Timothy era o único. Agora há outra pessoa "limpa" do vírus da sida

Primeiro num paciente na Alemanha e agora num paciente inglês, um tratamento com células estaminais parece ter "limpado" o vírus da sida. Especialistas creem que esta descoberta pode ser o caminho para uma cura do vírus da imunodeficiência humana, que já matou mais de 35 milhões de pessoas desde a sua descoberta, em 1983.

Foi diagnosticado com VIH em 2003 e em 2012 com linfoma de Hodgkin, um cancro do sistema linfático. Em 2016, estando em risco de vida, foi submetido a quimioterapia e a um transplante de medula óssea de um dador resistente ao VIH. Tanto o cancro como a infeção viral entraram em remissão: há 18 meses que não toma medicamentos para o VIH e o vírus está indetetável.

"Não conseguimos encontrar qualquer traço do vírus. não detetamos nada," diz o virologista Ravindra Gupta, do University College de Londres e um dos responsáveis da equipa que tratou o homem -- conhecido como "o paciente inglês" -- ao Guardian . Gupta descreve o homem como "funcionalmente curado" e "em remissão", mas adverte: "É muito cedo para afirmar que está curado."

É o segundo caso conhecido no mundo: em 2007, um americano, Timothy Ray Brown, ficou igualmente livre de VIH após ser submetido, em Berlim, a um tratamento semelhante. Nascido em 1966, Brown estava a fazer terapia para o VIH, em 2006, com bons resultados, quando desenvolveu leucemia e foi submetido a transplantes de medula óssea. O seu médico, Gero Hütter, teve a ideia de usar medula óssea de um dador com uma dupla mutação do correcetor CCR5, uma molécula da superfície das células que é a "porta de entrada" que a maioria dos tipos de VIH usam para penetrar nas células. Brown foi submetido a quimioterapia intensiva que quase o matou, destruindo as células cancerosas do seu sistema imunitário. As células do dador reconstruíram então um novo sistema imunitário resistente ao VIH.

Apesar de Brown ter deixado de tomar antirretrovirais aquando do primeiro transplante de medula, o VIH não voltou a ser detetável. E 12 anos depois, apesar de regularmente testado, não voltou a ter uma análise positiva. Tendo ficado conhecido como "o paciente de Berlim", Brown era até agora a única pessoa em todo o mundo que se podia considerar ter sido "curada" do vírus da sida. Os médicos e cientistas não sabiam se se tratava de "uma anomalia" ou de uma consequência do tratamento efetuado. Agora, com o caso do paciente inglês, que pediu para que os seus dados pessoais, incluindo nacionalidade e idade, não fossem divulgados, há a certeza de que o tratamento em causa funcionou.

"Este caso diz-nos que Brown não foi uma anomalia"

"Isto é muito importante," diz Sharon Lewin, que dirige o Instituto Peter Doherty para a Infeção e a Imunidade em Melbourne, Austrália, ao site Science. "Diz-nos que Timothy Brown não foi uma vez sem exemplo, uma anomalia." Embora o tipo de tratamento a que Brown e o paciente inglês foram submetidos só possa funcionar numa pequeníssima fração dos 37 milhões de pessoas que vivem com VIH atualmente -- o procedimento é caríssimo, complexo e arriscado; dadores compatíveis têm de ser encontrados no pequeno reduto de pessoas, na maioria originárias do Norte da Europa, que possuem a referida mutação da molécula CCR5 -- as suas experiências apontam para estratégias de cura que podem ter aplicação mais alargada.

O médico do paciente inglês, Ravindra Gupta, que deverá esta terça-feira falar sobre o caso em Seattle, na Conferência sobre Retrovírus e Infeções Oportunistas, e num artigo on line na revista científica Nature, sobre o caso, já disse que a sua equipa planeia usar esta descoberta para explorar novas possibilidades de tratamento para o VIH. "Precisamos de perceber se podemos desativar este recetor, o CCR5, nas pessoas com VIH, o que pode ser possível com terapia genética."

Não é evidente, porém, que a chave para o desaparecimento do vírus esteja exclusivamente na mutação do CCR5; pode suceder que uma reação adversa ao transplante ocorrida em ambos os pacientes tenha responsabilidade. De facto, ambos sofreram de "doença do enxerto contra hospedeiro", conhecida também como GVHD (Graft Versus Host Disease), uma complicação comum nos transplantes de medula óssea na qual as células da medula transplantada atacam as do hospedeiro, e que pode ser fatal. Gupta admite que esta complicação pode ter desempenhado um papel na destruição das células infetadas com VIH.

Esta hipótese deve ser encarada, até porque a técnica do transplante com medula óssea foi tentada noutros pacientes, sem sucesso. Alguns conseguiram controlar a infeção por VIH por algum tempo sem retrovirais mas o vírus acabou por regressar em força nuns e outros morreram de linfoma ou leucemia. Daí que Gupta confesse que não esperava que o transplante feito ao paciente inglês resultasse. Tinham passado 10 anos desde o único caso bem-sucedido e estava totalmente preparado para o falhanço do transplante ou o regresso do linfoma."

Houve também algumas diferenças entre os dois casos: Brown foi submetido a dois transplantes para curar a leucemia, a quimioterapia intensiva e ainda a radioterapia total. O paciente inglês foi submetido a um tratamento menos brutal.

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