Os doentes de Asperger têm de usar o nome de um canalha

Hans Asperger identificou uma forma específica de autismo, batizada aliás com o seu nome. 86 anos depois, um livro prova definitivamente que o médico austríaco enviava crianças para a morte numa clínica nazi.

O Terceiro Reich tinha-lhe chamado Aktion T4. Todos os cidadãos com perturbações psicológicas que fossem considerados irrecuperáveis ou inempregáveis, deveriam ser eliminados. Mesmo que fossem arianos. O epicentro da chacina infantil era a clínica Am Spiegelgrund, em Viena. Isto o mundo já sabia: ali foram mortos 789 miúdos nas câmaras de gás. Mas isto o mundo só soube agora: em 1942, o médico austríaco Hans Asperger ordenou que se eutanasiassem naquela clínica 37 crianças a quem acabara de diagnosticar uma variante específica de autismo.

Em maio deste ano, um investigador austríaco chamado Herwig Czech descobriu as provas de que Asperger tinha assinado com o seu punho a ordem de exterminação. Agora, na semana passada, a escritora norte-americana Edith Sheffer publicou um livro em que relata o caso com grande minúcia. Chama-se Asperger's Children e fez que o New York Times Review of Books não tivesse dúvidas em apelidar Hans Asperger de Dr. Morte.

Asperger, que morreu em 1980, nunca viu o seu nome ser atribuído à síndrome específica de autismo que ele havia identificado nos seus estudos durante a II Guerra Mundial. Foi no ano seguinte, 1981, que a comunidade médica decidiu associar o seu apelido àquela variante, por proposta da pediatra britânica Laura Wing. O austríaco era por isso um dos mais respeitados nomes da história da pedopsiquiatria. Até agora.

O livro Asperger's Children revela pormenores absolutamente sórdidos das opções tomadas pelo médico austríaco. O próprio advogava que o extermínio era a melhor hipótese para aquelas crianças e sobretudo para as suas famílias, "caso contrário tornar-se-iam um peso insuportável para as mães". No final da guerra e depois da queda do regime nazi, no entanto, o pediatra recebeu dezenas de cartas de mães que lhe perguntavam onde estavam os seus filhos. Quem possui a síndrome de Asperger precisa de tudo, menos de envergar o nome de um canalha.

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