Quando Tolentino assinava como Tiago Hulssen no DN Jovem

O novo cardeal é também uma referência na poesia contemporânea, assumindo-se também como ensaísta e tradutor. No DN Jovem, assinava as criações literárias como Tiago Hulssen. O DN recupera um dos seus textos, publicado a 10 de fevereiro de 1987, quando tinha 21 anos, sob o título O livro do sonho e das memórias

O sonho define as personagens
Maria do Céu Guerra

1 - O sonho é aquilo que antecipa as estradas e os passos só porque, um dia, pensamos em viagens. É o princípio, o mapa cheio de anotações e desenhos de naus e de comboios, onde o tesouro procurado fica sempre a dez passos de qualquer porto. E o impossível não passa nunca de um desafio.

2 - Não me saem do pensamento esses anos vividos em Angola, com a longa praia aos pés, os barcos, o rumor dos pássaros ao entardecer, as histórias das mulheres avisadas do destino pelas ciganas velhas e de rosto vincado, que murmuravam ladainhas de sabedorias no terreiro da avó Marta. Era o tempo das sibilas, que me lembre. Elas chegavam, vestidos negros, olhos inquietos, e teciam sobre a mão confiada das minhas tias um futuro de via-
gens e heranças inesperadas, de traições e recompensas, de inquietude e de navios. Trocavam, então, chás e receitas, propunham negócios de oiros e atavios, diziam segredos... E, no terreiro da avó Marta, a vida assomava como cristal descoberto e sem ansiedade.

1 - Aquele que sonha tem o olhar alumiado, como se adivinhasse o fim das noites ou o parto das sementes.

2 - Aos domingos à tarde chegavam os veleiros. Corríamos ao cais e por ali ficávamos, a olhar o fundo dos barcos, os que chegavam, as velas descidas com lentidão... Um mundo inteiro assomava aos nossos olhos: a longínqua Finlândia, a Roca, Veneza, o Finis Terrae dos duendes e
dos encantos... E tudo era claro e distinto, como se os países ficassem mesmo ali a nosso lado, fossem a linha mágica do horizonte onde, agora, o sol incidia ou até a nossa casa, não sei. Era a hora das aves. Nunca mais me esqueci.

1 - O sonho é o fermento na massa, a lâmpada iluminando as avenidas e as vielas. É o gesto fraterno nascendo na liberdade do coração de todos os homens. E a ousadia dos passos, o medir-se pelo infinito e pela distância, abalançar-se na aventura do mar alto. E ter a coragem de perguntar sempre "porque não?".

2 - Estava a olhar para a rua. Carros e pessoas. Ritmo apressado. O Jorge aproximou-se. "Estás a sonhar com barcos", disse ele. E eu estava.

1 - Mestre, fala-me do sonho - pediu o jovem Anuk.
- Meu irmão... - retorquiu-lhe Zaaur.
- Se és mestre, porque me chamas irmão? - disse, espantado.
- Não há mestres para o sonho - acrescentou o velho sábio. E não voltou a falar.

Tiago Hulssen
21 anos, estudante universitário, Lisboa

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