Portugal já tratou três mil doentes em casa. "No hospital domiciliário diagnostica-se pouco e trata-se muito"

Há mais de 20 hospitais portugueses que dão a possibilidade de internamento em casa a doentes agudos. "No hospital domiciliário diagnostica-se pouco e trata-se muito", resume o médico espanhol Andima Ozamiz, chefe de serviço no Hospital Universitário de Cruces, onde os profissionais portugueses estão a receber formação sobre hospitalização domiciliária.

Em Portugal, foram internados e tratados em casa cerca de três mil doentes, desde 2015 (quando foi criado o primeiro projeto de hospitalização domiciliária no país, em Almada, no Garcia de Orta) e até outubro deste ano. "É o equivalente a um hospital de 140 camas no mínimo", afirma, ao DN, Delfim Rodrigues, coordenador nacional do programa de hospitalização domiciliária. Segundo as contas do médico, este hospital num espaço físico custaria ao Serviço Nacional de Saúde aproximadamente 200 milhões de euros, mas em casa todos os doentes juntos terão custado sete milhões de euros.

"No futuro, os hospitais deveriam servir apenas para fazer um diagnóstico e a convalescença pode ser passada em casa. Nos hospitais, as pessoas contraem mais infeções e sentem-se fora do seu ambiente", diz Andima Ozamiz, chefe de serviço no Hospital Universitário de Cruces, em Biscaia, Espanha, onde foi implementada uma das primeiras equipas de hospitalização domiciliária da Europa. Para os médicos é um desafio; deixam a sua casa - o ambiente hospitalar - e estão mais expostos. Têm de ser capazes de antecipar, de forma ainda mais eficaz, aquilo de que os doentes precisam. "No hospital domiciliário, diagnostica-se pouco e trata-se muito", refere o especialista espanhol, ao DN, à margem da apresentação do projeto de hospitalização domiciliária do Centro Hospitalar Universitário Lisboa Norte (CHULN), nesta terça-feira.

Com a criação de uma nova unidade de hospitalização domiciliária em Santa Maria e no Pulido Valente (CHULN), prevista para janeiro, passam a ser 23 os hospitais portugueses com esta valência. O primeiro projeto de internamento de doentes agudos em casa foi criado no Hospital Garcia de Orta, mas hoje o modelo já cobre grande parte do território nacional. E espera-se que continue a crescer. A ministra da Saúde anunciou mesmo, em setembro, que o governo pretende alargar o projeto a todos o hospitais do país.

Tanto a equipa do Garcia de Orta como a do CHULN deslocaram-se ao hospital onde Andima Ozamiz trabalha para receber formação e discutir a melhor forma de implementar a unidade. "O hospital espanhol funciona muito bem na hospitalização domiciliária, vimos as instalações e a forma como a equipa funcionava", conta Jorge Ruivo, médico na ala de Medicina Interna do Santa Maria, e um dos três profissionais a deslocar-se ao país basco.

O conceito de hospitalização domiciliária nasceu nos Estados Unidos, em 1947, depois da Segunda Guerra Mundial, com o objetivo de criar um ambiente psicológico mais favorável à recuperação dos doentes. À Europa, o modelo chegou em 1957 a França e em 1981 a Espanha. Entretanto, no país vizinho já foram registadas, segundo a Sociedade Espanhola da Hospitalização Domiciliária, cerca de cem unidades, com capacidade para internar mais de cem mil doentes em casa por ano. Só no Hospital Universitário de Cruces existem oito equipas de hospitalização domiciliária, que atendem em média 93 doentes por dia e que este ano já deram 2600 altas médicas. Há mais camas de internamento no domicílio (cem) do que no serviço de Medicina Interna (40).

"Temos de crescer não porque assim o decidimos, mas porque a população o quer. Quando começámos com o projeto, há várias décadas, os pacientes não queriam ir para casa. Tinham a sensação de que estavam a ser expulsos [do hospital] para libertar camas. Mas agora ninguém, no país basco, nega a hipótese de ser tratado em casa", conta Andima Ozamiz.

Delfim Rodrigues revê-se na perspetiva e tem como ambição que esta também possa ser a realidade portuguesa: "Porque não havemos de ser tratados em casa? A Galiza tem um plano estratégico até 2022 para estender a hospitalização domiciliária a 100% dos galegos. E já vão em 75%. Isto faz-me lembrar o século XIV, quando tínhamos espanhóis por cima, galegos por baixo e para onde é que nós fomos? Fomos para o mar e saímo-nos bem. Portanto, temos de encontrar também o caminho para a hospitalização domiciliária."

Redução do tempo de internamento e das infeções

A nível qualitativo, todos os inquéritos de satisfação preenchidos pelos utentes e pelas famílias apontam no mesmo sentido: os doentes preferem ser internados em casa, salvo raras exceções. Ficam no seu meio e sentem que têm mais atenção por parte das equipas multidisciplinares que os visitam, a atenção não é partilhada, é direcionada para apenas um paciente. As estatísticas nacionais apontam ainda para menos de um terço de reinternamento dos doentes, zero infeções hospitalares e 24% de diminuição da mortalidade.

No Hospital de Bragança - o único com hospitalização domiciliária na região de Trás-os-Montes - o tempo de internamento foi reduzido, porque os candidatos inseridos neste modelo recuperaram mais rapidamente. Foi o que constatou a equipa, que monitorizou 34 pessoas em cinco meses. "Se no internamento um processo leva, por exemplo, sete dias, em casa é cinco. Ou se leva 15 dias, em casa são 12, porque recuperam muito melhor", explicou, à agência lusa, no passado sábado, Carmen Valdivieso, a responsável pela equipa.

Santa Maria quer tratar 20 doentes em casa por dia

A unidade de hospitalização domiciliária no Centro Hospitalar Lisboa Norte arranca em janeiro, em princípio, com seis doentes. Mas, ainda durante o primeiro ano, querem estar a atender vinte doentes em casa por dia, indicou o médico Marco Narciso, um dos membros da equipa em desenvolvimento, durante a apresentação do projeto, nesta terça-feira, no auditório do Hospital de Santa Maria.

Na mesma conferência, o presidente do Conselho de Administração do Centro Hospitalar Universitário Lisboa Norte, Daniel Ferro, apresentou os desafios do Santa Maria e do Pulido Valente para os próximos anos e admitiu um "grande défice no atendimento" destas unidades, nomeadamente, nos tempos de espera de consultas e cirurgias. Parte da solução passará por "caminhar para um hospital sem macas", no qual a hospitalização domiciliária desempenhará um papel fulcral.

"Mas mesmo que [a hospitalização em casa] não contribuísse para mais nada, continuaria a valer a pena pela satisfação das famílias", defendeu o médico Marco Narciso. "Sempre estivemos muito centrados no papel do médico. Na hospitalização domiciliária, estaremos mais focados no doente."

Mais Notícias

Outros conteúdos GMG