Catarina Furtado vai ensinar os portugueses a comer melhor

A embaixadora do projeto "À Roda da Alimentação", Catarina Furtado, diz que Portugal é dos países com comida "mais deliciosa e saudável" e por isso quer incentivar a comerem melhor.

O preço dos alimentos continua a influenciar muito o que os portugueses levam para casa quando vão ao supermercado, local onde muitas vezes não passam o tempo suficiente. Mas nem sempre é a falta de alternativas ou de informação que impede uma alimentação mais saudável, mas sim a descodificação incorreta das mesmas. É isto que o projeto "À Roda da Alimentação", promovido pelo supermercado Continente pretende contrariar com a ajuda da apresentadora Catarina Furtado, embaixadora desta ideia.

"As pessoas talvez ainda não tenham a literacia alimentar suficiente para fazerem as escolhas alimentares mais adequadas. À partida toda a gente tem noção de que é importante alimentar-se bem, mas o tempo que gasta dentro do mercado, dentro da loja, se calhar ainda é muito pouco", apontou Helena Real da Associação Portuguesa de Nutrição (APN), durante a apresentação do projeto "À Roda da Alimentação", esta sexta-feira, no Continente do centro comercial Colombo, em Lisboa.

"Apesar de sermos um dos países com a comida mais apetecível, mais deliciosa e até mais saudável, à mesa portuguesa há mais daquilo que faz mal do que daquilo que faz bem. E este comportamento traduz-se em doenças crónicas, nomeadamente, a obesidade, a diabetes ou doenças cardiovasculares. E se não fizermos alguma coisa (o que vamos fazer com este movimento), a tendência é para piorar", explica Catarina Furtado.

"E o que é que nós queremos? Queremos dar a volta às pessoas que são resistentes e que acham que para mudar tem de se gastar mais dinheiro, que acham que comer bem é uma coisa estranha e que não têm tempo para isso, que não sabem ler os rótulos e que não sabem como é que devem começar a mudar. A verdade é que nós somos intoxicados com muita informação diariamente e às vezes ficamos um bocadinho perdidos", acrescentou a apresentadora.

O projeto que tem como objetivo promover a literacia alimentar e dar acesso a comida mais saudável, durante um ano, conta com um blog gerido por Catarina Furtado, um programa de televisão de 48 episódios conduzido pela apresentadora (que será emitido na RTP a partir do início do próximo ano), vídeos, podcats e artigos na revista do Continente. "Vamos andar à volta da alimentação sem vertigens", prevê Catarina Furtado.

Ensinar a ler os rótulos

"A prática de uma alimentação saudável é, neste momento, uma prática de consumo", diz Fernanda Santos da DECO. "A alimentação tem um peso grande no orçamento" e por isso "nem todas as famílias têm condições para fazerem as escolhas nutricionalmente mais interessantes", um produto mais barato vence um produto com melhor valor nutricional, explica Fernanda Santos.

Para além de olharem para o preço, os portugueses reparam ainda no rótulo, embora isso não signifique que o saibam ler. "Aquilo que nós verificamos, com os estudos que temos feito junto do consumidor, é que ainda há muita dificuldade por parte destes [os consumidores] para fazerem uma interpretação correta dos rótulos. Sendo uma informação de qualidade e rigorosa, ela não é clara para o consumidor", conta a representante da DECO. Mais de 70% dos consumidores diz que lê o rótulo dos produtos alimentares, mas cerca de um terço "não faz uma correta interpretação desse rótulo", segundo Fernanda Santos.

Graça Mariano, subdiretora Geral da Alimentação e Veterinária do Ministério da Agricultura, aproveita para alertar que "o rótulo às vezes pode ser em demasia. A informação a dar tem de ser a adequada: não pode ser demais nem de menos. Porque se damos demais complicamos e baralhamos, se damos de menos as pessoas não sabem", diz.

Foi a pensar nisto, que o Continente introduziu, há dez anos, o semáforo nutricional em mais de 4000 produtos, uma forma fácil de descodificar a composição nutricional dos alimentos, explicou o diretor de marketing da Sonae, Tiago Simões.

De pequenino se torce o pepino

"A informação por si só não chega. É preciso fazer um trabalho continuado", afirmou Rui Lima, membro da Direção Geral da Educação. E este trabalho deve ser desenvolvido com adultos e com crianças, em casa e nas escolas. "A escola é importante porquê? Porque estamos a formar os futuros adultos. As crianças começam a consumir logo nos primeiros anos alguns alimentos que não deveriam. À escola não compete tratar. À escola compete educar", defendeu Rui Lima.

A escola educa e em casa deve ser dado o exemplo. Todos os especialistas presentes no debate aconselharam o envolvimento das crianças na cozinha e na ida às compras para que estas possam ter uma perceção mais realista do que deve ser feito para ter uma alimentação saudável.

"A cozinha da nossa casa tem de ser usada por toda a família: pelos pais e pelos filhos. Há estudos que mostram que os adolescentes não sabem cozinhar e depois os adultos não vão saber cozinhar. Isto é fundamental, porque podemos escolher um alimento muito bem mas depois vamos estragá-lo quando o preparamos", explicou a nutricionista Helena Real.

"Eu tenho duas adolescentes que hoje entram no corredor dos cereais e sabem conhecer quais são os [cereais] que são bons para elas. É importante fazer com que participem no ato de confecionar e no ato das compras. Pegar no saco das compras e dizer "vai-me escolher meia dúzia de laranjas" é fundamental para [as crianças e adolescentes] terem uma relação com o alimento. É completamente diferente uma coisa que nasceu na fruteira de uma coisa que eles foram buscar e trouxeram para casa", continuou a chefe Anna Lins, que será a conselheira de Catarina Furtado no programa da RTP criado no âmbito do "À Roda da Alimentação".

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