Estudar na América do Sul? Reitores querem mais alunos a tomar esta opção

Durante três dias, reitores das universidades da Europa e da América Latina debatem o alargamento dos programas de mobilidade entre os dois continentes na XVII Cimeira anual do Conselho Universitário Ibero-Americano. Cada país poderá enviar alunos e docentes, mas também receber de outros países. O encontro está a decorrer no norte de Portugal.

Os reitores do espaço ibero-americano estão reunidos em Portugal para discutir a criação de um espaço comum de mobilidade entre a Europa e a América Latina. A ideia está a ser desenhada para alunos, mas também docentes, quer para cursos superiores quer para a área da investigação científica. Desde esta segunda-feira e até quarta-feira, diversos representantes de universidades de 21 países vão estar a discutir os meandros deste projeto na XVII Cimeira anual do Conselho Universitário Ibero-Americano, em Portugal. O evento começou na Universidade de Trás-os-Montes, em Vila Real, no dia 1 de julho, e estende-se até aos dias 2 e 3, na Reitoria da Universidade do Porto.

Já lá vão 20 anos desde a assinatura do acordo de Bolonha, que fez quadruplicar o número de portugueses a estudar pela Europa. São milhares os estudantes que saíram de Portugal para programas de mobilidade noutras universidades do continente. E outros milhares os que fizeram o caminho inverso, de fora para dentro. O ensino superior europeu encurtou distâncias e agora o Conselho Universitário Ibero-Americano quer replicar o fenómeno entre a Península Ibérica e a América Latina.

"Como professor, por exemplo, poderia ir dar aulas no Chile durante uma temporada. Ou mesmo orientar a tese de um aluno argentino a partir de Portugal"

"A ideia é que estes 21 países (que integram o Conselho Universitário Ibero-Americano), incluindo Portugal e Espanha, possam criar um espaço de mobilidade maior do que aquele que existe atualmente", explica o presidente do Conselho de Reitores das Universidades Portuguesas (CRUP), em entrevista ao DN. Tudo baseado no sistema que deu origem ao acordo de Bolonha. "Em Portugal, o formato dos cursos com Bolonha são comparáveis em toda a Europa. Se isso se pudesse replicar pela América Latina, Portugal e Espanha ganhavam uma centralidade que não têm hoje", acrescenta António Fontainhas.

Apesar de já haver "alguma mobilidade" entre universidades de ambas as áreas geográficas, ainda "é muito ténue". Segundo o presidente do CRUP, através deste programa, tanto alunos como docentes poderiam ver abertos os seus horizontes. "Como professor, por exemplo, poderia ir dar aulas no Chile durante uma temporada. Ou mesmo orientar a tese de um aluno argentino a partir de Portugal", esclarece.

Além dos programas de cooperação e mobilidade de estudantes e professores, será debatida ainda a realização de programas de doutoramento conjuntos, tendo em vista o fortalecimento de redes de investigação. No Porto, estará presente o mais recentemente eleito presidente da Associação Europeia de Universidade, o irlandês Michael Murphy, que deixará em cima da mesa possíveis novos formatos de mobilidade entre a Europa e a América Latina.

Todas as conclusões que saírem deste encontro serão posteriormente apresentadas como recomendações aos governos dos vários países envolventes na próxima Cimeira de Chefes de Estado do Governo.

"Fomos dos países que mais cedo fez a globalização, mas agora os grandes palcos estão noutros países mais desenvolvidos. Deixamo-nos ficar para trás"

As maiores dificuldades passam pelas diferentes estruturas de ensino aplicadas pelos vários países e pelo investimento que cada um determina para o ensino superior, explica António Fontainhas. E refere o exemplo do Brasil e do Paraguai, "onde se está a testemunhar um grande desinvestimento no ensino superior". "Enquanto em Portugal delineamos estratégias como aumentar o número de diplomados de 40% para 60%, por exemplo, lá não há estratégias." Mas garante que todos os representantes presentes nesta cimeira se mostram predispostos a alargar o espaço de cooperação.

Segundo o também reitor da Universidade de Trás-os-Montes, "a Europa ainda está muito fechada". "O mundo vive à volta de grandes países, como a Índia, a China, os Estados Unidos da América. Os clássicos. E devemos agora explorar a ligação à América Latina", disse.

E adianta que Portugal e Espanha têm a obrigação de trabalhar esta aproximação. "A primeira experiência Erasmus foram os Descobrimentos. Fomos dos países que mais cedo fez a globalização, mas agora os grandes palcos estão noutros países mais desenvolvidos. Deixamo-nos ficar para trás", lamenta António Fontainhas.

A "excelência das universidades ibero-americanas" torna urgente e importante a abertura para "uma maior colaboração" entre os dois continentes.

Foram as diferenças entre a Europa e os restantes continentes que atrasaram os planos do Conselho Universitário Ibero-americano. Em entrevista ao DN, o presidente desta entidade confessou que "a União Europeia tem uma funcionalidade distinta", que atrasa o processo. Contudo, e segundo Felix Lausin, vale a pena a batalha. A "excelência das universidades ibero-americanas" torna urgente e importante a abertura para "uma maior colaboração" entre os dois continentes, remata. E António Fontainhas acredita estar a assistir a uma "Europa a acordar".

Foi em 2002, em Cartagena das Índias, na Colômbia, que o Conselho Universitário Ibero-americano teve o seu início oficial. Define-se como uma organização não governamental composta por universidades de 21 países como Portugal, Espanha, Argentina, Bolívia, Brasil, Chile, Colômbia, Costa Rica, Cuba, Equador, El Salvador, Guatemala, Honduras, México, Nicarágua, Panamá, Paraguai, Peru, República Dominicana, Uruguai e Venezuela.

A extensão da internacionalização do sistema de ensino superior português é mesmo uma meta das universidades portuguesas. Foi até definida como um dos compromissos do Conselho de Reitores das Universidades Portuguesas (CRUP) para a nova agenda política do Ensino Superior 2020-2030. No documento assinado pelo CRUP, onde foram apresentadas propostas para a agenda política direcionada para o ensino superior, os reitores comprometem-se também a explorar as "alianças estratégicas, académicas e não académicas, nacionais e estrangeiras".

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