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Vegetarianos durante um mês, vegetarianos para sempre

Mais de 7500 portugueses inscreveram-se no Desafio Vegetariano desde janeiro de 2018. Durante um mês, comprometem-se a seguir uma dieta "mais saudável, mais amiga de todos os animais, humanos ou não, e do planeta onde todos vivemos". Muitos aproveitaram para mudar de vida.

O avô era caçador, a avó matava leitões para assar - os famosos leitões da Bairrada. Joana Vidal, de 32 anos, não sabe de onde veio a sua preocupação com o sofrimento animal, mas terá surgido ainda na infância. "Recordo-me de fazer enterros para os passarinhos que encontrava mortos na rua. Gosto muito de animais. Para mim, são todos iguais." Antes de começar o Desafio Vegetariano, já tinha retirado da sua alimentação leite, iogurtes, fiambre, queijo e enchidos. Consumia menos carne e peixe, mas, confessa, "faltava um empurrão". "Era algo que eu já queria há bastante tempo, mas faltava um clique final para fazer o reset e passar a uma nova fase."

Joana recebe-nos com uma mesa bem composta - e vegana, claro: há empadão de legumes e cogumelos, salada, arroz-doce, bolo e fruta. Desde que começou a versão portuguesa do Veganuary, em janeiro de 2018, a administrativa nunca mais comeu produtos de origem animal. "Durante aquele mês, enviavam-me a ementa semanal com sugestões. Por vezes não seguia totalmente as receitas, mas ia adaptando." Vive numa localidade do concelho de Cantanhede, onde é difícil ter acesso a alguns ingredientes, mas arranjava alternativas. "Não foi difícil, porque era algo que eu queria. O desafio ajudou-me a ter um compromisso", conta. Houve apenas um prato que a fez sentir-se tentada: polvo à lagareiro. "Mas superei o desafio. Não me deixei ir pela tentação."

Enquanto conversamos, Joana amamenta a filha, Ariana, de 3 meses. "Engravidei em abril. Na consulta de preconceção, informei a médica de que não comia carne, peixe ou derivados", recorda. Não pôs qualquer entrave à sua gravidez vegana, que decorreu normalmente. "No fundo, comecei uma vida nova." Ao mudar a alimentação, começou a sentir-se com mais energia, menos cansada. Além disso, sublinha, deixou os medicamentos para o estômago que tomava desde que teve o diagnóstico de fibromialgia, em 2014. "Deixei de ter dores e azia", frisa.

Joana Vidal está entre os 7500 portugueses que desde 2018 se inscreveram no Desafio Vegetariano. "É uma alternativa para falantes de português a desafios que existiam internacionalmente - como o Vegenuary", conta ao DN João Galvão, coordenador do projeto. Lançado em 2014 no Reino Unido, desafia os participantes a seguir o veganismo durante o mês de janeiro, mas, por cá, o conceito alargou-se. "Havia pessoas que não faziam em janeiro, mas queriam fazer em alturas diferentes. Agora pode ser feito em qualquer altura do ano."

Para participar basta fazer uma inscrição gratuita online. A partir daí, a pessoa recebe informação útil, bem como ementas semanais com receitas - todas sem produtos de origem animal. "É possível ter acompanhamento com os nossos monitores, nomeadamente ao nível da nutrição", conta João Galvão, destacando que os mentores também desmistificam mitos relacionados com este tipo de alimentação.

Quem procura este desafio? 70,6% não são vegetarianos, 19,2% são ovolactovegetarianos e 10,3% são vegetarianos. Há quem o faça por questões relacionadas com o sofrimento animal, com o ambiente, com a saúde. De acordo com os dados cedidos ao DN, mais de metade dos inscritos cumprem o desafio em mais de 75%: 33,1% fizeram todas as refeições vegetarianas; 22,4% fizeram entre 75% e 100% das refeições vegetarianas; e 16,7% fizeram entre 50% e 75% das refeições vegetarianas.

Quando questionados sobre o que pretendem fazer no final do desafio, 38,5% dizem que querem manter o regime vegetariano e 24,4% manifestam vontade de ​​​​​​​reduzir gradualmente, até à eliminação, o consumo de produtos de origem animal. Só 2,2.% querem voltar ao regime que tinham antes de fazer o desafio.

