Sarampo. Todos os anos, mais de 20 milhões de crianças no mundo não são vacinadas

Os casos de sarampo dispararam no mundo pela falta de vacinação. Em Portugal, Lisboa e Vale do Tejo e o Algarve foram as regiões com taxa de cobertura vacinal abaixo do recomendado na segunda dose da vacina contra o sarampo, segundo dados de 2017

São mais de 20 milhões de crianças que não receberam a vacina contra o sarampo, dada em duas doses, em todo o mundo nos últimos oito anos. Esta falta de vacinação permite a exposição ao vírus e coloca em causa a imunidade de grupo e tem originado um aumento de surtos da doença em todo o mundo, conclui um relatório do Fundo das Nações Unidas para a Infância (UNICEF), divulgado esta quinta-feira.

Em Portugal, Lisboa e Vale do Tejo e o Algarve foram as regiões com taxa de cobertura vacinal abaixo do recomendado na segunda dose da vacina contra o sarampo, segundo dados de 2017.

No âmbito da Semana Europeia da Vacinação, a UNICEF dá conta que cerca de 169 milhões de crianças não receberam a primeira dose da vacina, entre 2010 e 2017, o que equivale a uma média anual de 21,1 milhões de crianças.

Lisboa e Algarve com cobertura vacinal abaixo do recomendado

Em Portugal, de acordo com dados publicados no Conselho Nacional de Saúde (CNS), referentes a 2017, na segunda dose da vacina contra o sarampo, papeira e rubéola (VASPR), dada aos 12 meses e aos cinco anos, a taxa de cobertura vacinal ficou abaixo dos 95%, recomendados pela Organização Mundial de Saúde em Lisboa e Vale do Tejo e o Algarve, regiões descritas como tendo "coberturas vacinais particularmente baixas". Situação que registou melhorias, de acordo com os últimos dados da Direção-Geral de Saúde (DGS).

O estudo do CNS, especificou que, em 2017, "nenhum dos ACES [agrupamentos de centros de saúde] da região do Algarve regista uma cobertura vacinal superior a 95%, registando o ACES Algarve Central uma cobertura vacinal inferior a 90% (89,4%). O mesmo acontece nos ACES da área urbana de Lisboa, como o de Lisboa Norte (85,5%), Cascais (86,7%) e Amadora (88%), que registam "coberturas vacinais particularmente baixas".

De acordo com a DGS, que revelou ao DN dados atualizados de 2018, a situação apresentou uma evolução favorável. Em Lisboa e Vale do Tejo, na segunda dose da vacina contra o sarampo, aos 6 anos, a taxa de cobertura é de 94,2% e, aos 7 anos, de 96,4%. Já na região do Algarve, há uma taxa de cobertura de 93% na segunda dose, aos 6 anos, e de 95,4% aos 7 anos".

Dados da Organização Mundial da Saúde (OMS), revelados recentemente, dão conta de um aumento global do número de casos que quase quadruplicou no primeiro trimestre deste ano face ao mesmo período de 2018, seguindo a tendência dos últimos dois anos, para 112.163 casos.

"O vírus do sarampo vai sempre encontrar crianças não vacinadas", explica Henrietta Fore, diretora executiva da UNICEF, citada pela Reuters. A responsável afirmou que os surtos da doença que estamos a testemunhar atualmente é uma consequência do passado.

Em 2017, uma adolescente morreu com sarampo em Portugal

A UNICEF indica que, em 2017, cerca de 110 mil pessoas, a maioria crianças, morreram de sarampo - 22% a mais que no ano anterior, segundo a UNICEF.

Em Portugal, registaram-se dois surtos da doença em 2017, sendo que num deles uma jovem, de 17 anos, não vacinada, acabou por morrer com sarampo no Hospital Dona Estefânia, em Lisboa.

O sarampo é uma doença altamente contagiosa que, nos casos mais graves, pode matar e causar cegueira, surdez ou danos cerebrais. Atualmente há vários em surtos em muitas partes do mundo, incluindo nos Estados Unidos, Europa, Filipinas, Tunísia e Tailândia, recorda a Reuters.

Mas devido à falta de acesso, sistemas de saúde deficientes, complacência e, em alguns casos, medo ou ceticismo sobre as vacinas, a cobertura global da primeira dose da vacina contra o sarampo foi de em 85% em 2017 - um nível que permaneceu semelhante na última década. A cobertura global para a segunda dose é ainda menor, 67%.

EUA enfrentam maior surto em quase 20 anos

Os Estados Unidos enfrentam o maior surto de sarampo em quase 20 anos e, entre os países desenvolvidos lideram a lista da UNICEF com o maior número de crianças (mais de 2,5 milhões) que não receberam a primeira dose da vacina entre 2010 e 2017. Seguem-se França e Reino Unido, com mais de 600 e 500 mil bebés não vacinados, respetivamente.

A situação ganha contornos críticos nos países pobres. Segundo o relatório da UNICEF, em 2017, a Nigéria, por exemplo, teve o maior número de crianças com menos de um ano de idade que ficaram de fora da primeira dose, com quase 4 milhões. Seguiu-se a Índia, com 2,9 milhões, o Paquistão e a Indonésia, com 1,2 milhão cada, e a Etiópia, com 1,1 milhão.

Henrietta Fore refere que o sarampo não pode ser ignorado e pede mais às autoridades de saúde de todo o mundo para combater a doença. Um combate que deve ser igual para todos os países. "Se levamos a sério a prevenção para combater a disseminação desta doença perigosa, mas evitável, precisamos vacinar todas as crianças, tanto nos países ricos como nos pobres", defendeu a responsável da UNICEF.

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