Ele passou a ela no primeiro ano de escola

Ele já tinha decidido. Já não pensava sobre isso. E ele - ela - nunca olhou para trás. Ela deixou crescer o cabelo. Ela deixou de dizer às pessoas que era um rapaz de saias e começou a ser uma menina de saias. E nós, como família, decidimos ser abertos e honestos sobre o assunto. O DN republica, em exclusivo, mais uma história de Amor Moderno do The New York Times

Quando o nosso filho fez seis anos, o meu marido e eu comprámos-lhe um teatro de fantoches e um baú de roupas para se vestir, porque ele gostava de encenar peças de teatro. Enchemos o baú com 20 peças compradas numa loja de caridade, a maioria de indumentária de homem adulto: gravatas, camisas, um boné cinzento e um casaco de fato.

Mas não queríamos que a sua produção criativa ou a dos seus colegas de elenco fosse restringida pelas poucas opções do guarda-roupa, assim incluímos também uns sapatos de salto alto, um chapéu de palha cor-de-rosa, uma saia de tule deslumbrante e um vestido verde brilhante.

Ele ficou fascinado com estes presentes. Pôs imediatamente o vestido verde brilhante. Em certo sentido, ele nunca chegou a tirá-lo.

Durante uns tempos, ele usava o vestido apenas quando estávamos em casa, e só quando estávamos sozinhos. Trocava-o por uns calções e uma T-shirt se tivéssemos coisas para fazer na rua ou visitas em casa.

Depois, quando voltávamos para casa ou as nossas visitas saíam, ele tornava a pôr o vestido verde brilhante, pedindo-me para atar as alças atrás do seu pescoço e a fita em volta da cintura.

Por fim deixou de mudar de roupa. Usava o vestido para ir ao supermercado e quando recebia os amigos. Usava-o para ir ao parque e ao lago. Ele usava calções no acampamento de verão e calções de banho para a natação mas, de resto, estava quase sempre de vestido.

O meu marido e eu nunca fomos da opinião de que as meninas não devem usar calças, subir às árvores ou sujarem-se, ou que os meninos não devem ter cabelo comprido, brincar com bonecas ou gostar de cor-de-rosa, portanto o vestido não nos causou alarme ou preocupações especiais. Mas a escola estava prestes a começar, e estávamos perante um dilema.

Parecia razoável dizer: "Usa aquilo com que te sentires confortável para ir à escola. Se é isso que queres usar, não tens de estar sempre a mudar de roupa".

Mas também parecia razoável dizer: "Os vestidos são só para brincar em casa. O vestido é divertido, mas não podes usá-lo para a escola".

A primeira opção tinha a vantagem de ser justa, que é aquilo em que nós acreditamos, e a que iria fazer o nosso filho mais feliz. A segunda tinha a vantagem de ser muito menos complicada.

Por isso, perguntámos-lhe: "O que achas que vais fazer com o teu vestido quando a escola começar dentro de poucas semanas?"; "Vais precisar de roupa nova para o novo ano escolar. O que devemos comprar?"

Durante semanas, ele não tinha a certeza do que queria.

E então, na véspera das aulas começarem, ele soube.

Vim a saber mais tarde que esta é uma ocorrência bastante comum, que as crianças que tomam decisões como esta, muitas vezes fazem-no quando estão entre a espada e a parede. Elas decidem quando confrontadas com duas opções e nenhuma delas é a ideal.

O nosso filho poderia ir à escola vestido com uns calções e uma T-shirt e sentir-se mal, estranho e que não era ele mesmo. Ou ele poderia usar o que lhe parecia certo e, possivelmente, enfrentar a troça dos seus colegas da escola primária.

Quando ele acordou naquele último dia de férias de verão, a primeira coisa que disse foi que queria usar saias e vestidos no seu primeiro ano da escola.

"O.K.", disse eu, tentando ganhar tempo, com a cabeça invadida por todas as preocupações que ainda não tinha verbalizado. "O que achas que as outras crianças vão dizer amanhã se levares um vestido para a escola?"

"Vão dizer: "Tu és um menino ou uma menina?"", respondeu. "Vão dizer: "Tu não podes usar isso. Os rapazes não usam vestidos". "Vão dizer: "Ah, ah, ah, és tão estúpido".

Parecia-me que ele estava certo. "E como é que te sentes com isso", perguntei.

Ele encolheu os ombros e disse que não sabia. Mas sabia exatamente o que queria usar para a escola no dia seguinte, assim como também parecia saber o que essa escolha lhe poderia custar.

Eu ainda não tinha conhecido a sua nova professora, por isso enviei-lhe um alerta por e-mail, explicando que aquilo tinha vindo a acontecer desde há algum tempo; que não era apenas um capricho. Ela respondeu imediatamente, imperturbável, e prometeu apoiar o nosso filho, "em qualquer circunstância".

Depois fomos fazer compras. A saia de tule e o vestido verde brilhante eram roupas para brincar. Ele não tinha saias ou vestidos que fossem apropriados para a escola.

