Número de hospitalizações por anorexia nervosa duplicou em 15 anos

Desde o início do milénio até 2014 que os distúrbios alimentares levaram à hospitalização de cerca de 4500 doentes. A anorexia nervosa foi a doença deste tipo com maior incidência nos hospitais públicos em Portugal continental.

Entre as 4485 hospitalizações por transtornos alimentares registadas no Serviço Nacional de Saúde (SNS), 2806 dessas terão como causa a anorexia nervosa e algumas resultado mesmo em mortes, entre o ano 2000 e 2014. A bulimia nervosa está também entre os transtornos mais frequentes nos internamentos monitorizados, embora com menos incidência. Os dados resultam de um estudo publicado na revista académica International Journal of Eating Disorders, onde participou uma equipa de investigadores portugueses do Cintesis (Centro de Investigação em Tecnologias e Serviços de Saúde), em colaboração com a Faculdade de Medicina da Universidade do Porto.

A investigação parte de uma análise destes 15 anos, realizada nos hospitais públicos portugueses de Portugal continental. "Os resultados revelaram que o número de hospitalizações por distúrbios alimentares se manteve estável ao longo dos anos em estudo, mas os casos de anorexia nervosa subiram de 12,8 por 1 milhão de habitantes para 23,7 em 2014", pode ler-se na conclusão do estudo.

Neste mesmo período, 25 destes internamentos terão mesmo sido fatais. Em entrevista ao jornal Público, o médico e um dos investigadores participantes, Manuel Gonçalves-Pinho, alerta, contudo, que não é possível aferir que estas mortes terão resultado diretamente deste distúrbio.

O estudo revela ainda que um terço deste total de hospitalizações é relativo a doentes que tiveram que ser hospitalizadas mais do que uma vez e, entre a porção nacional de doentes com distúrbios de comportamento alimentar, está ainda incluído um número de casos que não necessitaram de ficar internadas após a consulta. "Estas doenças são muito prevalentes e representam uma fatia elevada do orçamento", explicou o especialista.

Este é o primeiro estudo europeu onde são avaliadas todas as patologias do comportamento alimentar, além da anorexia e da bulimia, considerados os mais conhecidos e os únicos que costumam ser objeto de investigação. A análise contabiliza também a pica - designada a vontade anormal de ingerir produtos não-alimentares, como terra, moedas, carvão, etc., e causa de três óbitos registados também entre 2000 e 2014 -, a doença da ruminação, o vómito psicogénico, entre outros.

Os investigadores concluíram ainda que as hospitalizações nacionais por tentativas de suicídio foram mais comuns entre os pacientes com bulimia (10,1% dos internamentos) e anorexia (representando 5,2% das mesmas). Contudo, a anorexia registou maior mortalidade intra-hospitalar do que a bulimia, afetando principalmente mulheres (87%) e em idades ainda jovens. Esta é considerada uma das patologias psiquiátricas mais letais.

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