E salta Marcelo, olé! Presidente em festa junto dos escoteiros

Chefe de Estado ignorou o calor abrasador de sexta-feira e marcou para as 16.00 uma visita ao acampamento nacional de escoteiros. Autografou chapéus e posou para centenas de fotografias

"Estão prontos? Um, dois, três!". Já não é só a selfie que basta a Marcelo nas voltas pelo país. O Presidente da República posou esta sexta-feira à tarde centenas de vezes para a fotografia, ao lado dos jovens escoteiros portugueses que durante uma semana acamparam na Barosa, Leiria. O clique estava a cargo de João Paulo Rebelo, secretário de Estado da Juventude e do Desporto, que acompanhou a odisseia de Marcelo ao longo de uma hora e meia, num percurso de algumas centenas de metros.

O Presidente chegou com algum atraso mas quis recuperar o tempo perdido. Quem não soubesse, julgaria tratar-se da visita de um craque de futebol, tal o tipo de cânticos entoados: "braços no ar, todos de pé, vamos cantar, Marcelo Olé". Eram 2500 no total, e só os mais novos (Lobitos) foram dispensados daquela receção.

Quando Marcelo chegou, pensava-se que atravessasse o parque de merendas da Barosa de carro, como fizera o secretário de Estado e o presidente da Câmara de Leiria, Raul Castro. Mas o Presidente fintou a organização e preferiu percorrer as duas filas da beira da estrada, distribuindo beijos, autógrafos, selfies e fotografias. "O meu pai foi desta instituição, sabiam?", começa por dizer Marcelo aos adolescentes. Todos o querem cumprimentar, e num golpe de simpatia um deles pendura-lhe o lenço ao pescoço, outro põe-lhe o chapéu. A partir daí Marcelo autografou centenas, sem exagero.

Já quase no final da fila, a caminho do acampamento dos mais novos, Beatriz Cravo tremelica de emoção. Veio do Algarve, do grupo 166 - Montenegro, integrada num conjunto de 62 escoteiros. Finalmente, Marcelo aproxima-se e faz-se à selfie. Ao DN, Beatriz confessou ser aquele um momento único. Porquê? "Porque ele é espetacular!"

Os chefes vão distribuindo águas pelos convidados e por quem quer, à hora em que os termómetros marcam 40 graus, num dia em que a Proteção Civil aconselhara resguardo. "Estivemos sempre em sintonia com todos os alertas e temos aqui vários escoteiros que são médicos, enfermeiros, bombeiros", dirá mais tarde Miguel Gonzalez, responsável da Associação dos Escoteiros Portugueses.

A visita de Marcelo termina no acampamento da alcateia (Lobitos), que lhe cantam músicas de boas-vindas. No final, o Presidente agradece "papel dos escoteiros e em particular desta instituição, AEP. É uma plataforma de diálogo entre áreas diferentes do país, com sensibilidades diversas, de gente que é crente e não crente, tem visões diferentes do mundo e sobre a vida, e que desde muito cedo faz aqui a sua preparação".

História familiar

Marcelo Rebelo de Sousa nunca foi escoteiro, mas o pai integrou a AEP, por isso mostrou-se familiarizado com a comunidade. Considerou que o ACNAC "é um grande sucesso, e eu felicito vivamente aqueles que o puseram de pé, quer pela responsabilidade a nível nacional quer pela capacidade de chefiar estes milhares de jovens e crianças que não deve ser fácil". É nessa altura que David Otero o contraria: "Na verdade é bastante fácil. Os jovens são impecáveis. Basta que lhes demos as ferramentas necessárias. Aliás, eu acho que devíamos apostar muito mais na nossa juventude, porque eles têm tudo aquilo que necessitam para fazer do nosso Portugal um país ainda melhor", diz o coordenador da atividade.

2500 jovens durante sete dias

David vem do grupo 23, de Queluz, e faz agora o balanço de "sete dias fantásticos, com 2500 jovens participantes, que fizeram mais de 500 atividades diferentes, de variadíssimas áreas. Foi o maior acampamento nacional da AEP". Desta vez a iniciativa integrou "um grande contingente de estrangeiros", nomeadamente israelitas, franceses, belgas, alguns do Luxemburgo, São Tomé e Príncipe e Ucrânia.

David Otero acredita que o acampamento nacional é de grande importância para os escoteiros. Porque o escotismo "é um movimento juvenil que faz o seu trabalho diariamente, que fazem atividades na natureza, acampam regularmente, mas estão sempre com o seu grupo. E um acampamento nacional destes permite aos jovens perceber que o escutismo é nacional e mundial, e que apesar de haver algumas diferenças, os valores são os mesmos. Isso cria um sentido de fraternidade que é espetacular".

O local do acampamento anual nacional demora cerca de dois anos a escolher. "Temos sempre muitas candidaturas. É preciso assegurar um local com segurança em vários fatores. Que tenha muita sombra, algumas infraestruturas de saneamento básico, água e luz, e que à volta permita fazer muitas atividades".

E que diferença existe, afinal, entre os escoteiros e os escuteiros, entre a Associação de Escoteiros Portugueses e o Corpo Nacional de Escutas? "Na verdade não há uma grande diferença entre as suas associações. A primeira grafia a existir foi escoteiros, em 1913. A forma de traduzir o termo scout foi essa: Viajante com mochila às costas. Dois anos depois foi criado o CNE. Talvez a única diferença seja a de nós aceitarmos todas as condições religiosas", ao passo que os escuteiros são apenas católicos.

E esta tarde, na Barosa, quase pareciam uma claque de futebol ou o público de um concerto: "E salta Marcelo, Olé! Olé!"

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