Eu não queria comprar todo um guarda-roupa novo quando não sabia se aquilo ia durar. Imaginava um cenário em que ele usava uma saia no primeiro dia, era gozado, e nunca mais voltava a levar uma saia. Imaginava outro em que ele experimentava uma vez, ficava satisfeito, e daí em diante ficaria feliz por levar calças todos os dias. Mas, no fundo, eu tinha certeza que as saias tinham vindo para ficar.

As aulas começavam numa quarta-feira, por isso comprámos três conjuntos para usar ao longo da semana. Três saias. Três blusas. Um par de sandálias brancas.

No regresso a casa, perguntei: "O que vais responder se os miúdos disserem as coisas que achas que vão dizer?"

"Eu não sei", admitiu.

Começámos a pensar no assunto os dois. Representámos. Ensaiámos dizendo: "Se as meninas podem usar calças ou saias, os rapazes também podem"; "Devemos usar aquilo com que nos sentimos confortáveis. Assim é como eu me sinto confortável". Praticámos formas educadas de sugerir que eles se metessem nas vidas deles.

"Tens a certeza?", perguntei-lhe. Fiz a pergunta enquanto ele estava atrás de mim no seu lugar no carro para que não visse como eu estava assustada. Perguntei casualmente, enquanto andávamos às compras para que não parecesse que estava a dar demasiada importância ao assunto.

"Tenho a certeza", disse ele. A verdade é que parecia convicto. Pelo menos um de nós estava-o.

A pergunta que eu não conseguia parar de me colocar era: Amamos melhor os nossos filhos protegendo-os a todo o custo ou apoiando-os incondicionalmente? O amor significa dizer: "Nada, nem mesmo a tua felicidade, é tão importante como a tua segurança"? Ou o amor significa dizer: "Sê quem és e eu vou amar essa pessoa, independentemente de tudo"?

Eu não podia fazer estas perguntas ao meu filho. Mas na manhã seguinte perguntei mais uma vez, "Tens a certeza?"

O que era ridículo, uma vez que ele se tinha levantado de madrugada para vestir a saia e a blusa novas e calçar as sandálias, e sorria transbordante de alegria.

Colocámos alguns ganchinhos no seu cabelo muito curto e tirámos as tradicionais fotografias do primeiro dia de aulas. Elas estão todas um bocadinho desfocadas porque ele estava demasiado animado para ficar quieto, mas não importa porque, de qualquer maneira, aquele sorriso alegre é tudo que se vê.

O pai e eu respirámos fundo e acompanhámo-lo à escola. O meu filho, pelo seu lado, parecia que flutuava, aparentemente despreocupado. Tendo decidido, ele tinha a certeza.

As coisas que imaginei que iriam acontecer, aconteceram, embora caindo em categorias opostas. Muitas crianças não repararam, não se importaram, ou olharam por uns instantes antes de avançarem. Mas houve algumas que o incomodavam no recreio e nos corredores, que provocavam ou gozavam, que tapavam a boca, riam, apontavam e não eram dissuadidas pelas nossas respostas cuidadosamente ensaiadas.

Isso durou mais tempo do que eu esperava, mas na sua maior parte acabou ao fim de um mês.

No fim dessa primeira semana, quando estava a ir para a cama na noite de sexta, ele estava chateado com alguma coisa - choroso, enervado e irritável. Ele não podia ou não queria dizer qual era o problema. Tinha os olhos húmidos, os punhos cerrados, a cara fechada.

Tapei-o e dei-lhe um beijo de boa noite. Perguntei, novamente, qual era o problema. Perguntei, de novo, o que podia fazer por ele. Disse-lhe que não o poderia ajudar se ele não falasse comigo. Por fim, sussurrei-lhe ao ouvido: "Não tens de continuar a usar saias e vestidos para a escola, sabes disso. Se os meninos estão a ser maus, se não te sentires bem, podes perfeitamente voltar para os calções e T-shirts".

Ele saltou imediatamente, sentando-se com o rosto desanuviado e os olhos secos e brilhantes. "Não, mãe", repreendeu-me. Eu gostaria de poder dizer que o fez docemente, mas o seu tom era mais como se me estivesse a dizer, "Não sejas idiota". "Eu já decidi sobre isso", disse ele. "Já não penso mais no assunto."

Tinham passado três dias.

Mas também era verdade. Ele já tinha decidido. Já não pensava sobre isso. E ele - ela - nunca olhou para trás. Ela deixou crescer o cabelo. Ela deixou de dizer às pessoas que era um rapaz de saias e começou a ser uma menina de saias.

E nós, como família, decidimos ser abertos e honestos sobre o assunto também, celebrando a sua história em vez de a esconder.

Dois anos depois, a nossa filha ainda usa às vezes o vestido verde, para se mascarar e para interpretar uma personagem em peças de teatro, como imaginávamos que ela iria fazer em primeiro lugar. Agora que ela pode ser quem é por dentro e por fora, durante a semana, bem como aos fins de semana, em casa e em qualquer outro lugar, o vestido verde brilhante voltou a ser apenas uma fantasia.

Laurie Frankel, vive em Seattle e é autora do romance This Is How It Always Is, a sair em breve e que foi inspirado em parte na história sobre a qual ela escreve aqui.

Exclusivo DN/The New York Times

Publicado originalmente em setembro de 2016

Ler mais

Exclusivos