Cidadãos cientistas à cata da vaca-loura, o maior escaravelho da Europa

Lançado há três anos por um grupo de biólogos, o projeto Vacaloura quer conhecer o estado de conservação da espécie em Portugal. E já há bons frutos, com algumas áreas novas em que a sua presença está confirmada.

É o maior escaravelho da Europa - com as suas inconfundíveis pinças, o macho pode atingir os oito centímetros (cm) de comprimento. Mas, apesar de ser uma espécie protegida, tudo indica que a vaca-loura (Lucanus cervus) está em declínio. Isso confirma-se, por exemplo, em algumas regiões da Suécia, da Holanda ou da França, e provavelmente em todo o território da Dinamarca. Já em Portugal, a sua situação é desconhecida: não existem dados. Mas um projeto de ciência cidadã, lançado em 2016 por um grupo de biólogos para monitorizar a espécie e o seu estado de conservação, começa a dar bons frutos.

"Em três anos, com a ajuda dos voluntários, conseguimos duplicar a área conhecida com presença confirmada da espécie no território nacional", diz a bióloga Carla Rego, especialista em entomologia (estudo dos insetos) e uma das responsáveis do projeto Vacaloura, "o único de ciência cidadã que existe no país relacionado com insetos", sublinha.

Aos naturalistas voluntários pede-se que enviem uma fotografia do escaravelho avistado, juntamente com informação sobre o local, data e hora, e um eventual comentário - é sintomático que alguns dos que ali vão chegando sejam do tipo "antes viam-se muito, agora já não".

Desde que começou, o projeto Vacaloura já recebeu quase duas mil fotografias, enviadas dos quatro cantos do país, e foi graças a toda essa informação que os biólogos ficaram a saber, por exemplo, que este escaravelho ocorre em zonas do centro e do norte do país onde antes não havia confirmação da sua presença.

"Com os dados do projeto verificamos um alargamento do território desta espécie no Minho, a norte de Bragança e em algumas zonas do centro do país onde antes não estava documentada a sua presença", adianta Carla Rego.

A natureza voluntária da informação sobre os avistamentos deste escaravelho não permite, no entanto, fazer um cálculo sobre os efetivos da sua população - "isso requer outras metodologias", nota a bióloga -, mas o manancial de registos que o projeto conseguiu reunir até agora é um bom ponto de partida para outros estudos, que vão seguir-se a partir deste ano.

Além das ações de educação ambiental que têm sido realizadas desde o início, como palestras nas escolas e ações no terreno com professores e alunos, para identificar escaravelhos e outras espécies, e para promover a conservação do habitat da vaca-loura, os responsáveis do projeto querem "fazer modelações ecológicas, a partir dos dados já obtidos", e em alguns casos ir para o terreno.

"Os registos indicam, por exemplo, que as populações deste escaravelho a norte de Bragança e na zona de Sintra poderão estar isoladas, por isso neste ano queremos fazer estudos de biologia molecular para averiguar essa hipótese", adianta Carla Rego. Esse isolamento, a confirmar-se, implicaria menor diversidade genética e, portanto, condições de sobrevivência mais problemáticas para essas populações, a exigir medidas específicas de conservação. Um trabalho para os próximos anos.

Para já, o projeto prossegue, com novos passos, graças ao êxito de um crowdfunding que, no final do ano passado, angariou 7500 euros. Essa verba permitirá multiplicar as ações de conservação em mais zonas do país, com a construção de abrigos - este escaravelho vive em florestas de folhosas (carvalhos e castanheiros), onde se alimenta de madeiras mortas. Com essa floresta a diminuir do país, a conservação passa necessariamente, também, pela sua preservação.

Habitat regride e a espécie corre risco

A diminuição das áreas de floresta de folhosas (carvalhos e castanheiros) e o aumento das extensões dedicadas à agricultura intensiva, com maior utilização de herbicidas e pesticidas, são a causa do declínio desta espécie protegida na Europa, com estatuto de "quase ameaçada".

Com as suas pinças enormes, o macho pode atingir oito centímetros - o corpo mede entre três e cinco centímetros. A fêmea é mais pequena. A sua dimensão pode variar entre 2,6 cm e 4,1 cm.

Alimentado-se das madeiras mortas que existem nas florestas de folhosas, este escaravelho tem uma função essencial no ecossistema, uma vez que faz a reciclagem dos nutrientes no solo.

O seu desenvolvimento, sob a forma de larva, pode durar dois a três anos, mas, uma vez atingida a idade adulta, vive apenas dois meses, durante os quais se reproduz. Em Portugal, o período de reprodução da espécie ocorre entre os meses de abril e setembro.

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