Ir à bola ou sair a dois? O que acontece no cérebro face ao dilema

Um grupo de investigadores de Coimbra usou este dilema que opõe amor ao clube ao amor por uma pessoa para traçar a primeira cartografia das interações cerebrais que ocorrem nessa situação. E, na maior parte das vezes, o futebol ganha

Dia do maior derby da capital, dia de dilema para alguns casais: ver o Benfica-Sporting ou ir jantar fora com a namorada ou namorado que não gosta de futebol e quer fazer um programa a dois no sábado à noite? Na hora de escolher entre dois amores, ir ao jogo de futebol do clube do coração ou estar com a pessoa amada, como é que um adepto toma a decisão? Graças a um estudo que recorreu a imagiologia cerebral e ao dilema da "guerra dos sexos", da teoria dos jogos, um grupo de investigadores da Universidade de Coimbra, coordenado Miguel Castelo-Branco, conseguiu explicar pela primeira vez como as coisas se passam a nível cerebral. E um pouco mais de metade dos adeptos vai mesmo ao futebol... sozinho.

O que acontece nestas situações no cérebro é uma complexa interação entre diferentes áreas do córtex frontal, e o grupo de Miguel Castelo-Branco traçou agora a primeira cartografia dessas interações. O estudo foi publicado na revista Scientific Reports, do grupo Nature.

À tomada de decisão num tal dilema são convocadas as zonas do córtex orbitofrontal, que está relacionada com a avaliação da dimensão afetiva do problema; as regiões frontais mediais, que estão associadas ao processamento da reciprocidade, e ainda outras mais laterais, que intervêm no processo deliberativo. Ou seja, como diz Miguel Castelo-Branco ao DN, "estamos a falar de funções cerebrais superiores".

Todas estas áreas, que estão envolvidas neste tipo de decisão, surgiram mais tarde na evolução. "Só existem nos primatas, e algumas só mesmo nos humanos", diz o investigador. Nunca seria possível fazer este tipo de estudos em ratinhos.

Essa é, de resto, uma das novidades deste estudo. "Foi a primeira vez que se fez um estudo em que existe um conflito entre emoção e razão, e em que se conseguiu fazer a cartografia do acontece no cérebro nessa situação", sublinha Miguel Castelo-Branco.

Na prática, os participantes tinham de escolher entre um amor, uma relação estável e duradoura, caracterizada por uma recompensa a longo prazo, e uma paixão - o clube de futebol - caracterizada por uma recompensa mais imediata.

Num estudo anterior, publicado em março do ano passado, a equipa de Miguel Castelo-Branco já tinha demonstrado que "a paixão pelo futebol se assemelha ao amor romântico", uma vez que, tal como este, também ela ativa "áreas cerebrais ligadas à emoção e à recompensa".

Mas a paixão pelo futebol é, além disso, "uma forma de amor tribal", que "desperta emoções, por vezes irracionais, que atravessam a fronteira entre o amor tribal e o fanatismo", como explicaram os investigadores na altura.
O que "define o amor tribal" é exatamente essa tensão entre amor e fanatismo, que "implica simultaneamente o sentimento de pertença a um grupo e de rivalidade com outros grupos".

Para realizar aquele primeiro estudo, os investigadores de Coimbra recrutaram como participantes 56 adeptos (54 homens e duas mulheres), na sua maioria das claques oficiais da Académica de Coimbra e do Futebol Clube do Porto.
Este novo trabalho contou com a participação de 44 dos adeptos que já tinham sido avaliados no estudo anterior.

Para o novo estudo, os participantes foram expostos ao modelo de dilema da "Guerra dos Sexos", e esta, explica Miguel Castelo-Branco, "foi a primeira vez que se utilizou este dilema especifico num estudo em neurociências".

Neste tipo de dilema, os valores das opções de atividades de cada um dos participantes são conhecidos, já que eles preencheram previamente questionários em que atribuíram valores às várias atividades propostas. Por exemplo, sair a dois para fazer algo de que ambos gostam, ou de que só um gosta, ir ao jogo do clube sozinho, ou acompanhado da pessoa com quem se tem uma relação romântica.

A cartografia cerebral desse processo de decisão está feita. Quanto às escolhas em si, Miguel Castelo-Branco revela que na maioria das vezes - 60% contra 40% - os participantes escolheram... ir ao futebol sozinhos.

"Isto diz-nos algo sobre o comportamento humano, mas o estudo abre a porta também a novas possibilidades de investigação", nota o neurocientista de Coimbra. "Isto dá-nos novas pistas, por exemplo, para estudar a forma como estas regiões do cérebro envolvidas nas funções cognitivas superiores podem estar envolvidas também nos comportamentos de adição".

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