No fundo estamos todos ligados. Seja pela tecnologia ou pela chuva

Como uma chuvada antes da web summit pode juntar sindicalistas portugueses e empreendedores japoneses debaixo de um toldo. E como o homem que ligou metade do mundo em rede quer dominar a própria criação

Às cinco da tarde - exatamente a hora marcada para a abertura de portas da Web Summit 2018 - uma carga de água bíblica desaba sobre a multidão que se concentra no primeiro de vários controlos de acesso do evento. Em busca de abrigo, debaixo do toldo de um pequeno café nas imediações da Altice Arena, acotovelam-se um japonês chamado Takeshi, ingleses, espanhóis, Mário Nogueira, da Federação Nacional dos Professores, representantes de vários sindicatos de polícias, que também aproveitaram o dia para fazerem ouvir as suas razões, e duas senhoras mais velhas que aparentemente se tinham limitado a escolher aquela esplanada para beber um chá de fim de tarde.

Enquanto Nogueira aproveita para tentar explicar à delegação nipónica o flyer onde os sindicatos docentes denunciam que "o governo português desrespeita os professores", por não lhes ter contabilizado sete anos de tempo de serviço congelado, um inglês queixa-se do frio e da chuva, assegurando que "em Londres está melhor tempo". "Talvez o bom tempo seja lá mais para o Sul", arrisca a companheira.

O concentrado caldo cultural seria improvável em qualquer lugar menos numa cimeira dedicada ao mundo que é a Internet e às suas infindáveis possibilidades e diversidade. Dentro do pavilhão, sentados em filas consecutivas, encontramos um sérvio com nome de futebolista - Goran Zivkovic -, um inglês a viver na Ásia, James Westwood, e Fahad Algergawi, CEO da Dubai Investment Developmnet Agency. Estão lá todos com o mesmo objetivo. Apreender e, se possível, estabelecer pontes com empreendedores de todo o mundo.

"Estar aqui tem um grande significado. Estão cá os presidentes, CEO, fundadores, de algumas das maiores companhias companhias tecnológicas do mundo", diz o croata, ligado à Publicis One. "Espero sobretudo apanhar pequenos pedaços de sabedoria através do relato das suas experiências".

James, da Ascent Robotics, vem com o mesmo objetivo. Mas também "uma grande curiosidade" em relação à intervenção de Tim Berners-Lee, o inventor da World Wide Web (WWW). Já o ouvi falar uma vez. Mas nunca num contexto como a Web Summit".

Fahad, que lidera "uma delegação do governo do Dubai" vem com vontade de "beber da esperiência deste mundo cultural" mas também "aprender", nomeadamente sobre a organização deste tipo de eventos, com o objetivo de atrair tecnológicas ao emirado. "Também temos algumas experiências para partilhar. O Dubai está a abrir os seus braços a start-ups internacionais. Queremos ser uma porta para a grande região do Médio Oriente e do subcontinente indiano".

Na primeira fila

Se a chuva e os protestos à porta não terão agradado particularmente a António Costa e Fernando Medina, o certo é que, às seis e meia da tarde, primeiro-ministro e presidente da Câmara de Lisboa estavam sentados na filha da frente, sorridentes, com o ministro da Educação Tiago Brandão Rodrigues e o secretário-geral da ONU António Guterres ao seu lado, ouvindo Paddy Cosgrave repor instantaneamente quaisquer danos causados ao ego nacional: "Se esta é a vossa primeira vez em Portugal, acreditem que não será a última", garante o irlandês no discurso de abertura. "Portugal é um país muito especial, pelo qual nos apaixonámos, e onde faremos a nossa casa pelos próximos dez anos", anuncia, para o primeiro aplauso estrondoso da noite.

O irlandês descreve depois um ano em que a tecnologia "mudou o mundo para o bem e para o mal". Mas o tom é sempre otimista. Fala dos estudantes de 60 países que participam como voluntários no Web Summit, das mais de 31 mil mulheres empreendedoras, "de quase todas as cidades do mundo", que participam no evento, das "pessoas excecionais" que estão sentadas na plateia mas poderiam facilmente estar em palco, e acaba a desafiar cada pessoa do público a apresentar-se "a pelo menos três pessoas", gerando uma atmosfera efervescente na arena.

A experiência fez de Cosgrave o indiscutível mestre de cerimónias da web. Mas nesta primeira noite o lugar de destaque vai para o seu criador. Tim Berners-Lee, o homem que em 1989 deu início a tudo, subiu ao palco para explicar como um projeto de investigação evoluiu para uma ferramenta que, hoje, liga exatamente metade da população do planeta. E foi ouvido com o respeito que os pais merecem, tanto pelo pequeno empreendedor como pelos executivos da Google ou da Apple que também ali marcaram presença.

Timidamente, e sem o mesmo jeito de Cosgrave para falar em público, o físico britânico que se orgulha e não ser "um nome que as pessoas conhecem lá em casa", trouxe um intrigante desafio: um "contrato" para fazer da Internet uma ferramenta "que serve as pessoas e nunca o seu contrário". Um contrato para libertar a Internet de fake news, click baiting, vendas agressivas, de informação confidencial. "Se me perguntassem há 10 anos, diria que a web deve se manter livre e aberta", disse mais tarde à jornalista da CNN Laurie Segall, que o entrevistou em palco. "Mas o que fazemos às pessoas que colocam o discurso do ódio online?".

Pode o criador controlar a criatura? Bom, com a ajuda de todos talvez. "Estou a pedir a vossa ajuda para resolvermos os grandes problemas que temos".

O mundo "preocupante" do "armamento da inteligência artificial"

Paddy pediu e o público da Web Summit recebeu o secretário-geral da Organização das Nações Unidas (ONU), António Guterres, com um manto de lanternas de telemóvel, que subiu a palco enquanto engenheiro e não escondeu o gosto de ali estar: "Não imaginam o meu entusiasmo enquanto engenheiro por estar perante um público perito em tecnologia de ponta, mas a minha função enquanto secretário-geral da ONU é poder maximizar essas tecnologias para as pessoas, para o planeta e ao mesmo tempo para limitar os riscos dos usos errados."

Guterres começou por falar sobre os caminhos que o progresso tecnológico não deve percorrer: "O armamento da inteligência artificial é preocupante."

"Máquinas que têm o poder e a discrição de tirar vidas são condenáveis, moralmente repugnantes e deviam ser banidas internacionalmente", afirmou.

O secretário-geral da ONU também aproveitou a deixa do criador da World Wide Web (WWW), o britânico Tim Berners-Lee, para explicar que não foi "a 'web' que criou a polarização, o populismo, mas amplificou os problemas".

O discurso de ódio que contagia as redes sociais deve ser, contudo, controlado e Guterres imagina um mundo onde haja uma plataforma comum a políticos, cientistas e cidadãos onde o futuro possa ser repensado em conjunto.

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