Greve dos enfermeiros. "Há doentes que se não forem operados agora podem ter sequelas graves"

Ordem dos Médicos pede ação ao Ministério da Saúde. Até agora foram adiadas mais de cinco mil cirurgias

Há doentes com uma "situação clínica prioritária, com uma janela terapêutica curta, que se não forem operados a breve prazo podem ter sequelas graves", mas que "não estão a conseguir entrar nos serviços mínimos" e não estão a ser operados. Quem o diz é Miguel Guimarães, bastonário da Ordem dos Médicos, que pede ao Ministério da Saúde uma atitude mais ativa face à greve que está a paralisar os blocos operatórios de cinco hospitais. "Não vemos, da parte do ministério da Saúde, uma solução para resolver estes casos prioritários. É esse apelo que lançamos ao ministério da Saúde", diz o responsável da Ordem dos Médicos ao DN.

Desde que começou a greve dos enfermeiros aos blocos operatórios, há duas semanas, já foram adiadas cerca de 5000 cirurgias, segundo avançou fonte sindical à agência Lusa. Só no Hospital de Santa Maria, em Lisboa, ficaram por operar 456 doentes e no bloco de cirurgia pediátrica não foi operada nenhuma criança. "Não conseguimos operar 456 cidadãos à nossa responsabilidade. Temos uma estimativa de não intervencionar até 1500 cidadãos até 31 de dezembro. Dramático e uma preocupação maior é não termos conseguido operar uma única criança desde que esta greve começou. O nosso bloco de cirurgia pediátrica não conseguiu fazer uma única intervenção por decisão clínica", afirmou hoje Carlos Martins, presidente do Conselho de Administração do Hospital de Santa Maria, aos microfones da TSF.

"Esta greve tem que parar, tem que haver uma mesa negocial, sobretudo porque está a afetar a equidade do serviço público. Esta greve já devia ter parado ao fim de 24 horas", defendeu Carlos Martins.

Já o presidente da Secção Regional do Centro da Ordem dos Médicos (SRCOM) avançou à agência Lusa que a greve dos enfermeiros dos blocos operatórios já motivou o adiamento de quase mil cirurgias programadas no Centro Hospitalar e Universitário de Coimbra (CHUC). Segundo Carlos Cortes, há doentes com problemas oncológicos e que necessitam de cirurgias urgentes e que viram as intervenções adiadas. E deu também como exemplo o serviço de ortopedia em que os doentes "correm risco de fraturas se não forem rapidamente operados".

"Nunca vi nestes últimos anos uma irresponsabilidade, uma apatia e passividade tão grande do Ministério da Saúde perante este problema. E o problema é para os doentes, que não estão a ser operados", frisou.

"Uma greve extraordinariamente agressiva"

Questionada sobre o cancelamento de cirurgias a doentes graves ou prioritários, a ministra da Saúde, Marta Temido, afirmou hoje que quem determina o que ocorre nos blocos operatórios é, "em última instância", o conselho de administração, diretor clínico e de enfermagem de um hospital. "Os profissionais de saúde, como médicos e enfermeiros, têm um código deontológico que deve dar guarida e segurança para que ninguém seja lesado na sua saúde. O Ministério da Saúde está confiante que a Ordem dos Médicos e a Ordem dos Enfermeiros estão suficientemente atentas a esta situação e estão do lado do Ministério para que nenhum doente seja prejudicado, porque há deveres éticos e deontológicos que entregamos às ordens em termos de salvaguarda", afirmou a ministra.

Já quanto à hipótese de uma requisição civil, a ministra, que falava aos jornalistas à margem de um encontro da Associação Nacional das Unidades de Saúde Familiar, em Lisboa, disse apenas que essa é uma "opção extrema".

Marta Temido afirmou também, na tarde desta sexta-feira, que tem trabalhado com os cinco hospitais onde decorre a greve nos blocos operatórios para "garantir os direitos dos doentes", adiantando que vai reunir-se ainda hoje com as equipas dessas unidades de saúde. "O que procuraremos fazer dentro desta circunstância, que é muito penosa sobretudo para os utentes, é encontrar soluções dentro do Serviço Nacional de Saúde", afirmou a titular da pasta da Saúde, que defendeu que os hospitais devem divulgar as cirurgias que têm sido adiadas devido à greve, tal como já foi sugerido pela Ordem dos Médicos, e também pela Associação Portuguesa dos Administradores Hospitalares.

"Uma divulgação daquilo que é o prejuízo desta greve é um elemento absolutamente essencial para que os portugueses compreendam o que se está a passar, que é uma greve extraordinariamente agressiva, precedida por uma proposta que respondia à maioria das reivindicações dos enfermeiros", referiu Marta Temido.

A greve dos enfermeiros às cirurgias programadas, que teve início a 22 de novembro e se poderá prolongar pelo menos até ao final do mês - os sindicatos já admitiram estendê-la para lá dessa data -, abrange cinco centros hospitalares: Centro Hospitalar de São João (Porto), Centro Hospitalar e Universitário do Porto, Centro Hospitalar e Universitário de Coimbra, Centro Hospitalar Lisboa Norte (que integra o Hospital de Santa Maria) e Centro Hospitalar de Setúbal.

A greve foi convocada por duas estruturas sindicais, embora o protesto tenha partido de um movimento de enfermeiros que lançou um fundo aberto ao público que recolheu mais de 360 mil euros para compensar os colegas que aderirem à paralisação. O movimento denomina a paralisação como "greve cirúrgica".

Com Lusa

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