Francis Beaufort. O homem que fez visível o vento

O nome de Francis Beaufort, inglês do século XVIII, é sinónimo da invenção da escala de medição de ventos ainda hoje vigente. Beaufort que também dá nome a mar e ilha polares não foi o único a tornar visível o sopro do vento. O "pai" de Robison Crusoé viveu com a mesma obsessão.

Na primeira semana de dezembro de 1703 uma força devastadora atravessou o Atlântico. Nascido nas latitudes tropicais da costa leste do continente americano, o ciclone cavalgou o oceano até ao centro-sul de Inglaterra para mais tarde soprar sobre a Europa continental. Ao tocar em terra na noite de 7 de dezembro, a tempestade extratropical dizimou uma multidão de edifícios e ceifou milhares de vidas. Na New Forest, mancha florestal no sul de Inglaterra, soçobraram quatro mil carvalhos. Quatrocentos moinhos de vento foram destruídos. No Reino Unido onde impacto social e económico foi enorme, a tormenta impressionou um escritor e jornalista da época. Daniel Defoe, autor de Robinson Crusoé (1719), entregava ao prelo em 1704 o título A Tempestade (The Storm), obra onde relatou ventos de 130 km/h e toda a mortandade e destruição que varreu o seu país natal.

Defoe não se limitou a relatar em livro a grande tempestade. Naquele início do século XVIII, o criador de personagens como Crusoé, Sexta-Feira ou o capitão português, lançou as bases para uma escala de medição dos ventos que ainda hoje perdura. Na sua obsessão sobre a influência dos ventos no quotidiano humano, Defoe criou um sistema de pontos que os classificou de acordo com a sua intensidade. De zero a onze, da calmaria à tempestade. Com o seu trabalho embrionário, Daniel influenciou o labor de um outro britânico nascido na Irlanda em 1774.

Aos 14 anos, quando deixou a escola para ingressar nas fileiras da marinha britânica, Francis Beaufort não suporia que volvido um ano lutaria pela vida. Um erro grosseiro num mapa atirou o jovem Francis para um naufrágio e quase afogamento. Sobrevivente, o marinheiro assumiu como missão de carreira o rigor da cartografia. Nas seis décadas seguintes, Beaufort fez-se explorador do passado clássico, cartografando inúmeras ruínas arqueológicas na região da Anatólia (na atual Turquia, então parte do Império Otomano); aprovou a expedição às Ilhas Galápagos do capitão Robert FitzRoy, a bordo do veleiro HMS Beagle. Expedição onde seguia um jovem naturalista, Charles Darwin.

O legado de Beaufort encosta-se aos nossos quotidianos sempre que sopra o vento

Mais do que chegar a capitão da Marinha Real Britânica, Defoe conquistou um feito alcançado por poucos aos 55 anos. Viu-se nomeado Hidrógrafo do Almirantado Britânico. No quarto de século seguinte, o homem que publicara o livro Karamania, sobre as suas incursões à Anatólia, tornou o Almirantado Britânico numa das mais prestigiadas instituições cartográficas mundiais.

Beaufort presidiu o Conselho Ártico numa época em que a instituição liderava a busca do explorador inglês John Franklin e dos navios que comandava, Erebus e Terror. Perdida, esfomeada e doente, toda a tripulação morrera na busca da lendária Passagem do Noroeste, ligação entre os oceanos Atlântico e Pacífico.

Ainda nos polos, o nome Beaufort está separado 17 mil quilómetros, entre a Antártida e o Ártico. A Sul, Beaufort designa uma ilha basáltica, perdida no oceano meridional, mapeada em 1841 pelo explorador James Clark Ross. Dezoito quilómetros quadrados de território no Mar de Ross que são colónia permanente para diferentes espécies de pinguins. A Norte, no Ártico, Beaufort dá nome a um mar. Mais de 400 mil quilómetros quadrados de solidão gelada de margens delimitadas pelo Canadá e Alasca.

Não tão longe, o legado de Beaufort encosta-se aos nossos quotidianos sempre que sopra o vento. Em 1805, o irlandês lançou-se no empreendimento que lhe ocupou as décadas seguintes. No trilho de Defoe, Beaufort inscreveu as bases para uma escala de medição do vento que atualmente é utilizada no Reino Unido, Holanda, Alemanha, Grécia, China, Taiwan, Malta, Macau e nos Estados Unidos da América, entre outros.

Escala que na década de 30 do século XIX servia de bitola à Marinha Real Britânica, fosse o vento um sussurro, um silvo ou um urro nas velas, cordame e mastros dos navios. Ferramenta de padronização nas observações do vento que o relacionou com os efeitos estruturais nos navios (mais tarde, com a introdução do vapor, a escala passa a referir-se aos efeitos do vento no mar). Relação de causa e efeito que o jovem Charles Darwin percebeu na sua viagem a bordo do HMS Beagle. A bordo do veleiro viajou em 1831, pela primeira vez, a Escala de Beaufort.

Em 1850, a escala passa também a ter uma utilização não naval. Deixa de reportar somente às condições do mar, mas também aos efeitos do vento em terra. Ao zero, corresponde um vento nulo, com mar espelhado e, nas cidades, o fumo das fábricas levanta-se na vertical. Avançando uns pontos, um oito corresponde a ventos entre os 62 e os 74 Km/h, com mar revolto. Em terra, as árvores agitam-se e os galhos partem-se. Por sua vez, um dez medido na Escala do senhor Beaufort, leva-nos para um mar revolto, com ondas até nove metros, ventos entre os 89 e os 102 Km/h e destruição considerável em terra.

Beaufort morreu em 1857, muito antes de ver o seu sistema de medição de ventos adaptado a uma nova escala. Em 1923, o meteorologista inglês George Simpson readaptou a escala de zero a doze, embora sem abandonar o sistema engendrado pelo seu conterrâneo nascido 150 anos antes.

Com a Escala de Beaufort o sopro que corre continuamente o nosso planeta abandonou parte da sua condição de Éolo, senhor do vento da mitologia grega, de Vayú do panteão divino indiano ou de Fujin, deus nipónico. Não perdeu, contudo, poder superior. Um 13, valor máximo na escala de então, tinha a força de um deus ciclónico, como o que varreu o Reino Unido no outono de 1703.

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