Estomatologia. Braga com constrangimentos nas primeiras consultas durante um ano porque médico estava de baixa

Um dos médico que realiza as primeiras consultas de estomatologia na unidade hospitalar esteve de baixa quase um ano e as suas marcações tiveram de ser reagendadas. Jean Cabrita viu a sua consulta cancelada três vezes.

Jean Cabrita, 33 anos, já viu a sua consulta de estomatologia (especialidade da medicina dentária) adiada quatro vezes no Hospital de Braga. Está à espera há um ano, por causa da ausência de um dos profissionais que atende os doentes referenciados para a primeira consulta. "Foi necessário efetuar a remarcação de algumas consultas subsequentes devido à ausência por baixa médica de um elemento do serviço", confirmou o hospital ao DN. Jean tem metade dos dentes desvitalizados por ter sido uma das 500 crianças da Casa Pia cobaias de uma experiência dentária, denunciada em 2012, e enquanto aguarda por uma consulta já teve de se deslocar à urgência "várias vezes".

"Há mais de um ano que só consigo comer com metade da boca. Não sei o que é saborear uma refeição", diz. Tem também dificuldades em dormir e em fazer a sua vida normal por causa das dores. Se pudesse, não hesitava, iria a um hospitalar privado, mas "neste momento não dá". Tinha três trabalhos, mas um acidente de viação, deixou-o com 67% de incapacidade e com "dificuldades económicas". "Eu nunca precisei tanto do Serviço Nacional de Saúde (SNS). E como já estou à espera há tanto tempo encontro-me a desenvolver problemas de estômago. Só posso pensar que a saúde oral está a ser desvalorizada", continua.

No inicio do ano passado, quando começou a ter dores nos dentes, marcou uma consulta no centro de saúde. A sua médica de família referenciou-o para o hospital, mas como a consulta tarda, já teve de recorrer às urgências do Hospital de Braga. Prescreveram-lhe um antibiótico, outro medicamento para adormecer as dores e pediram-lhe que esperasse pela consulta da especialidade. Esta semana, na nota explicativa do Orçamento do Estado para 2020, o Governo anunciou a intenção de reduzir 190 mil acessos às urgências através do aumento do número de consultas (mais 331 mil) e cirurgias (mais 63 mil), exatamente o contrário do que acontece na especialidade de estomatologia do Hospital de Braga.

Jean Cabrita recebeu em casa três cartas a desmarcar a consulta. Sobre a segunda marcação diz que não lhe enviaram nada e que teve de se deslocar ao hospital. Aproveitou para perguntar a causa do reagendamento, apresentar queixa (que garante não ter recebido resposta) e pedir transferência para outro médico disponível. Disseram-lhe que isso não poderia acontecer, pois só o profissional de baixa receberia os utentes para a primeira consulta.

O serviço de estomatologia do Hospital de Braga é constituído por quatro profissionais, "todos em função neste momento" - ou seja já regressou ao serviço o médico que esteve um ano de baixa - garante a unidade hospitalar. Em resposta o DN, o hospital indica ainda que tem "vindo a envidar todos os esforços para melhorar o acesso à consulta de estomatologia" e que, desde 2017, diminuiu o tempo de espera nestas consultas em 58%.

Uma das cobaias de polémica experiência dentária da Casa Pia

Jean Cabrita nasceu em Sintra e viveu sempre em Lisboa até há seis anos, quando se mudou para Braga. Queria melhorar a sua qualidade de vida, depois de um acidente que o deixou com uma incapacidade de 67%. "A qualidade de vida é superior à de Lisboa, mas sinto que os serviços públicos se aproveitam da humildade das pessoas do norte". Estudou sempre na Casa Pia, em Lisboa, e foi um das mais de 500 alunos envolvidos na polémica experiência cientifica na área da medicina dentária realizada por investigadores portugueses, denunciada em maio de 2012.

Ao longo de oito anos, crianças entre os oito e os 12 anos, serviram de cobaias a um estudo para avaliar os efeitos do mercúrio na saúde dentária. Investigadores da Faculdade de Medicina da Universidade de Lisboa, a convite da Universidade de Washington, nos Estados Unidos, colocavam "chumbo" nos dentes das crianças para verificarem se haveria alterações na memória, na atenção, na concentração, no sistema nervoso e a nível motor. Na altura, especialistas revelaram que estas experiências nunca tinham sido sequer feitas com animais e que algumas das crianças chegaram a ter de "chumbar" 16 dentes.

"Com o passar dos anos, no sitio onde estavam as amálgamas [uma liga metálica formada pelo mercúrio], ficaram buracos e alguns dentes foram desvitalizados. Causa dores e infeções. De um lado da boca, ainda tenho dentes que precisam de ser desvitalizados e outros que precisam de ser tratados, porque tive uma alta concentração de mercúrio na boca", explica Jean Cabrita.

"Não é por falta de recursos humanos que não existem dentistas no SNS"

O Hospital de Braga não é a instituição que maior tempo de espera apresenta para a especialidade de estomatologia, no portal do SNS. No Centro Universitário de Coimbra e no Hospital Infante D. Pedro, em Aveiro, os dias que separam a marcação da consulta são superiores e estão acima do recomendado por lei. Em declarações ao DN, o bastonário da Ordem dos Médicos Dentistas, Orlando Monteiro da Silva, refere que esta "é uma situação lamentável" e "que nem sequer reflete toda a realidade", porque "há muitos outros hospitais que não aparecem referenciados na plataforma de Tempo de Espera dos SNS com situações semelhantes e em muitos onde infelizmente nem sequer existem consultas de medicina dentária".

"Também não existe resposta, ao nível dos hospitais do SNS, para situações de urgência, em acidentes, traumas", acrescenta. Para o bastonário, isto acontece por falta de desbloqueamento de verbas do ministério das Finanças, uma vez que a carreira de medicina dentária já existe há dois anos. "Portugal tem cerca de dez mil médicos dentistas. Não é por falta de recursos humanos que não há médicos a exercer no SNS".

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