Quando o médico de família se reforma: "É como perder um amigo"

Dizer adeus aos médicos de família é uma realidade cada vez mais frequente em Portugal, seja porque há mais profissionais de saúde a aposentarem-se do Serviço Nacional de Saúde, ou porque são deslocados entre unidades de cuidados de saúde primários. Um processo difícil para médicos e utentes.

"Quando surgiram os primeiros boatos sobre a aposentação do meu médico, fiquei muito preocupada, ansiosa. Questionava-me sobre o que seria de nós. Ficar sem o médico que nos acompanhou durante 30 anos é como perder um amigo. Não morreu, é certo, mas já não estava lá para me ouvir". Maria Maia, de 58 anos, despediu-se do médico de família que a acompanhou durante quase toda a vida há cerca de sete. Ainda lhe treme a voz quando recorda o fim daquele laço. "O médico pode não sentir isso, porque tem muitos utentes, mas nós, que só o tínhamos a ele, sentimos uma grande perda. Quando entro no centro de saúde, recordo-me sempre daquele homem. Sempre".

Maria é o elemento da família que mais necessita de acompanhamento médico, pelo que tinha a relação mais próxima com o profissional de saúde. "Ele continua a dar consultas no privado, mas é uma despesa que não consigo suportar, porque preciso de consultas com regularidade". Ficou o "carinho e a amizade". "Apesar de já não ser nosso médico, mantemos algum contacto. É uma pessoa que nos vai dizer sempre muito", sublinha, destacando que ainda se está a adaptar ao "novo médico". "É muito acessível e atencioso, mas a cumplicidade constrói-se ao longo dos anos".

Esta é uma realidade cada vez mais frequente em Portugal. "Temos mais colegas a aposentarem-se. É uma realidade nova. Temos previsões de mais de 400 aposentações por ano até 2022. Antigamente, tínhamos entre 300 a 400. Este é um fenómeno que tende a alargar-se no tempo, e é preocupante", diz ao DN Rui Nogueira, presidente da Associação Portuguesa de Medicina Geral e Familiar (APMGF). Tal como o DN noticiou em agosto, o número de reformas é superior ao de novos médicos de família, que não chegará a 400 por ano.

Nem sempre o motivo que leva o utente a despedir-se do médico de família é a aposentação do Serviço Nacional de Saúde (SNS). "Temos o movimento dos médicos, que costuma gerar algum desconforto para os doentes. Mas depois existe o outro lado, das pessoas que não tinham médico e passam a ter", afirma o responsável.

Maria João Albuquerque, de 80 anos, não consegue esquecer o dia em que chegou ao centro de saúde para uma consulta com a médica que a acompanhava há 20 anos e lhe disseram que ela já não trabalhava ali. "Foi no dia 7 de outubro. Atendeu-me uma outra médica, que me disse que só ia ter médico de família em janeiro", recorda. Não houve qualquer aviso. "Senti um desgosto enorme. Parece que fui posta de lado. Até então, tinha toda a atenção da minha médica, os cuidados dela, uma empatia muito grande. De repente, senti que perdi tudo. Foi um descalabro. E não sei o que vou ter no lugar de tudo isso", desabafa.

É uma "mulher de lágrima fácil" e, por isso, não sabe como não desatou a chorar quando soube que a médica tinha sido transferida para uma outra unidade de cuidados de saúde primários em Lisboa. "Era uma pessoa muito atenciosa, educada, interessada, que me ouvia, que fazia perguntas", recorda. Maria João não é aquilo a que chama uma "doente profissional", mas tem alguns problemas de saúde. "A médica nunca se coibiu de me mandar fazer exames para pesquisar. Dava-me conselhos e não me receitava medicamentos à toa. Era uma pessoa excecional", sublinha.

Maria João já pensou telefonar à médica, mas quer deixar passar algum tempo. "Custou-me mesmo muito. Era como se fizesse parte da família". Além do sentimento de perda, considera que existiu "falta de consideração" pelos utentes, que não foram avisados da transferência da médica.

É necessário planear melhor

Na opinião de Rui Nogueira, "é necessário planear melhor, com mais tempo, para preparar as mudanças". Destacando que atualmente existe "capacidade de renovação" dos profissionais, porque estão a entrar muitos médicos de família no SNS, diz que "o problema é a planificação de entradas e saídas, que deve ser mais rigorosa". Essa planificação é "fundamental para os doentes e também para os médicos que mudam de local de trabalho".

Segundo o presidente da APMGF, "há uma situação ridícula" em Portugal, relacionada com o tempo que as aposentações demoram a ser despachadas. "Demoram, em média, quatro, cinco ou seis meses. Habitualmente, vêm por volta do dia 20, com efeito a partir do dia 1. A não ser que a pessoa não se queira reformar, isto devia ser automático". Muitas vezes, lamenta, "os médicos não se conseguem despedir de todos os doentes". A ligação, refere Rui Nogueira, "não é apenas sentimental, mas de conhecimento dos doentes. É difícil para médicos e utentes".

E o que sentem os médicos?

Mário Costa, de 67 anos, aposentou-se há cerca de um ano do trabalho como médico de família na função pública. Conta com 40 anos de experiência, e estava desde 2009 na Unidade de Saúde Familiar do Parque (em Alvalade). "É evidente que criamos laços com as pessoas. Há doentes que me contactam, é simpático. Mandam cumprimentos pela minha mulher, que ainda lá trabalha. Isso agrada-me", conta ao DN.

Houve tempo para se conversar com os doentes e para se despedir. "Foi um processo relativamente tranquilo. Na minha perspetiva, tinha uma boa relação com os meus utentes. Normalmente, estamos na primeira linha. As pessoas procuram-nos quando estão doentes, quando precisam de uma opinião", refere.

Ao DN, o médico reconhece que para muitos doentes é complicado perder o médico de família. "Temos de ajudar a desmontar isso. Ninguém é insubstituível. Criam-se laços de empatia, alguns até de amizade, mas é preciso explicar às pessoas que faz parte", adianta.

Ir atrás do médico para o privado

Raquel Martins, 39 anos, perdeu o médico de família que acompanhava desde bebé aos 29. "Aposentou-se. Foi substituído por outro, que se mantém até à atualidade. No início, foi muito difícil. Aliás, ainda hoje é", assume. Existia uma grande confiança com o clínico, que tinha sido colega de escola do pai. "Era um amigo".

Como o profissional de saúde continuou a dar consultas no setor privado durante mais cinco ou seis anos, Raquel continuou a ser seguida por ele até ao término da sua carreira. "A transição é muito demorada. E difícil. É uma pessoa que sabe tudo sobre nós", realça. No entanto, reconhece que a família teve "muita sorte" com o médico que substituiu o anterior, pois "é muito minucioso e competente".

Rui Nogueira lembra, no entanto, que o grande problema é a falta de médicos de família em algumas unidades de cuidados de saúde primários, como na Alameda, onde cerca de metade dos utentes não têm médico de família. "É uma situação gritante".

"Temos mais de 800 unidades no país. Menos de 10% - 82 unidades - têm um terço dos inscritos sem médico de família. Embora exista uma cobertura quase universal, a assimetria é assustadora. É em Lisboa e Vale do Tejo que o problema é maior. Isto tem a ver com o aumento da população na periferia da cidade, sem o aumento dos médicos na mesma proporção", critica o presidente da APMGF.

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