Vagas esgotadas no curso que quer pôr os alunos a saber falar de vinhos

Curso só foi anunciado em julho mas conseguiu preencher nove das dez vagas a concurso. Responsáveis pela licenciatura consideram que é um sinal positivo.

A aposta parecia arriscada. Faltava menos de uma semana para a abertura das candidaturas ao ensino superior quando, em julho deste ano, a Universidade de Évora anunciou a criação da sua licenciatura em Enologia, a primeira no Alentejo. Mas a aposta revelou-se certeira, com os resultados a chegarem neste mês: o curso preencheu as 15 disponíveis a concurso.

A coordenadora do curso, Maria João Cabrita, admite que "são sinais positivos sobre o interesse na licenciatura", pelo que a procura, diz, "deve aumentar" já entre a segunda e a terceira fases de acesso à universidade alentejana, tendo a ambição de dotar os alunos de conhecimentos para que "saibam comunicar os vinhos às pessoas que não são da área".

"Queremos que os alunos saiam daqui a saber de viticultura e enologia, sendo capazes de fazer uma apresentação de uma adega em condições", explica Maria João Cabrita, justificando que por vezes, quando faz visitas como enoturista, percebe que alguns guias "estão a dizer coisas erradas". Maria João Cabrita dá, entre sorrisos, o exemplo da visita a uma cave onde se ouvia música clássica, com o cicerone a justificar que ajudaria os vinhos a envelhecerem melhor.

No curso de Enologia, com duração de três anos, existem muitas vertentes, como gestão, marketing ou tecnologia

Maria João Cabrita diz que os tempos atuais são exigentes perante a evolução vitivinícola alentejana, não havendo espaço para facilitismos ao nível do conhecimento científico, que requer uma "forte base" teórica e prática. "A ideia é de que os alunos saibam comunicar corretamente a enologia e isso dá-lhes ferramentas que depois poderão até aproveitar numa vertente do enoturismo", diz, ressalvando que o curso, que tem uma duração de seis semestres, "não se trata de uma licenciatura de turismo, nem de enoturismo". Explica que é antes um curso de Enologia, com duração de três anos, onde existem muitas vertentes, como gestão, marketing ou tecnologia. "Tudo o que seja relacionado com enoturismo é só mais uma vertente", esclarece, revelando que o curso está estruturado para que este primeiro ano seja mais virado para cadeiras de base, como Química, Física e Matemática, enquanto os quatro semestres seguintes vão ser vocacionados mais diretamente para Enologia e Viticultura.

No último ano do curso, os alunos terão mesmo uma vertente mais prática, com duas unidades curriculares que contemplam a sua integração em adegas para que contactem com o trabalho em contexto de empresas. "Aqui vamos contar com a colaboração das empresas da região, que também dependerão da região geográfica de cada aluno", refere a coordenadora.

Alternativa no sul do país

Até aqui, só havia oferta nesta área na Universidade de Trás-os-Montes e Alto Douro (UTAD), limitando os horizontes dos alunos com menos recursos. "Quem escolhe este curso é porque, por algum motivo, tem mesmo o objetivo de se dedicar à enologia e viticultura", diz Maria João Cabrita, admitindo que "como nem todos os jovens se podem deslocar, a Agronomia seria a alternativa. Porém, não é a mesma coisa", porque apesar de haver sempre uma componente relacionada com viticultura, "estamos a falar de algo mais genérico".

Entre a academia eborense é assumido que a licenciatura dirigida a aspirantes a enólogos já tardava, perante o reconhecimento internacional do Alentejo como "região produtora de vinhos de qualidade", que precisava de disponibilizar formação superior para técnicos, gestores e empresários, tirando partido das condições singulares da Universidade de Évora.

Os alunos têm aqui a oportunidade de contactar com a realidade da produção vitivinícola na Herdade Experimental da Mitra, Polo da Escola de Ciências e Tecnologia, e com atividades de investigação nesta área, como é o caso do Instituto Mediterrâneo para a Agricultura, Ambiente e Desenvolvimento, já classificado como excelente pela Fundação para a Ciência e a Tecnologia.

Será também por estas mais-valias, revela Maria João Cabrita, que continuam a chegar "muitas manifestações de interesse", por parte de alunos de outros cursos que já estão no segundo ano, mas que pretendiam fazer a transferência para a licenciatura de Enologia. "Estão impedidos, porque este é o primeiro ano do curso e, como tal, o segundo ano ainda não funciona", justifica, garantindo que, na prática, a Universidade de Évora está agora a disponibilizar uma licenciatura "muito específica", que até aqui estava distante dos jovens a sul do Tejo.

Que o diga Luís Silva, residente em Évora, que há uns anos optou por Engenharia Mecatrónica, apesar de não se identificar com o curso. "Não tinha possibilidade de sair de Évora, mas percebi que não era aquilo que eu queria fazer no futuro", diz, tendo começado a trabalhar na restauração onde ganhou "gosto pelo vinho".

Viria a tirar o nível 1 do WSET, um curso reconhecido internacionalmente de iniciação que proporciona conhecimentos básicos sobre os principais tipos e estilos de vinhos, a par dos princípios para a harmonização de vinho e comida, fornecendo ainda as aptidões necessárias para o serviço e o armazenamento de vinho.

"Se eu não tivesse entrado em Enologia este ano, não tinha entrado em mais curso nenhum. Era mesmo o que eu queria", insiste, revelando que há um ano já tinha perguntado sobre a possibilidade da licenciatura abrir na Universidade de Évora, recebendo resposta negativa. Como alternativa, tencionava tirar o curso de escanção "em Portugal ou França", assumindo que esta oportunidade mesmo à porta de casa "caiu do céu".

Produtores aplaudem

O setor empresarial alentejano, que tem lamentado a falta de mão-de-obra qualificada no setor agrícola, elogia a aposta da Universidade da Évora, que "já devia ter sido feita há mais anos", segundo o diretor geral da Quinta do Quetzal, Reto Jorg, que gere 50 hectares de vinha, produzindo 200 mil garrafas por ano.

O produtor admite que o Alentejo, por ser a maior região vitivinícola "precisa da faculdade pelo prestígio para produtores e alunos", alertando que o processo de ensino terá de assentar em "professores de topo, para ajudarem a credibilizar o setor de uma forma muito profissional", sublinha.

Reto Jorg defende ainda a criação de parcerias com uma "universidade estrangeira com grande nome e com produtores alentejanos de maior dimensão", diz, elogiando a vertente prática potenciada pela própria universidade.

Ainda assim, alerta para a necessidade de se "investir na investigação, que é continua a ser escassa", lamenta, admitindo que poderá passar por aqui uma parte do sucesso do curso.

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