Carros consomem mais 42% do que dizem as marcas. São 264 milhões de euros num ano

Alemanha lidera a lista dos países com mais gastos extra em combustível desde 2000 - 36 mil milhões de euros. Em Portugal, nos últimos 20 anos, "queimaram-se" 1,6 mil milhões de euros mais do que o prometido

Se é daquelas pessoas que pensam que o carro que conduz consome mais combustível do que a marca anunciava, saiba que existem fortes probabilidades de as suas suspeitas estarem corretas. Um estudo efetuado pela Federação Europeia dos Transportes e do Ambiente (F&E) concluiu que, só em 2017, os portugueses gastaram mais 264 milhões de euros em combustível do que era suposto, se os consumos dos automóveis correspondessem ao que é prometido pelos fabricantes. Em toda a indústria automóvel, há uma diferença média de 42% entre o consumo real e o prometido pelas marcas.

A Quercus, membro efetivo da F&E responsável pela divulgação dos dados em Portugal, revela que, nos últimos 18 anos (entre 2000 e 2017), a "manipulação da indústria automóvel nos testes de eficiência de combustível" custou aos automobilistas quase 150 mil milhões de euros. Só no último ano em análise, os europeus tiveram um gasto extra na ordem dos 23.4 mil milhões de euros. Analisadas as emissões de CO2, o relatório indica que houve a emissão de mais de 264 milhões de toneladas de dióxido de carbono, o equivalente às emissões anuais dos Países Baixos.

"Há vários anos que alertamos para o facto de os consumos de combustível não serem os declarados e de as emissões de CO2 serem superiores ao que é anunciado. É necessário haver um sistema eficaz para chegar aos consumos reais", diz ao DN Laura Carvalho, do Grupo de Energia e Alterações Climáticas da Quercus.

A diferença entre o consumo do automóvel na estrada e aquele que os fabricantes anunciam é, de acordo com o estudo, cada vez maior. Segundo a mesma investigação, passou de 9% em 2000 para 42% em 2016, sobretudo devido à "manipulação de testes laboratoriais por parte da indústria automóvel e também devido à tecnologia (como o start-stop)". Na prática, esclarece Laura Carvalho, este mecanismo "não é tão vantajoso na estrada como em laboratório, pelo que em condições reais, as economias de combustível são inferiores".

Em laboratório, explica, os testes não têm em consideração fatores como "o pavimento, as subidas, os semáforos, a velocidade, os engarrafamentos". Condições que, naturalmente, "têm interferência nos consumos dos automóveis".

Novos testes ineficazes

"A indústria automóvel tem objetivos, tem limites de emissões que, se não forem cumpridos, levam a que tenha de pagar multas. Por isso, tem interesse em dizer que os automóveis consomem menos", refere Laura Carvalho. Ao afirmar que o automóvel tem consumos mais baixos, está a dizer que ele emite menos CO2, o que, na prática, não estará a acontecer. Para a Quercus, os mais prejudicados são os cidadãos, que pagam por mais combustível e sofrem as consequências das alterações climáticas.

Relativamente aos novos testes de laboratório (WLTP - Worldwide harmonized Light vehicle Test Procedure), a ativista considera que são "um pouco melhores do que os anteriores, mas, ainda assim, não refletem todas as condições dos automobilistas". Uma investigação feita pela T&E, com base no estudo do JRC (centro de pesquisa da Comissão Europeia) revelou que este levará a novas lacunas, já que, ao inflacionar os resultados dos testes WLTP em pelo menos 10g/km, "a indústria automóvel pode facilmente atingir a redução de 15% nas emissões de CO2 proposta pela CE até 2025, diminuindo o impacto desta meta em mais de metade".

Testes reais

Para a Quercus, a solução passaria pela "realização de testes reais, na estrada, com condições reais e não baseados em pressupostos", bem como pelo uso de medidores de consumo de combustível. Até 2030, isso permitiria aos automobilistas pouparem "54 mil milhões de euros na fatura de combustível, em comparação com a atual proposta da Comissão".

No que diz respeito aos gastos extra com combustível, os automobilistas alemães lideram a classificação, com 36 mil milhões de euros desperdiçados desde 2000, seguidos por britânicos com 24,1 mil milhões de euros, franceses (20,5 mil milhões), italianos (16,4 mil milhões) e espanhóis (12 mil milhões).

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