"A maior parte das pessoas não tiveram uma reação positiva"

Joana Pereira, de 27 anos, também faz parte do grupo que decidiu manter uma alimentação vegetariana após o desafio. "Há muito tempo que queria fazer uma alimentação 100% vegetal, mas faltava-me informação e coragem para dar o passo", afirma. Com a equipa do Desafio Vegetariano, encontrou "informação sobre nutrição, suplementação, onde ir buscar os nutrientes", além das sugestões para os pratos. O que lhe fazia mais confusão, assume, era saber o que comer ao pequeno-almoço e ao lanche. Mas descobriu rapidamente: "Costumo comer fruta, leite de origem vegetal, iogurtes de soja, tostas de milho, muitos frutos secos."

O que a levou a querer transformar os seus hábitos alimentares foi, essencialmente, o sofrimento animal. "Metia-me confusão porque é que alguns animais são domésticos e outros são industrializados", frisa a técnica de recursos humanos. Cowspiracy, o documentário que fez nascer muitos veganos em todo o mundo, também contribuiu para a decisão. "Achamos que a indústria agropecuária é inofensiva, mas não é assim." Reconhece, no entanto, que "a maior parte das pessoas não tiveram uma reação positiva" à sua mudança. "Acusaram-me de ser extremista, que era uma moda, que não ia mudar o mundo sozinha."

Joana sempre teve cães, mas quando adotou a July, há um ano, tudo mudou. "Foi a minha primeira filha. O facto de me sentir tão responsável por ela fez que deixasse de fazer sentido matar uns e adorar outros. É-nos passado que é quase natural, que são criados para o efeito, que a morte é quase indolor, mas há coisas que me fazem muita confusão." Por isso, desde janeiro que excluiu da sua vida todos produtos de origem animal. "Só me falta explorar a cosmética", ressalva. E conseguiu contagiar João Rodrigues, de 29 anos, que era "muito carnívoro", mas já está em processo de transição. Ao contrário do que se pode pensar, o casal diz que a dieta vegetariana não fica mais cara. "Se não se tentar substituir os produtos de origem animal por comida mais processada, até fica mais barata."

Reduzir carne e peixe após o desafio

Segundo João Galvão, 10,9% das pessoas que se inscrevem no Desafio Vegetariano procuram reduzir o consumo de carne e peixe quando estes terminam. Foi o que fez João Pedro Silva, de 24 anos, que já há cinco anos não consumia leite de origem animal. "Continuo a consumir tanto carne como peixe como derivados de animais, em quantidades bastante reduzidas. Sem seguir regras ou impor grande limites, costumo consumir carnes (normalmente brancas) duas vezes por semana e peixe pelo menos uma vez. Cortei a 100% na carne de porco. Ovos utilizo-os só na confeção de receitas", conta ao DN.

João diz que desde pequeno se sente "sensível a questões ambientais". "A participação no Desafio Vegetariano surgiu como um consolidar de ideias, impulsionado pelo espírito de resoluções de ano novo - inscrevi-me nos últimos dias do ano -, que no meu caso não sendo uma completa novidade foi uma excelente oportunidade para aprofundar e desenvolver o meu conhecimento sobre o vegetarianismo", indica. Queria seguir um estilo de vida mais conectado consigo mesmo, o que, no seu entender, passava também por mudar a alimentação.

No que diz respeito às dificuldades, João Pedro conta que o principal obstáculo foi organizar-se "de maneira a ter tempo e condições para poder confecionar as refeições propostas no desafio". Aproveitando as receitas como fontes de inspiração, abasteceu-se de produtos-chave para ter em casa. Refere-se, por exemplo, a "especiarias distantes da cozinha portuguesa, a legumes frescos que não conhecia, passando por variadas leguminosas e outras alternativas à carne de origem 100% vegetal". Depois de ter os produtos certos, "é até muito mais divertido e fluido cozinhar refeições de base vegetal do que uma refeição cujo principal ingrediente é um produto ou parte de um animal. As cores, os aromas, os sabores, as texturas, tudo grita por ser mexido e combinado uns com os outros, o que não (me) acontecia quando fazia um bife ou grelhava um hambúrguer (de carne)".

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