Neutrinos. Os protagonistas de uma descoberta

Não têm carga elétrica, mas têm sabores e são muito difíceis de detetar. Quando vêm de outras galáxias trazem altas energias e chamam-se cósmicos

Desprovidos de carga elétrica, o que lhes permite atravessar paredes e também viajar através do subsolo, os neutrinos são partículas muitas misteriosas.

Na prática, são as partículas elementares mais abundantes no universo a seguir aos fotões, e a toda hora milhares de milhões delas passam pelos nossos corpos. Um exemplo: a cada segundo, 66 mil milhões destas partículas atravessam a área equivalente a uma unha humana. Mas, paradoxalmente, os neutrinos são muito difíceis de detetar, por isso os detetores, instalados no subsolo, têm de ter grandes áreas, para se aumentar as probabilidades de os "apanhar".

Outra particularidade intrigante dos neutrinos, que são emitidos tanto pelo Sol como pela atmosfera, ou por outras estrelas da nossa galáxia, é que podem oscilar entre três tipos diferentes e mudar de "sabor", como dizem os físicos, o que significa que à chegada à Terra, podem já não ter a identidade original, de quando foram emitidos.

Foi, aliás, esta descoberta do seu "sabor" instável, que permitiu ao japonês Takaaki Kajita e ao canadiano Arthur B. McDonald descobrir que os neutrinos, ao contrário do que se pensava, afinal também têm massa. E com isso, ganharam o prémio Nobel da Física em 2015.

Já os neutrinos cósmicos têm energias extremamente elevadas e não se sabia de onde vinham. A descoberta agora feita mostra que eles chegam de muito longe, e atravessam o espaço, emitidos por objetos como o blazar TXS 0506+056.

Trata-se de uma galáxia activacom um imenso buraco negro central que está, em parte, a devorá-la, e também a emitir jactos de partículas a altas energias, que são as mais elevadas que se conhecem no universo. Foi assim que o neutrino cósmico detectado na Antártida, bem como os raios gama (fotões a altas energias) identificados pelo telescópio Magic e outros observatórios, chegaram cá.

"Com as tecnologias humanas, um acelerador de partículas capaz de produzir energias semelhantes a estas, teria de ter a dimensão da órbita de Mercúrio", diz o físico Mário Pimenta, presidente do LIP, o laboratório português que também assina a descoberta agora feita.

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