Nova era: tratamento com antirretrovirais impede transmissão do vírus da sida

Pessoas infetadas com VIH que estejam em tratamento com antirretrovirais, e sem vestígio de carga viral, não transmitem vírus a parceiros sexuais, mesmo sem preservativo. Estudo abre caminho a nova era na luta contra a doença

Foram oito anos a seguir mil casais de homens homossexuais, em que um deles estava infetado com VIH e a fazer tratamento com antirretrovirais, não apresentando carga viral detetável. Ao longo desse período, os casais mantiveram relações sexuais sem usar preservativo, mas não ocorreu, em todo esse tempo um caso sequer de transmissão do vírus da sida em qualquer um dos casais seguidos.

O resultado do estudo, que foi publicado esta quinta-feira na revista científica Lancet, vem juntar-se a um resultado idêntico de uma investigação anterior em tudo idêntica, mas com casais heterossexuais. Nessas mesmas circunstâncias - um dos membros do casal infetado com VIH, em tratamento e sem carga viral detetável, e mantendo relações sexuais sem utilizar preservativo -, o resultado também foi o mesmo: zero casos de transmissão do vírus.

Estes resultados, sublinham os autores do último estudo, colocam no horizonte a possibilidade real de travar a transmissão do vírus e a pandemia de sida, se todos os infetados receberem tratamento. Uma mensagem reforçada pela própria diretora do programa de tratamento e prevenção do VIH/sida da Organização Mundial da Saúde (OMS), das Nações Unidas, Rachel Baggaley.

De acordo com os cálculos feitos pelos investigadores, o tratamento adequado e correspondente inexistência de carga viral detetável nos parceiros infectados com VIH, que participaram no estudo, contribuíram para evitar 472 transmissões do vírus ao longo destes oito anos.

"Os nossos resultados fornecem uma prova conclusiva de que o risco de transmissão do VIH nas relações sexuais entre homens, quando um deles está infetado e faz tratamento antirretroviral, mantendo a carga viral indetectavel, é zero", afirmou Alison Rodger, da University College de Londres, uma das coautoras do trabalho agora publicado na Lancet.

"Esta é uma mensagem poderosa que pode ajudar a acabar com a pandemia [da sida], ao impedir a transmissão do VIH, pondo, ao mesmo tempo, fim ao estigma com que vivem muitas destas pessoas", sublinhou.

Para aquela investigadora, os dados mostram que é necessário aumentar "os esforços para garantir que todas as pessoas infetadas com VIH tenham acesso aos testes de diagnóstico e ao tratamento, bem como ao acompanhamento médico, garante do seu cumprimento, para manter a carga viral indetectável, que é condição essencial para a não transmissão do vírus.

Rachel Baggaley, atual coordenadora do programa de prevenção do VIH e da sida da OMS, destaca igualmente a importância do estudo. Ele "confirma", como afirmou, "provas claras e consistentes" de que a transmissão do vírus não ocorre nas circunstâncias já referidas. E isso, disse, reforça a ideia de que "aumentar o acesso aos testes de diagnóstico e ao tratamento permanece um ponto crítico de uma resposta eficaz em saúde pública".

Desde que a epidemia se iniciou, na década de 1980, mais 77 milhões de pessoas já foram infetadas até hoje pelo VIH, das quais 35,4 milhões, ou seja, quase metade, morreram com sida. Apesar dos avanços no tratamento e na prevenção, todos anos surgem a nível mundial 1,8 milhões novos casos de infeção por VIH.

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