Há vida em Vénus? Descoberto gás que é produzido por seres vivos

Os cientistas identificaram grandes quantidades de fosfina no planeta Vénus. Pode indicar uma forma de vida ou ser um fenómeno desconhecido. Por isso, os investigadores, em que se inclui a portuguesa Clara Sousa-Silva, querem alargar o estudo.

Um grupo de investigadores confirmou a "presença aparente" nas camadas de nuvens de Vénus de fosfina, um gás existente na atmosfera da Terra, e a sua origem pode ficar a dever-se a um fenómeno desconhecido ou a uma forma de vida, segundo um estudo publicado nesta segunda-feira na Nature Astronomy .

É a primeira vez que a fosfina (hidreto de fósforo ou fosfano) foi encontrada num dos quatro planetas telúricos do sistema solar, "fora da Terra", disse à AFP Jane S. Greaves, professora de Astronomia da Universidade de Cardiff, que coordenou o estudo.

Mas uma portuguesa de 33 anos também participou na investigação. Clara Sousa-Silva, investigadora do Massachusetts Institute of Technology (MIT), nos Estados Unidos, é uma das 19 pessoas que assinam o trabalho científico. Clara, que se doutorou em Londres, é conhecida como a "doutora fosfina" por se dedicar essencialmente ao estudo deste gás e da sua presença fora da Terra.

A astrofísica molecular tem no seu site a seguinte declaração de intenções: "Sou uma astroquímica quântica e comunicadora de ciência. Um dia espero detetar um planeta habitável usando espectroscopia [estudo da interação entre a radiação eletromagnética e a matéria]. Até lá, passo a maior parte do meu tempo trabalhando no duro."

No caso da presente investigação, o gás foi detetado pela observação da atmosfera venusiana com a ajuda de dois radiotelescópios. "Pode vir de processos fotoquímicos ou geoquímicos desconhecidos, ou por analogia, da produção biológica de fosfina na Terra, graças à presença de vida", explica o estudo.

Este composto também é encontrado em planetas gigantes gasosos do sistema solar, como Júpiter e Saturno, mas não é de origem biológica.

A presença de fosfina, um composto altamente tóxico, não é surpreendente na atmosfera infernal do segundo planeta mais próximo do Sol, que tem 97% de dióxido de carbono.

Na sua superfície, a temperatura média é de 470º C, com uma pressão mais de 90 vezes superior à da Terra.

Mas é na espessa camada de nuvens hiperácidas que cobrem Vénus até cerca de 60 km acima do nível do mar que a equipa de Greaves supõe que as moléculas podem ser encontradas.

"Lá, as nuvens são 'temperadas', em torno de 30° C", afirma o estudo, que não exclui a hipótese de o gás se formar em altitudes cada vez mais baixas e quentes antes de subir.

Na Terra, a incolor fosfina está geralmente associada à presença de micróbios que vivem em ambientes onde não há oxigénio. É usada para produzir inseticidas e circuitos elétricos, entre outros.

Mas de onde vem? Jane Greaves, que espera "ter levado em conta todos os processos passíveis de explicar a sua presença na atmosfera de Vénus" antes de os descartar, acredita que apenas um processo desconhecido ou uma forma de vida permanecem como hipótese.

Neste último caso, "acreditamos que teria um tamanho pequeno, para flutuar livremente", explica o cientista, cujo estudo "insiste que a deteção da fosfina não supõe uma prova robusta de vida, mas apenas confirma uma química anormal inexplicada".

É por isso que Greaves e os seus colegas defendem uma observação mais precisa deste fenómeno, usando um telescópio espacial ou uma nova visita de uma sonda a Vénus ou à sua atmosfera.

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