Menos insetos e um novo projeto de ciência cidadã em Portugal

Primeiro balanço do trabalho para a Lista Vermelha dos Invertebrados em Portugal, que ficará pronta em 2021, reúne mais de 40 investigadores na Lousã. Já há um sinal claro: insetos também estão a diminuir por cá

É a constatação de uma realidade que noutros países da Europa, como a Alemanha, o Reino Unido e outros, já ficou evidente: a biomassa de insetos está a diminuir. Sem surpresa, os dados preliminares dos trabalhos de levantamento para a elaboração da primeira Lista Vermelha dos Invertebrados no território português do continente apontam agora também no mesmo sentido.

"É consensual que há menos insetos de modo geral", garantiu à Lusa Carla Rego, bióloga, entómologa (especialista em insetos), e a coordenadora executiva do projeto de Lista Vermelha dos Invertebrados, sublinhando, no entanto, não ser possível dizer ainda que espécies poderão estar ameaçadas, já que ainda não existem dados para avançar essa informação,

Identificá-las, no entanto, é um dos objetivos essenciais da primeira Lista vermelha dos Invertebrados para o território português do continente. O objetivo é conhecer a realidade das populações de um vasto conjunto de espécies de alguns grupos de invertebrados. Isso será essencial para perceber quais delas estão ameaçadas, a fim de definir as melhores estratégias para a sua conservação.

No final, a lista vermelha será o rol de todas as que forem classificadas com algum tipo de ameaça, de acordo com os critérios da União Internacional para a Conservação da Natureza (IUCN, na sigla internacional).

Os invertebrados são um grupo muito vasto e em grande medida mal conhecido - estima-se que no território português do continente existam entre 30 mil e 40 mil espécies de invertebrados, muitas delas endémicas, ou seja, exclusivas desta região oeste da Europa - e incluem os insetos, as aranhas, os crustáceos de água doce, os gastrópodes (a família dos caracóis e lesmas), e os bivalves.

Nesta primeira reunião de balanço, que está este sábado a decorrer na Lousã e cujas sessões são abertas ao público, a equipa vai também anunciar a criação de um novo projeto de ciência cidadão, como adiantou ao DN Carla Rego.

"Vamos fazer o lançamento de um projeto de ciência cidadã com uma lista específica de espécies mais em foco, que ainda estamos a definir, para as pessoas poderem participar na avaliação das suas populações nas regiões onde vivem e reportarem as suas observações ao projeto", explicou a coordenadora executiva do projeto de Lista Vermelha dos Investebrados.

Os trabalhos para a elaboração desta lista vermelha, que já decorrem há cerca de um ano, estão a avaliar entre 700 e 900 espécies de invertebrados, das quais 600 são insetos.

Depois de alguns meses de preparação, a definir equipas e a estabelecer o calendários para os trabalhos no terreno, a primeira campanha do projeto decorreu em março deste ano, na Costa Vicentina. Desde então, os investigadores do projeto já percorreram diferentes zonas do território, tendo agora nas mãos o primeiro retrato do estado de conservação dos invertebrados.

Até final deste ano, a equipa conta divulgar a informação final para o grupo das aranhas, adianta Carla Rego.

Outras informações já certas são as ameaças que em Portugal afetam este vasto grupo de animais. "As ameaças são muitas e diversas", resume a investigadora.

Para o grupo dos crustáceos de água doce, por exemplo, a perda e alteração drástica dos habitats, como é o caso da destruição dos charcos temporários, devido a práticas agrícolas e florestais desadequadas, é um dos problemas identificados no terreno. Mas não é o único. A proliferação de barragens e a limpeza cega de vegetação ribeirinha são outros tantos problemas que afetam de diferentes formas as espécies de invertebrados aquáticos.

A juntar a isso, para muitas espécies, as alterações climáticas, que conduzem a mudanças demasiado súbitas nas condições ecológicas, só agravam os problemas já existentes.

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