Jovens de países com baixos rendimentos são os mais otimistas

Estudo feito em 15 países revelou que, de uma maneira geral, os jovens são mais otimistas do que os adultos e é nos países menos desenvolvidos que se encontram as melhores perspetivas em relação ao futuro.

Os jovens de países como Quénia, México, Nigéria, Indonésia e Índia são mais otimistas do que os jovens da França, Suécia, Alemanha ou Grã-Bretanha. Mas, de uma maneira geral, todos esperam um futuro mais promissor para si, para o seu país e para o mundo do que os adultos. E têm, ainda, um outro ponto em comum: uma insatisfação generalizada com os políticos.

Estas são algumas das conclusões de um estudo conduzido pela IPSOS e financiado pela Fundação Bill & Melinda Gates, uma investigação que envolveu mais de 40 mil pessoas (jovens e adultos) de 15 países.

Em termos globais, os níveis de otimismo foram mais altos em países onde os rendimentos são médios e baixos. Nesses países, 80% dos jovens dos 12 aos 24 anos estão otimistas em relação ao futuro, em comparação com metade dos jovens nos países com altos rendimentos.

Enquanto a França e a Suécia surgem como os mais pessimistas relativamente ao futuro, no México, Nigéria e Quénia, nove em cada dez jovens disseram ter boas perspetivas sobre o que aí vem.

Ressalvando que não conhece os resultados do estudo, Elísio Estanque, investigador do Centro de Estudos Sociais da Universidade de Coimbra, diz que "nas camadas sociais que estão em condições mais degradadas, mais pobres e com menores rendimentos, isto [o otimismo] acaba por ser comum". De acordo com o sociólogo, "a resposta subjetiva e psicológica quando a situação é muito má vai no sentido de acreditar que as coisas podem melhorar no futuro".

Mesmo quando a situação no país é difícil, diz Elísio Estanque, "as pessoas tendem a agarrar-se à ideia de que podem ultrapassar as condições em que vivem em cada momento". Além disso, sublinha, "nos países, regiões ou continentes onde a taxa de natalidade é mais alta, há uma cultura mais otimista dada a vitalidade da própria demografia".

Para Helena Marujo, coordenadora da Cátedra UNESCO em Educação para a Paz Global Sustentável, "é muito bom ver o entusiasmo das novas gerações em relação ao futuro". Quanto às diferenças entre regiões, a docente do Instituto Superior de Ciências Sociais e Politicas explica que "um país em desenvolvimento cria um conjunto de expectativas mais positivas do que nos países onde a história recente mostra um reconhecimento muito limitado das novas gerações".

Adultos mais pessimistas

Sobre o impacto que a sua geração pode ter no mundo comparativamente à dos pais, os jovens apresentaram-se, de uma maneira geral, muito mais otimistas do que os adultos. Os chineses foram os mais otimistas, e foi nos americanos que se registou a maior diferença entre gerações, com os mais jovens a apresentar quase 20% mais otimismo do que os pais."É muito comum. O otimismo tende a esbater-se em quem tem mais experiência e idade mais avançada", diz Elísio Estanque.

Quem tem mais futuro pela frente tem, tendencialmente, mais esperança nas oportunidades. "Quem está em idades mais avançadas preocupa-se com a emergência de outros fenómenos sociais, o medo de não ter reforma ou apoio na doença. Isto complexifica a visão dos mais velhos", esclarece Helena Marujo.

Há algo em que os jovens são unânimes: estão dececionados com os líderes políticos. De acordo com o estudo, esse descontentamento foi particularmente notório no Brasil e na Nigéria. Aí, três quartos dos entrevistados acreditam que os políticos não se interessam por pessoas como eles. Um sentimento partilhado por 50% dos participantes dos 15 países, com exceção para a Arábia Saudita e a Índia.

"Há uma base de dados de 30 países onde se verifica uma tendência da juventude de desconfiança geral em relação aos governos na ordem dos 60%", avança Elísio Estanque, destacando que "isso é visível também na Europa".

A Nigéria e a França são os países onde os jovens têm menos conhecimento sobre as questões políticas, e é na Índia que estão os mais informados sobre o tema. É também aí que há uma maior percentagem de entrevistados (76%) que consideram que a vida no país é melhor para os homens do que para as mulheres. Logo a seguir aparece a Arábia Saudita, onde 60% dos inquiridos tem a mesma perceção.

De uma maneira geral, existem mais jovens do que adultos a concordar que a vida é melhor para homens/meninos do que para o sexo feminino. Mas há otimismo, já que perto de 80% dos participantes em países como a China, a Índia e o Quénia acreditam que as condições de vida das mulheres vão melhorar nos próximos 15 anos.

Nos países menos desenvolvidos, há uma confiança maior de que as condições de vida vão melhorar mais para as mulheres do que para os homens nos próximos 15 anos, enquanto os entrevistados dos países desenvolvidos são menos otimistas. Menos de metade dos inquiridos na Europa tem essa expectativa.

E os portugueses?

Portugal não entrou no estudo, é certo, mas como andará o otimismo dos portugueses? "Eu diria que os portugueses talvez se colocassem na posição típica dos portugueses, ou seja, no mais ou menos. Nem onde existem níveis mais visíveis de otimismo, nem ao nível da França. Acredito que estaríamos num lugar intermédio", atira Helena Marujo.

O otimismo é, segundo a docente, essencial para fazer as sociedades movimentarem-se. "Os otimistas explicam os acontecimentos negativos como provisórios, tendem a explicá-los de forma a mobilizar para a ação", indica, ressalvando que é necessário ter pessoas otimistas e pessimistas nas sociedades. "Nem sempre o otimismo é bom. Se não foi enraizado na realidade, na objetividade da vida, é mau. Há um estudo do professor Miguel Pereira Lopes que diz que os portugueses tendem a ser híbridos. Cada pessoa é simultaneamente otimista e pessimista, mais do que noutras culturas em que há perfis mais puros".

Para Helena Marujo, é preciso "celebrar" os resultados do estudo, mas não ficar apenas por aí. Nos países em desenvolvimento, "há muito para crescer, para fazer", enquanto na Europa é necessário "trabalhar as políticas públicas, criando oportunidades de emprego e respondendo mais às necessidades dos millennials". Na opinião da docente universitária, "é preciso pensar em soluções que consigam manter o otimismo".

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