"Não podemos confiar na Google", diz antigo alto quadro da empresa

Ross LaJeunesse, que encabeçou as relações internacionais da Google, diz que foi forçado a sair após denunciar práticas discriminatórias

Ross LaJeunesse, ex-chefe de relações internacionais da Google afirma que foi expulso da empresa após ter defendido os direitos humanos, alegando num blogue público que a empresa está cada vez mais a lucrar com as pessoas.

O antigo alto quadro disse que foi forçado a deixar a Google depois de denunciar práticas discriminatórias e que o seu trabalho para combater a censura estava em desacordo com os desejos da empresa em expandir o seu negócio na China.

"Na verdade, acho que não podemos confiar na Google. Tem-se visto repetidamente, até pela forma como lida com dados pessoais quando é solicitada a abordar conteúdo violento online, que não podemos aceitar mais a palavra da empresa", disse ao The Guardian.

LaJeunesse liderou a decisão de, em 2010, parar de censurar os resultados de pesquisa da Google na China e trabalhou para estabelecer um programa de direitos humanos em toda a empresa. Porém, a Google voltou ao mercado chinês com um motor de busca censurado chamado Dragonfly em 2017.

O antigo alto quadro denunciou incidentes ofensivos no local de trabalho, incluindo exercícios de "diversidade" que dividiam os funcionários por etnia e género e incentivavam-nos a insultarem-se uns aos outros, e diz que funcionários em posições mais altas da hierarquia da empresa "intimidavam e gritavam com mulheres jovens, fazendo-as chorar".

LaJeunesse revela que tentou resolver esses problemas com os recursos humanos da empresas até que, em fevereiro de 2019, lhe disseram que não havia mais trabalho para ele na Google como resultado de uma "reorganização". "Defender as mulheres, a comunidade LGBT, os colegas negros e os direitos humanos custou-me a carreira", atirou, no seu blogue.

Não preciso de mais provas que a divisa 'Não fazer mal' deixou de refletir verdadeiramente os valores da empresa. É apenas mais um instrumento de marketing", afirmou.

O antigo responsável pelas relações com os diplomatas e a sociedade civil entrou no conglomerado californiano em 2008. Saiu em maio de 2019, segundo o seu perfil na rede social LinkedIn.

Na sua narrativa, detalhou a colaboração da Google com a China, interrompida em 2010, pelos fundadores Larry Page e Sergey Brin, designadamente por causa do aumento da censura. Considerou que a Google deixou de considerar os direitos humanos no desenvolvimento de novos produtos ou na assinatura de novos contratos, como era a prática.

"Há uma grande diferença entre vender espaços publicitários (...) e trabalhar com o Governo chinês na inteligência artificial ou albergar aplicações do Governo saudita, incluindo a Absher, que permite aos homens seguir e controlar as deslocações dos membros femininos da sua família", avançou. "O nosso apoio às organizações de defesa dos direitos humanos é sem falha", reagiu uma porta-voz da Google, a pedido da AFP.

No quadro da reorganização que ocorreu na Google, "foi oferecido a Ross um novo posto do mesmo nível e com a mesma remuneração, o que ele recusou", avançou a porta-voz, que exprimiu ainda "os desejos de sucesso (a Ross) nas suas ambições políticas".

Ross LaJeunesse, casado com um homem, vai disputar as eleições por um dos dois lugares no Senado do estado do Maine.

O presidente executivo da Google, Sundar Pichai, de origem indiana, foi promovido recentemente para o mesmo cargo na Alphabet, que é a holding que controla aquela.

Com Lusa

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