"Queremos mobilizar muitos mais." Estudantes querem greve geral pelo clima em setembro

Deixaram as aulas para gritarem bem alto que é preciso mudar já para salvar o planeta. Milhares de estudantes desfilaram em Lisboa pelo clima e deixaram vários avisos: "Menos conversa, mais ação. Sim à revolução", ouviu-se esta sexta-feira. A próxima greve querem que seja geral e está agendada para 27 de setembro. "Não só estudantes, mas também sindicatos", dizem

"Estou a faltar às aulas para mostrar às pessoas que se não contribuírem em 20 ou 30 anos não vai haver planeta". O aviso é de Amélia Hawke, de 11 anos, que, acompanhada pela mãe e por uma amiga, fez ouvir a sua voz em Lisboa na manifestação estudantil pelo clima. Entre os milhares de estudantes que aderiram à greve às aulas, Amélia, segura, determinada, o cartaz que explica que faltou à lição desta sexta-feira para dar outra pelo ambiente. "Isto é importante. É a minha geração que está em causa", afirma a jovem de Colares, Sintra.

Esta foi a segunda vez que os estudantes portugueses aderiram à Greve Climática Estudantil. A primeira foi a 15 de março. Jovens, alguns acompanhados por pais e avós, desfilaram pelas ruas de Lisboa, entre o Marquês de Pombal e a Assembleia da República, com vontade de fazer mais. Estáagendada uma greve geral para 27 de setembro. "Pretendemos mobilizar muitos mais. Não só estudantes, mas também sindicatos. Vai ser assim em todo o mundo e queremos que seja também em Portugal. Vamos começar a trabalhar para isso", diz ao DN Matilde Alvim, uma das organizadoras do protesto, no final da manifestação que juntou cerca de cinco mil estudantes.

Mas até à próxima greve prometem não ficar parados. "Porque a dinâmica não pode morrer. O clima não tira férias, como diz a Greta [Thunberg]", diz Matilde Alvim, referindo-se à estudante sueca que deu iniciou ao movimento internacional pelo clima ao fazer sozinha uma greve às aulas e a manifestar-se em frente ao parlamento sueco.

Os portugueses fizeram o mesmo esta sexta-feira, até porque "não há planeta B", dizem a uma só voz enquanto caminham em direção à Assembleia da República. "Catástrofe iminente, ação urgente", "mudem as políticas e não o clima" e "Marcelo deixa as selfies e trata do ambiente" são alguns dos exemplos dos recados que deixam impressos nos muitos cartazes que envergam enquanto caminham pelas ruas de Lisboa. A imaginação dos estudantes reflete-se também aí. "I want a hot date not a hot planet" ("Quero um encontro escaldante não um planeta escaldante", em tradução livre) é um dos exemplos da criatividade dos estudantes a favor do clima. As vozes chegam também ao governo. "Senhor ministro diga por favor porque é que no inverno ainda faz calor", gritam enquanto exigem "o nosso futuro de volta".

O desfile ruidoso não deixa ninguém indiferente. Os turistas aproximam-se e registam o momento no telemóvel. Quem está nos escritórios desce às ruas para ver e ouvir as reivindicações dos jovens.

E os manifestantes não se mediam aos palmos, são de várias idades e todos com um propósito comum: chamar à atenção. Daniel e Gabriel, que ainda não têm quatro anos, fazem desviar os olhares. Sentados no carrinho seguram, também eles, cartazes. Num deles lê-se: "Não há planeta B. I want you to panic ( quero que entres em pânico)". "Não é a primeira vez que participam numa manifestação", diz a mãe, Andreia Dias, de 39 anos, orgulhosa pela consciência ambiental que os filhos já começam a despertar. "São muito atentos à questão dos plásticos. Somos cada vez mais ecológicos em casa. Fazemos a nossa parte por mais pequena que seja. É importante ensiná-los", conta esta mãe que veio de Mafra. Porque, afinal, "o futuro é deles" e "é preciso agir e lutar pela sobrevivência".

"Os adultos não há consciência nem vontade de mudança"

Mais atrás, Vicente, de 19 anos, segura uma flauta, que mal se ouve no meio da ruidosa manifestação. ​​Marcha contra as alterações climáticas e a favor de medidas urgentes. "Temos todos de lutar pelo nosso futuro porque se não for assim não o vamos ter", diz o estudante de Vila Real, que aponta para a necessidade de uma "reflorestação responsável" e uma produção energética "limpa".

"Se o clima fosse um banco já estava salvo" e "Não somos de direita nem de esquerda. Somos do planeta" lê-se noutros cartazes que saltam à vista quando a manifestação já está em frente ao parlamento. Em frente à escadaria da Assembleia da República, Francisco Campos, de 43 anos, e a filha, Carolina, de 8, também têm um pedaço de cartão nas mãos. A mensagem é um apelo: "O nosso planeta precisa de ajuda urgente". "Há uma maior consciência nos jovens. Nos adultos não há consciência nem vontade de mudança", lamenta Francisco.

A dar força à Greve Climática Estudantil esteve Francisco Ferreira, presidente da associação ambientalista Zero. "Estas são as maiores manifestações desde sempre por uma causa ambiental", congratula-se referindo-se ao movimento internacional que abrangeu 119 países, com Portugal a ter manifestações e mais de 40 locais. No total, são mais de 1600 cidades de todo o mundo.

"São eles e depois os filhos deles que vão sofrer com as consequências"

A dois dias das eleições europeias, o ambientalista considera que o combate às alterações climáticas deve estar "à frente na agenda política de todos os partidos". Porque, afinal, "estamos a caminho de uma situação crítica, onde todos, desde os cidadãos aos políticos têm que fazer a mudança", alerta Francisco Ferreira que aplaude a iniciativa dos jovens. "São eles e depois os filhos deles que vão sofrer com as consequências", sublinha.

"Governo, escuta estudantes estão em luta", exclamam os milhares de alunos que voltaram a fazer greve às aulas pelo clima, para chamar a atenção de que é preciso mudar já. Foi com esse objetivo em mente, que os organizadores do protesto leram em frente à Assembleia da República um manifesto no qual reivindicam que a crise climática "seja uma prioridade governamental". Defendem ser "crucial" a declaração do estado de emergência climática como "reconhecimento de que estamos, efetivamente, numa situação extraordinária".

A "proibição da exploração de combustíveis fósseis em Portugal" e o cancelamento de todas as concessões existentes, o fecho das centrais termoelétricas de Sines e do Pego, que "ainda são movidas a carvão" e antecipar a neutralidade carbónica de 2050 para 2030 são algumas das reivindicações do movimento estudantil. Afirmam ainda ser necessário investir "largamente" de modo a ter 100% de energia renovável em 2030, melhorar a rede de transportes públicos, nomeadamente a requalificação da atual linha férrea do país, e "reduzir a agricultura intensiva e os custos ambientais que acarreta.

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