"Não atribuam a culpa à covid, as crianças portuguesas têm maus hábitos de sono"

Neurologista especializada em doenças do sono, Teresa Paiva liderou um estudo sobre comportamentos e saúde. Um pretexto para uma conversa mais abrangente sobre os bons e os maus hábitos de dormir em que deixa o aviso: "A crise económica vai provocar mais insónias que o covid."

A especialista do sono Teresa Paiva liderou o estudo o que envolveu nove mil pessoas - a maioria profissionais da área da saúde e também doentes do sono, professores, bombeiros - mas não foi só sobre dormir bem ou mal investigou. "Covid, Sono, Saúde e Hábitos" é o tema da investigação que decorreu entre abril e setembro, mas cujas perguntas se focaram nos meses de confinamento e no estado de emergência.

Várias universidades, duas dezenas de laboratórios de sono e mais de 40 autores estão envolvidos nesta investigação. Até agora, foram elaboradas estatísticas sobre 5500 inquéritos, faltando ainda tratar os restantes. Os comportamentos relacionados com a saúde, o sono, a alimentação, a atividade física, a atividade sexual e consumos tóxicos foram temas abordados no inquérito.

A pandemia piorou ou não o sono dos portugueses?
Melhorou o sono de uns e piorou o de outros. Muita gente melhorou porque pura e simplesmente começou a ter menos stress. E esses são os que faziam muitas horas de trabalho, iam levar e buscar os filhos à escola, andavam nas filas de trânsito. Essas pessoas deixaram de repente de ter esse stress no seu quotidiano e melhoraram muito. O sono piorou em média 10%. Nas respostas inicias há 40% que dizem que estavam fartos do confinamento, 15% que fizeram descobertas importantes e 30% dizem que se sentiram bem no confinamento. É uma percentagem importante.

Se o estudo fosse feito agora, os resultados seriam diferentes?
O resultado a partir de agora poderia ser pior porque há dois fatores que são importantes, que é o facto de isto se prolongar no tempo, durar mais do que aquilo que muita gente estava à espera, começar a haver muita gente infetada com covid e, por outro lado, começar a haver uma crise económica. As pessoas têm preocupações de poderem ser infetadas ou, se tiverem outras doenças, não serem tratadas nos hospitais.

"A crise económica vai provocar mais insónias do que a covid."

A pandemia trouxe uma crise económica. Muita gente ficou desempregada ou viu os seus rendimentos reduzidos. Estes são os assuntos que tiram o sono?
A crise económica teve paliativos até agora e vão ser cada vez menores. Esse problema concreto vai provocar mais insónias do que a própria covid. Daqui para a frente penso que as coisas vão piorar. Durante o confinamento houve uma certa tranquilização das coisas. Houve pessoas que efetivamente melhoraram bastante e outras que ficaram iguais. O que estamos neste momento a fazer é tentar perceber o que levou as pessoas a melhorar ou a piorar, o que está subjacente a isso.

Com o isolamento, agravaram-se doenças do foro mental. Não são também uma causa de perturbação do sono?
As doenças psiquiátricas afetam o sono primariamente, quase todas têm perturbações do sono. Só no caso de alguma perturbação da personalidade é que não, de resto tem tudo grandes perturbações do sono. É evidente que, se agrava as doenças psiquiátricas, também agrava os problemas do sono. Nós também perguntámos neste estudo se as pessoas tiveram mais doenças psiquiátricas ou não. Algumas tiveram, outras não. Algumas pessoas com ansiedade melhoraram, aquelas com depressão pioraram.

O confinamento, os miúdos em casa e o teletrabalho trouxeram inevitavelmente alterações de rotina. Os horários de ir dormir não foram afetados?
Há pessoas que não suportaram ter os filhos em casa, embora a percentagem seja muito baixa. Mas houve queixas significativas sobre terem de ajudar os filhos na telescola. Para os professores universitários e de liceu foi uma mudança muito grande. E se é uma grande mudança, estar perto de miúdos que estão potencialmente infetados também é um problema.

A minha pergunta era no sentido de saber se tem perceção de que o isolamento alterou as rotinas das crianças, se começaram a deitar-se mais tarde.
Muita gente começou a deitar-se mais tarde, mas só estudei os adultos, não as crianças. Outros mantiveram o horário e outros começaram a deitar-se muito cedo - há sempre uns extremos e um meio. E os extremos são muito importantes de avaliar porque são essas pessoas que nos permitem arranjar soluções que diminuam o mal e sustentem o bem. Esse é o nosso objetivo.

De que forma é que uma criança que tenha alterado as suas rotinas, que tenha passado a deitar-se muito tarde, que use ecrãs, pode ser afetada na escola?
Já faziam antes! Não atribuam a culpa à covid, porque as crianças e os adolescentes portugueses têm hábitos de sono que não são bons, muito tardios, e depois têm de se levantar cedo para irem para a escola. Não aprendem, aprendem mal. Os alunos com privação de sono, seja por que razão for, têm mais insucesso escolar.

Quantas horas deve dormir uma criança?
Uma criança com 10 anos tem de dormir cerca de dez horas e pode dormir até 12 horas. Um adolescente de oito a nove. Já um adulto deve dormir entre sete e nove horas.

Dificilmente as nossas crianças dormirão dez a 12 horas...
Por isso é que há os miúdos nervosos, hiperativos, a tomarem ritalina, e os miúdos desatentos e o insucesso escolar. E o bullying e a agressividade e a violência... Num estudo feito há vários anos pela professora Margarida Gaspar de Matos, em que eu participei, 5% dos adolescentes levavam armas para a escola, exatamente a mesma percentagem dos adolescentes americanos que levam armas para a escola, a diferença é que uns levam facas e outros pistolas. Dizer que isto foi por causa da covid não foi! Isto já existia.

