavírus

O Instituto de Medicina Molecular (IMM) da Universidade de Lisboa criou um kit de diagnóstico ao coronavírus, usando reagentes fabricados em Portugal e seguindo a "receita" da Organização Mundial da Saúde (OMS). A equipa de voluntários esteve a trabalhar nas últimas semanas liderada pela investigadora Maria Mota, diretora do IMM. Agora, os kits já estão acreditados pelo Instituto Nacional de Saúde Dr. Ricardo Jorge, o laboratório de referência no país para a realização dos testes. Prevê-se que no início se façam ali 300 por dia, depois 500, até chegar aos mil.

Em breve haverá ventiladores made in Portugal

Em apenas uma semana, os politécnicos de Viseu e Leiria desenvolveram, com a colaboração de uma rede de politécnicos de norte a sul do país e de empresas, dois protótipos de ventiladores que, aós o licenciamento, poderão ser fabricados em série - um baseado na operação de um motor eléctrico e outro a funcionar com base em ar comprimido pneumático.

Com base num modelo de acesso livre disponibilizado pelo MIT (Massachusetts Institute of Technology), a equipa composta por 15 a 20 pessoas e que contou sempre com o acompanhamento de médicos, terminou no fim de semana passado os primeiros dois protótipos, estando ainda a ser desenvolvido um terceiro sistema, explicou à Lusa João Monney Paiva, presidente do Instituto Politécnico de Viseu. "Esperemos que nada disto seja necessário, mas, caso seja, que ajude a não passar por situações de falta de recursos e de se ter que escolher em que doente se aplicam", disse.

Agora, a expectativa é que empresas se mostrem interessadas em avançar com um processo de licenciamento junto do Infarmed e a disponibilidade de fabricar os ventiladores em série, referiu. "Queremos sensibilizar o Infarmed para que possibilite uma análise mais expedita e, se virem que este equipamento é crítico, que façam uma avaliação mais rápida", salientou o responsável.

Uma nova vida para os velhos ventiladores

A plataforma Vent2Life está a identificar e recuperar ventiladores que não estão a ser utilizados nas mais diversas instituições do país - públicas ou privadas, coletivas ou individuais, do ensino à indústria - para equipar unidades de saúde e ajudar no tratamento de doentes com o novo coronavírus.

Esta plataforma, associada ao #ProjectOpenAir, estima que exista a possibilidade de recuperar 200 ventiladores, em diferentes locais do país - sendo que alguns até já foram identificados e estão a ser analisados por especialistas que foram comvidades a participar no projeto através da Faculdade de Ciências e Tecnologia da NOVA, do Instituto Superior de Engenharia do Porto e da Ordem dos Engenheiros Portugueses.

A ideia é que, através desta plataforma, seja criada a ligação entre doadores de equipamentos, especialistas capazes de reabilitar o equipamento e, por fim, as unidades de saúde que necessita de ventiladores.

Ao mesmo tempo, o Projecto Open Air, que surgiu nos Estados Unidos liderado pelo investigador português João Nascimento, reúne especialistas de áreas muito diversas, que vão da computação à medicina, para encontrar soluções rápidas para esta crise que vivemos - sobretudo para a produção de novos ventiladores, mas não só.

Melhorar o atendimento telefónico da Linha SNS24

A Universidade de Évora está a desenvolver um sistema, baseado na inteligência artificial, que pode diminuir em pelo menos 5% o tempo de atendimento de cada chamada telefónica da Linha SNS24, a implementar ainda este ano. O objetivo é ter "uma aplicação que tenha a capacidade de sugerir o algoritmo clínico mais adequado a cada situação com uma precisão superior a 95%, reunindo condições para ser integrada na atual aplicação do SNS24", explicou à Lusa o investigador Paulo Quaresma, coordenador da equipa da Universidade de Évora, responsável pelo sistema denominado SNS24 Scout.

O sistema está a ser desenvolvido, desde janeiro, por uma equipa de investigação multidisciplinar da universidade, em parceria com outros instituições, e o esperado é que venha a ter "um impacto bastante significativo no serviço prestado aos cidadãos, permitindo uma melhor e mais rápida interação com a Linha SNS 24". "Pretendemos conseguir diminuir mais do que 5% no tempo médio de cada chamada telefónica, mantendo ou mesmo aumentando a qualidade do serviço prestado", o que "permitirá obter um ganho anual de 350 mil minutos" e "realizar mais 50 mil atendimentos".

