O melhor professor do mundo dá 80% do ordenado para ajudar alunos carenciados

Professor queniano venceu o Global Teacher Prize e recebeu um milhão de dólares.

Peter Tabichi tem 36 anos e é professor de matemática e física numa zona rural do Quénia. Na sua escola, na vila de Pwani, há apenas um professor para 58 alunos, um único computador e fraco acesso à internet. Quase todos os seus alunos vêm de famílias pobres e cerca de um terço são órfãos ou têm apenas um progenitor. Todos os meses, o professor dá cerca de 80% do seu ordenado para ajudar os alunos mais carenciados.

Mas agora o esforço de Peter Tabichi, que é também frade franciscano, foi recompensado: no domingo, ele recebeu o prémio de melhor professor do mundo atribuído pela Varkey Foundation e com ele um milhão de dólares (mais de 800 mil euros). "Em África, todos os dias viramos uma página, esta é apenas mais uma", disse o professor. "Este prémio não me distingue a mim, distingue todos os jovens deste grande continente. Só estou aqui por causa do que os meus alunos conseguiram. Este prémio abre-lhes oportunidades. Diz ao mundo que eles podem fazer tudo o que quiserem."

Tabichi orienta clubes de matemática e de ciência e consegue motivar de tal forma os alunos que eles já competem em concursos nacionais e internacionais. Um grupo de alunos ganhou um prémio da Royal Society of Chemistry com um projeto que usa plantas locais para gerar energia. Para tornar as aulas mais interessantes, o professor frequenta internet cafes e descarrega material que depois pode usar nas aulas em modo offline. E quando é necessário vai a casa dos alunos para lhes dar aulas particulares.

Os jovens da escola secundária Keriko Mixed Day, onde Tabichi dá aulas, enfrentam inúmeras dificuldades, desde a falta de comida à toxicodependência, passando por gravidezes e casamentos na adolescência. No entanto, a taxa de abandono escolar tem vindo a diminuir e são cada vez mais aqueles que querem prosseguir os seus estudos: em 2017, 16 alunos foram para a universidade; em 2018 esse número subiu para 26. Por outro lado, os problemas disciplinares têm vindo a diminuir: de 30 para 3 casos por semana.

"Temos de fazer mais com menos", explicou Tabichi na cerimónia que se realizou no domingo no Dubai, expressando a sua esperança nas futuras gerações: "Como professor que trabalha no limite, acredito nos jovens - na sua curiosidade, talento, inteligência, crença. Os jovens de África não vão ficar aquém das suas expectativas. África vai produzir cientistas, engenheiros, empresários cujos nomes um dia serão famosos em todos os cantos do mundo. E as raparigas vão ser uma parte importante desta história."

O Global Teacher Prize foi disputado por 10 mil professores de 179 países, incluindo Portugal. No ano passado, a vencedora foi uma professora de Londres.

Exclusivos

Premium

Catarina Carvalho

Clima: mais um governo para pôr a cabeça na areia

Poderá o mundo comportar Trump nos EUA, Bolsonaro no Brasil, Erdogan na Turquia e Boris no Reino Unido? Sendo esta a semana do facto consumado do Brexit e coincidindo com a conferência do clima da ONU, vale a pena perguntarmos isto mesmo. E nem só por razões socioideológicas e políticas. Ou sobretudo não por estas razões. Por razões simples de simples sobrevivência do nosso planeta a que chamamos terra - porque é isso que é fundamentalmente: a nossa terra. Todos estes líderes são mais ou menos populistas, todos basearam as suas campanhas e posteriores eleições numa visão do mundo completamente conservadora - e, até, retrógrada - do ponto de vista ambiental. E embora isso seja facilmente explicável pelas razões que os levaram à popularidade, é uma das facetas mais perigosas da sua chegada ao poder. Vem tudo no mesmo sentido: a proteção de quem se sente frágil, num mundo irreconhecível, em acelerada e complexa mudança, tempos de um paradigma digital que liberta tarefas braçais, em que as mulheres têm os mesmos direitos que os homens, em que os jovens podem saber mais do que os mais velhos... e em que nem na meteorologia podemos confiar.

Premium

Pedro Lains

Boris Johnson e a pergunta do momento

Afinal, ao contrário do que esperava, a estratégia do Brexit compensou, isto é, os resultados das eleições desta semana deram uma confortável maioria parlamentar ao homem que prometeu a saída do Reino Unido da União Europeia. A dimensão da vitória põe de lado explicações baseadas na manipulação das redes sociais, da imprensa ou do eleitorado. E também põe de lado explicações que colocam o desfecho como a vitória de uma parte do país contra outras, como se constata da observação do mapa dos resultados eleitorais. Também não se pode usar o argumento de que a vitória dependeu de um melhor uso das redes sociais, pois esse uso estava ao alcance de todos e se o Partido Trabalhista não o fez só ele pode ser responsabilizado. O Partido Conservador foi mais profícuo em mentiras declaradas, mas o Partido Trabalhista prometeu coisas a mais, o que é diferente eticamente, mas não do ponto de vista da política eleitoral. A exceção, importante, mas sempre exceção, dada a dimensão relativa da região, foi a Escócia, onde Boris Johnson não entrou. Mas a verdade é que o Partido Conservador conseguiu importantes vitórias em muitos círculos tradicionalmente trabalhistas. Era nessas áreas que o Manifesto de esquerda tradicional teria mais hipóteses de ganhar, pois são as áreas mais afetadas pela austeridade dos últimos nove anos. Mas tudo saiu ao contrário. Porquê?