Vacinas e medicamentos. Como 103 militares portugueses foram preparados para a tragédia em Moçambique

Os médicos do Hospital das Forças Armadas, em Lisboa, prepararam 103 militares e quatro civis para doenças como a cólera e a febre tifoide, uma parte diretamente em Figo Maduro, de onde viajaram na quinta e na sexta-feira, em resposta à calamidade nas zonas afetadas pelo ciclone Idai.

"Nas últimas 36 horas foram preparados em consulta de avaliação, vacinação e material médico individual 103 militares e quatro civis do Ministério dos Negócios Estrangeiros, além do apoio prestado na vacinação a outras entidades", disse Diana Fernandes da Terra, a médica responsável pelo Centro de Epidemiologia e Intervenção Preventiva do Hospital das Forças Armadas, em declarações ao DN.

A preparação de que fala a médica inclui uma bateria de vacinas contra poliomielite, hepatite A, febre tifoide, cólera, meningite ACYW-135, tétano e difteria, hepatite B e encefalite rábica.

Diana Fernandes da Terra, capitão-tenente, acrescenta que "apesar de não ser uma prioridade no imediato, mais de 90% dos nossos militares encontram-se também vacinados contra a febre-amarela, na eventualidade de esta se propagar no contexto desta tragédia"-

No caso da malária, "foi instituída a profilaxia individual da malária, que não sendo uma vacina é uma medida essencial de proteção".

"Com o parar das chuvas vai existir um ambiente propício ao desenvolvimento de mosquitos", disse chefe da Cruz Vermelha.

A zona afetada pela passagem do ciclone Idai é de malária e risco de cólera. "Com o parar das chuvas vai existir um ambiente propício ao desenvolvimento de mosquitos, e os mosquitos são vetores de várias doenças. Desde logo a malária, mas também zika, dengue, e falando só das doenças infetocontagiosas", como lembrou ao DN Gonçalo Órfão, chefe de missão de coordenação nacional de emergência da Cruz Vermelha na quinta-feira.

Moçambique é apontado nas informações para viajantes do Centro de Controlo de Doenças americano (CDC) como um país em que há zonas de transmissão ativa de cólera - Nampula e Cabo Delgado, no norte do país.

Diretamente em Figo Maduro

Por ser uma situação de emergência, não foram os militares que se deslocaram ao hospital. Foram os médicos que se dirigiram ao aeroporto de Figo Maduro, em Lisboa, na quinta-feira, "atendendo ao desenvolvimento muito célere dos procedimentos de ativação da força de reação imediata e às características do teatro", diz Diana Fernandes da Terra. Na sexta-feira, "já foram administradas no Hospital das Forças Armadas". Apenas uma "pequena minoria" passou pela enfermaria do aeroporto de Figo Maduro. Estiveram envolvidos quatro médicos e cinco enfermeiros, "em coordenação com o departamento operacional das direcoes de saúde da marinha, exército e força aérea."

"As Forças Armadas estão preparadas para este tipo de resposta. Tendo em conta o tipo de missões em que têm sido empenhadas nos últimos cinco anos, nomeadamente nas missões da ONU no Mali e na República Centro-Africana, e mesmo o aluvião na ilha da Madeira em 2010, os nosso militares têm já uma larga experiência e equipamento, que são complementados pelos exercícios regulares de Distex [Disaster Relief Exercise]", explica. "Após decisão política, as Forças Armadas avaliam o teatro e desenvolvem um plano de ação por prioridades e atendendo aos meios disponíveis."

Além de haver um "conselheiro" integrado no planeamento, como diz Diana Fernandes da Terra, no Hospital das Forças Armadas "existe sempre uma reserva estratégica de vacinas, que nos permite dar uma resposta imediata". O mesmo para os fármacos, nomeadamente desinfeção de água e profilaxia da malária.

Hospital no terreno

Uma vez no terreno, diz Diana Fernandes da Terra, "as Forças Armadas possuem a capacidade para instalar um hospital de campanha, cujo equipamento está sempre disponível e os medicamentos verificados periodicamente, pelo que o planeamento passa por decidir sobre a sua instalação total ou parcial, ou enviar uma equipa de reconhecimento com capacidade cirúrgica integrada, como foi o caso inicial".

"Teremos sempre de verificar a qualidade dos alimentos e da água e fazer o controlo da propagação de vetores, ou seja, mosquitos, pelo que foi destacada uma equipa de engenharia com esse intuito", diz a médica. "As medidas de proteção ambiental, como controlo de reservatórios de água e lixo, permitem-nos controlar as moscas e os mosquitos, além da contaminação dos reservatórios de água e controlo de outros vetores, como ratos e afins."

C-130 partiu na quinta-feira

Augusto Santos Silva anunciou na quinta-feira ao fim do dia que Portugal deslocaria militares para a Beira - 35 partiram nesse mesmo dia, assim como uma equipa cinotécnica da GNR, com botes preparados para o resgate. São fuzileiros que, nas cheias de 2000, estiveram a dar apoio à população na mesma zona, em operações de busca, identificação e salvamento. E além da equipa média segue um oficial de engenharia do Exército que vai identificar as necessidades urgentes a nível das comunicações.

O segundo voo incluía uma equipa do Instituto Nacional de Emergência Médica (INEM) e elementos das Águas de Portugal para ajudar à reposição de água potável. Em Maputo, a embaixadora Maria Amélia Paiva coordena "uma equipa vasta" no sentido de angariar bens alimentares e outros de necessidade básica, como velas.

Nos próximos dias prevê-se, segundo Diana Fernandes da Terra, a continuação da "verificação e implementação das medidas de proteção em outros grupos de militares que se prevê serem empenhados no imediato ou a curto prazo."

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