Numa primeira fase, foi necessário "identificar os algoritmos mais adequados para um determinado conjunto de sintomas, com ajuste para idade e sexo" e, para tal, foi desenvolvido "um pequeno protótipo, com base em apenas três meses de dados do SNS24, que demonstrou ter um desempenho muito positivo", explicou Paulo Quaresma. Para desenvolvimento do SNS24 Scout a equipa está a aplicar técnicas de Processamento de Língua Natural (PLN) e de Aprendizagem Automática (ML-Machine Learning), desenvolvidas especificamente para a Língua Portuguesa, bem como metodologias de representação de conhecimento.

Viseiras de proteção contra o coronavírus

Um grupo de investigadores do Instituto Superior Técnico (IST) começou a produzir viseiras que servem de proteção para profissionais de saúde no contexto da pandemia da covid-19. Esta iniciativa envolve toda a comunidade do IST e os participantes convidam quem tiver impressoras 3D a colaborar para que seja produzido o máximo de material possível.

A iniciativa é liderada por Marco Leite e Paulo Peças (ambos do Departamento de Engenharia Mecânica do IST), que criaram um projeto de uma viseira que pode ser descarregado online e fabricado numa impressora 3D. A equipa já entregou viseiras fabricadas no seu laboratório a alguns hospitais, onde "há pessoas que não têm nada, estão desprotegidas" para lidar com pessoas potencialmente infetadas com o novo coronavírus.

"Começámos a identificar componentes e peças que estavam a faltar e, com a colaboração da Faculdade de Medicina [da Universidade de Lisboa], concluímos que faltavam viseiras de proteção", explicou Paulo Peças à agência Lusa. "Estas peças acabaram no mercado. Os hospitais acham que é melhor ter isto do que um produto certificado que chega daqui a um mês."

As viseiras são peças circulares, ajustáveis, que se fixam em torno da cabeça e nas quais pode ser montado um acetato transparente que serve como barreira de proteção no contexto da pandemia do covid-19. No seu laboratório, Marco Leite e Paulo Peças conseguem produzir seis viseiras por hora, mas cerca de duas dezenas de unidades de investigação do Técnico vão começar também a produzi-las.

As empresas também ajudam

A Super Bock e a Destilaria Levira uniram-se para arrancarem com um projeto de conversão do álcool de cerveja em gel desinfectante. Os dois grupos anunciaram que vão oferecer, numa primeira fase, 56 mil litros de álcool da produção de cerveja sem álcool que vão ser transformados, pela Destilaria Levira, em aproximadamente 14 mil litros de álcool gel desinfetante para as mãos que serão depois oferecidos a três unidades hospitalares da região do Porto.

A Science4you disponibilizou as suas salas de produção e máquinas de enchimento automáticas que podem ser utilizadas no enchimento de gel desinfetante. A empresa garante que consegue ainda que quatro linhas de montagem possam ser usadas para a produção de materiais que possam ser necessários nesta fase, como máscaras de proteção ou outros.

A Volkswagen Autoeuropainiciou a sua produção de viseiras usando a técnica de impressão em 3D. A unidade onde trabalham quase 6000 pessoas está parada desde o dia 16, devido ao coronavírus e os turnos só recomeçarão no dia 6 de Abril, se as condições assim o permitirem. Até lá, há trabalhadores voluntários que continuam a ir para a empresa onde têm produzido viseiras que vão ser entregues ao pessoal médico dos hospitais da região.

O grupo têxtil Sonix, com sede em Barcelos, suspendeu parcialmente a produção habitual logo em meados de março e começou a produzir máscaras e fardamento para entregar nos principais hospitais do Norte.

A Hovione dedicou uma linha de produção na fábrica de Loures para produzir gel desinfetante, fabricado de acordo com as recomendações da Organização Mundial de Saúde, e vai doá-lo a entidades públicas nacionais, hospitais e outras organizações que dele necessitam. "O gel desinfetante produzido na Hovione não será comercializado ou fornecido a grossistas ou ao público - mas entregue diretamente as instituições que farão a sua própria distribuição interna", sublinha a empresa liderada por Guy Villax.

Apoio especial a investigadores

A Fundação para a Ciência e a Tecnologia (FCT), em colaboração com a Agência de Investigação Clínica e Inovação Biomédica (AICIB), abriu um concurso para atribuição de um apoio especial, "RESEARCH 4 COVID-19", a projetos e iniciativas de I&D que respondam às necessidades do Serviço Nacional de Saúde (SNS) na resposta à atual pandemia de coronavírus e a futuras pandemias num horizonte temporal muito curto. Tendo em conta o caráter de urgência, serão apoiados projetos de implementação rápida (máximo 3 meses de desenvolvimento). O limite máximo de financiamento de cada projeto é de 30 mil euros, sobretudo para complementar iniciativas em curso e para a reorientação de equipas existentes. As candidaturas podem ser apresentadas até 5 de abril.

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