Seis mil cirurgias adiadas com greves de médicos e enfermeiros

Nesta terça-feira iniciam-se quatro dias de paralisação nacional de médicos e de enfermeiros. Por cada dia de greve ficam em causa cerca de 1500 cirurgias.

Nos próximos quatro dias deverão ser adiadas cerca de seis mil cirurgias por causa das greves nacionais de médicos e de enfermeiros, segundo o presidente da Associação Portuguesa de Administradores Hospitalares (APAH), Alexandre Lourenço. São 1500 operações desmarcadas por dia, a reagendar "o mais depressa possível".

Os médicos começam a paralisação, que vai durar dois dias​​, esta terça-feira à meia noite. Já a greve dos enfermeiros prolonga-se até sexta-feira. É a primeira vez que estas coincidem, mas para o presidente da APAH a circunstância não é negativa, "até limita o impacto". "As atividades são multidisciplinares, portanto se faltar um enfermeiro têm de ser canceladas. Se faltar um médico também. Neste caso, sendo uma greve de enfermeiros e de médicos, acaba por limitar muito o impacto. Seria pior se fossem em dias diferentes", indica o médico.

Nesta altura do ano, estão marcadas menos operações. Chegam a ser metade das cirurgias feitas no inverno. Por isso, Alexandre Lourenço considera que as cirurgias vão ser "reagendadas com relativa rapidez". Algumas já foram antecipadas e outras devem ser feitas nos próximos meses. "Os profissionais têm algum cuidado com as cirurgias programadas, muitas vezes até sobrecarregando os seus horários noutros períodos", diz.

Sindicatos pedem reformulação do SNS

Os representantes sindicais admitem que as sucessivas paralisações afetam os doentes, mas acreditam também que estes entenderão a necessidade de recorrer à greve. Quer enfermeiros, quer médicos pedem a dignificação da profissão e do Serviço Nacional de Saúde (SNS).

Os médicos avançam com a paralisação nacional depois da greve do ano passado e das duas de 2017, "porque se fartaram de ser interlocutores empenhados de um Governo e um Ministério da Saúde que agem com deliberado desrespeito e sem real interesse em chegar a acordo sobre uma imensidade de questões", acusa o Sindicato Independente dos Médicos (SIM), responsável pela convocatória do primeiro dia de greve.

Pedem médicos de família para todos os portugueses, redução da lista de utentes por profissional, mais tempo para consultas, a diminuição do serviço de urgência de 18 para 12 horas e uma nova grelha salarial. "Não há concursos, pagam mal às pessoas e trabalha-se 60 horas por semana com horas extras. E isto é tudo decidido de forma inusitada, desorganizada e desmoralizante", diz, em entrevista ao DN a publicar esta quarta-feira, João Proença, presidente da Federação Nacional dos Médicos, entidade que convocou o segundo dia de greve e a manifestação junto ao ministério da Saúde, em Lisboa.

Os enfermeiros reclamam o descongelamento das progressões nas carreiras, a definição dos 35 anos de serviço e a possibilidade de aposentação a partir dos 57. O Sindicato Democrático dos Enfermeiros Portugueses (Sindepor), responsável pela greve, pede ainda medidas compensatórias do desgaste, risco e da penosidade da profissão.

Esta não é a primeira paralisação dos enfermeiros este ano a afetar os blocos operatórios. A primeira levou ao cancelamento de quase oito mil cirurgias e a segunda a mais de cinco mil. Nesta última, o governo decretou uma requisição civil e publicou um parecer para travar o efeito prático da greve. Há um ano, os enfermeiros já tinham parado durante um mês e meio nos blocos operatórios em cinco hospitais, o que levou ao adiamento de mais de 7500 cirurgias, com custos superiores a 12 milhões de euros para as unidades hospitalares.

Governo diz que há mais profissionais. Ordens afirmam que não é suficiente

Perante as reivindicações dos sindicatos, o governo tem insistido num aumento dos profissionais de saúde nos últimos quatro anos. Segundo os dados do ministério da Saúde, desde 2015 entraram para o SNS 10 816 profissionais - o que corresponde a um aumento de 9%.

Já a Ordem dos Médicos reconhece o aumento em termos absolutos, mas não em termos de trabalho. Isto porque há menos médicos a trabalhar em exclusividade para o SNS (desde 2009 que este modelo terminou), a população está mais envelhecida e por isso tem mais necessidade de cuidados hospitalares e também o corpo médico é composto por profissionais envelhecidos (muitos que já não fazem sequer urgência - opção que têm a partir dos 55 anos).

Também a Ordem dos Enfermeiros fala na mesma falta de recursos humanos, argumentando que não existem enfermeiros suficientes para cumprir as necessidades da passagem das 40 para as 35 horas de trabalho semanais.

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