"Custa assim tanto deixar o telemóvel na sala, ir para a cama e não mexer no telemóvel?"

Até para os adultos o telemóvel passou a ser um objeto junto à cabeceira da cama.
​​​​​​​Para a maioria das pessoas, isso perturba o sono com certeza e não se deve fazer. O que pergunto é: custa assim tanto deixar o telemóvel na sala, ir para a cama e não mexer no telemóvel? Se as pessoas quiserem ter comportamentos errados... Exatamente o que fizemos neste estudo foi questionar as pessoas sobre a atividade física, a alimentação, a ingestão de tóxicos como tabaco, álcool e drogas, que doenças tinham, quais melhoraram e pioraram - é um inquérito muito grande. Estamos a estudar os comportamentos relacionados com a saúde e esses comportamentos são essenciais para se ter uma boa saúde. Há pouco acabei uma consulta e um estagiário disse-me: "Em grande parte das consultas, não estamos a tratar doenças, mas comportamentos." E é verdade. Passei grande parte das minhas consultas a ensinar comportamentos.

"Trabalhar à noite é antinatural, porque não somos mochos, não somos corujas."

Quais são os problemas de sono que os seus pacientes lhe levam?
Vejo doentes com tudo e mais alguma cosia e vejo doentes muito graves. A queixa dominante são as insónias, o ressonar e a apneia do sono, depois são as pernas inquietas. E depois o deitar demasiado tarde ou o trabalhar por turnos.

Não é a mesma coisa dormir de dia ou de noite?
Estamos feitos para estarmos acordados de dia e dormir à noite. Quando fazemos outro horário estamos a lutar contra as regras do nosso corpo. Trabalhar à noite é antinatural, porque não somos mochos, não somos corujas.

Quais são os sinais a que devemos estar atentos para sabermos se estamos a dormir mal?
O primeiro sinal de que a coisa não está bem é irritabilidade, fadiga e dores de cabeça, e começar a ter problemas de concentração e de memória. Mas a irritabilidade é um dos primeiros sintomas em muita gente. E depois é o acordar cansado, com vontade de dormir mais. Dormir a ver televisão sistematicamente, dormir em reuniões de família, a seguir às refeições e nos transportes é sinal de que a pessoa está privada de sono ou que tem uma doença do sono.

Quando é que se deve procurar ajuda médica?
Há umas convicções erradas. Por exemplo, as pessoas com apneia do sono acham que dormem muito bem porque adormecem muito depressa, mas depois dormem durante o dia e acham normal. Mas não é normal. Uma pessoa só dorme durante o dia se tiver privação do sono ou se tiver uma doença do sono.

Mas a sesta não é boa?
Não há respostas generalizadas. O que se pretende agora é uma medicina personalizada, dirigida a cada pessoa. Eu gosto de dormir a sesta quando me apetece. Há pessoas a quem isso faz muito mal e outras para quem é essencial. O espectro é muito diferente - a uma pessoa que tem crises epiléticas não lhe vamos dizer para ir dormir a sesta, a quem tem enxaquecas quando dorme a sesta também não. Não posso dizer coisas genéricas.

Vem aí o inverno. Temos necessidade de dormir mais nos meses frios?
Se dormirmos em casa, não temos. O que temos é menos luz e ao termos menos luz podemos ter um humor menos bom. O humor das pessoas pode ser pior no inverno e isso está demonstrado. Agora, dormindo em casa, não há grande diferença entre o verão e o inverno.

Como é que o dia-a-dia pode condicionar uma noite bem dormida?
Se andar todo o dia num lufa-lufa, se andar todo o dia a ser assediada, seja moralmente seja sexualmente, a querer fazer mais do que é capaz, se andar todo o dia chateada, preocupada, ou se não fizer nada todo o dia, que é outra questão, vai dormir mal com certeza.

Então qual é a receita?
A receita é simples. Descartes dizia que uma das coisas era o bom senso. E, de facto, na nossa natureza, tudo o que está à nossa volta funciona em equilíbrios e dentro de determinados limites. Se eu tiver desafios e não fizer nada, fico doente também. Tanto um limite como o outro são maus.

E o local onde dormimos condiciona a qualidade do sono?
Se estiver muito frio ou muito quente dormimos mal de certeza. Se estiver muito barulho - é uma queixa frequente o barulho dos vizinhos - também.

"Quando um doente me chega, avalio imediatamente as rugas e o aspeto físico para ver se dorme bem ou mal."

Diz-se que as cores das paredes podem influenciar.
Não há estudos científicos sobre isso. E só falo das coisas que foram provadas cientificamente. Se me diz que dormir num quarto todo pintado de preto, ou viver, é péssimo, claro que é.

Há uma série de expressões aplicadas ao sono - o sono dos justos, dormir como um anjo, o sono de beleza. Fazem sentido?
O sono de beleza é uma verdade. Enquanto as pessoas dormem há uma regeneração da pele, ficam mais bonitas. Quando um doente me chega, avalio imediatamente as rugas e o aspeto físico para ver se dorme bem ou mal. O aspeto físico da pele é importante. Em relação ao sono dos justos já tenho mais dificuldade porque muita gente que fez enormes falcatruas no nosso país deve dormir na maior, sem qualquer complexo de culpa. Dormir como um anjo tem muito que ver com o sono dos bebés nos primeiros meses de vida que, quando entram em REM, fazem sorrisos, chamados os sorrisos de anjo. A tranquilidade da criança nessa altura leva a falar do sono dos anjos.

Dorme bem?
Muito bem! Faço exercício, alimento-me razoavelmente, quando estou cansada não trabalho. Tenho regras. Quanto mais trabalho há, mais regras tem de haver.

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