Estarreja cria gabinete para apoiar quem vem da Venezuela (e não só)

Centenas de portugueses emigrados na Venezuela e lusodescendentes fixaram-se no município nos últimos meses. Agora, há um serviço onde podem tratar de questões sociais, jurídicas, económicas, entre outras.

Poucas horas após a abertura, a sala de espera do Gabinete de Apoio ao Emigrante (GAE) de Estarreja já se encontrava praticamente cheia. Inaugurado esta segunda-feira por Diamantino Sabina, presidente da Câmara Municipal, o serviço, que vai funcionar na Casa Municipal da Cultura, pretende dar resposta ao regresso de portugueses emigrados na Venezuela e lusodescendentes, bem como a pessoas vindas de outros países que procurem instalar-se na região.

Diamantino não sabe precisar quantos cidadãos portugueses e lusodescendentes regressaram ao concelho nos últimos meses, mas acredita que terão sido "bem mais de mil". A SEMA - associação empresarial da região - ajudou a colocar 518 emigrantes no mercado de trabalho, pelo que o autarca acredita que "podemos facilmente extrapolar para um número muito superior", já que a estes se juntam os descendentes, os familiares que já não têm idade para trabalhar e aqueles que ainda não têm a sua situação legalizada.

Estarreja é uma terra de emigrantes - em especial para a Venezuela -, que, perante a crise no país, procuram agora regressar a Portugal. "Estamos a crescer muito em termos industriais e a mão-de-obra começa a escassear", refere Diamantino Sabina, destacando que há um conjunto de fatores que faz com que emigrantes e lusodescendentes procurem a região.

Até agora, garante, o concelho não sentiu "alarme social" com a vinda de emigrantes, nem surgiram problemas relacionados com o emprego ou a habitação. Mas, na opinião do autarca, poderá vir a registar-se um êxodo muito maior do que aquele que se tem sentido, e esta é uma maneira de o município estar preparado para receber e orientar quem o procurar.

A missão do GAE é "apoiar os munícipes que tenham estado emigrados, que se encontrem em vias de regresso, que ainda residem nos países de acolhimento ou que pretendam iniciar um processo migratório", dando-lhes apoio nas questões sociais, jurídicas, económicas, de investimento, emprego e estudos, entre outras.

Segundo o presidente da Câmara Municipal, o serviço vai apoiar quem quer ver a sua escolaridade equiparada, por exemplo, ou quem procura habitação. "Um sem número de coisas que são necessárias para estas pessoas". É uma forma, frisa, de evitar que tenham de se deslocar à cidade de Aveiro para tratar de questões burocráticas.

Ao telefone com o DN, Diamantino Sabina diz que o GAE surgiu por existir uma grande procura de cidadãos vindos da Venezuela na região, mas vai abranger mais nacionalidades. "O que se passa com os venezuelanos foi o que nos levou a abrir, mas não é o único fenómeno de migração a decorrer. Há muitos cidadãos brasileiros a procurar viver nesta zona", destaca.

O GAE não tem competências para legalizar um emigrante, mas pode fornecer-lhe todas as informações necessárias para que trate do processo.

Tal como o DN noticiou em setembro, o retorno de emigrantes está a ter um impacto bastante positivo na economia local. "Chegam com uma enorme vontade de trabalhar e colmatam as necessidades de mão-de-obra do município. Além disso, como estão a fixar-se, potenciam a recuperação das casas desabitadas nas freguesias, e até as novas construções. Tudo isto está a mexer muito com a nossa terra", afirmou, naquela altura, o presidente do município.

Este serviço surge na sequência de um acordo de cooperação assinado a 11 de janeiro, entre a Câmara Municipal de Estarreja e a Direção-Geral dos Assuntos Consulares e das Comunidades Portuguesas do Ministério dos Negócios Estrangeiros.

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