Derrubar a teoria de um Nobel. "Foi muito difícil chegar aqui"

Em entrevista ao DN, Luís Arnaut que liderou em Coimbra as experiências que contrariam a teoria do americano Rudolph Marcus, distinguido com o Nobel da Química em 1992, fala da luta que foi para encontrar "a experiência decisiva"

O vosso trabalho desafia uma teoria estabelecida pelo americano Rudolph Marcus, que ganhou um prémio Nobel em 1992. Já teve reações ao artigo?
O artigo saiu ontem [risos]. As reações que tive foi à submissão do manuscrito por parte dos avaliadores da revista, que tiveram de dar uma parecer sobre a sua publicação, ou não. Se ele foi publicado [na Nature Communications] foi porque, com algum esforço, conseguimos convencê-los de que tínhamos razão no que estávamos a dizer. Tenho reações de alguns colegas que me são muito próximos e que têm seguido esta controvérsia, não são significativas do conjunto da comunidade científica.

Mas espera ter reações.
Espero que haja uma maior controvérsia agora, e talvez mais equilibrada do que foi no passado. Anteriormente havia uma esmagadora maioria de seguidores da teoria de Marcus, e esperamos, relativamente às nossas ideias, que a situação fique um bocadinho mais equilibrada. Mas não pensamos que de repente a comunidade científica vai virar as costas à teoria de Marcus, dado o prestígio que tem.

Rudolph Marcus ainda é vivo?
Sim, tem agora 92 anos.

Ele já sabe desta publicação?
Não sabe com certeza. Conheci-o pessoalmente, tive oportunidade de estar com ele em várias circunstâncias, e temos com ele uma relação pessoal afável, diferenças intelectuais à parte. Espero que isto não lhe faça mal nenhum.

Do ponto de vista da ciência, que impacto poderá ter o vosso trabalho?
A ciência são conceitos e formas interpretar a realidade. Quando interpretamos corretamente o que nos rodeia, há a expectativa de intervir mais corretamente na realidade. Conhecendo as causas, podemos contornar os efeitos. De acordo com o que temos vindo a propor na Universidade de Coimbra, as causas atribuídas por Marcus à velocidade das reações oxidadação-redução, ou de transferência de electrão, que são reações muito comuns em química e em biologia, estão erradas. Não são as que ele propõe as verdadeiras causas e, tendo agora um melhor conhecimento das verdadeiras causas, sobre o que condiciona a forma como o eletrão se move de uma molécula para outra, esperamos que isso ajude as pessoas a interpretar melhor os fenómenos e a intervir melhor sobre eles.

Daqui até passar para as aplicações em novos dispositivos, é uma tarefa que vai durar muitos anos ainda, e dependerá de conseguir montar uma equipa e de obter financiamento para prosseguir esse objetivo.

Em termos práticos, o que podemos esperar?
Nem toda a ciência tem essa resposta imediata, como é o caso. Poderão acontecer muitas coisas, mas isto é avanço do conhecimento. A motivação número um neste trabalho foi fazer avançar o conhecimento. Espero que se façam partir daqui coisas boas, mas não sei antecipar o que vai ser feito com este novo conhecimento. As reações de transferência de eletrão, que são reações de oxidação, encontram-se em muitos fenómenos naturais, como na fotossíntese ou na respiração, e também em muitos dispositivos, como os painéis solares ou os ecrãs usados em electrónica, ou na optoelectrónica, e em muitas aplicações, mas não quero estabelecer uma relação muito causal entre o avanço de conhecimento e o melhoramento desses dispositivos. Claro que espero que isto ajude as pessoas a pensar melhor nos problemas e a encontrar melhores soluções.

Foram duas décadas e meia para chegar aqui. Foi muito difícil concretizar este trabalho?
Foi. É muito difícil encontrar uma experiência que seja absolutamente decisiva para destronar uma teoria estabelecida e afirmar uma nova teoria. É muito difícil porque a teoria estabelecida baseia-se em inúmeras experiências, com as quais está de acordo. E a teoria que a contraria também. As experiências mais fáceis de fazer, e que já foram feitas, não são decisivas, os resultados podem ser interpretados de uma forma ou de outra. Encontrar uma experiência que fosse decisiva para contrariar as previsões da outra teoria deu muita luta. A previsão teoria de Marcus era que em determinadas condições que foram implementadas num novo sistema a reação devia diminuir muito, cerca de mil vezes, e a da teoria alternativa proposta por nós na Universidade de Coimbra, era que devia aumentar muito, cerca de 10 ou cem vezes. E a nossa experiência, que consideramos que é decisiva, e que foi publicada na Nature Communications, porque foi considerada importante, mostra que que aumenta.

Foi difícil montar a experiência?
Foi. O conceito começou a ser trabalhado há mais de 20 anos, mas era preciso sintetizar moléculas que nunca tinham sido feitas antes, o que foi feito com a colaboração de um colega do departamento de engenharia química, Arménio Serra. Isso levou anos, porque as moléculas eram muito difíceis de fazer. E depois era preciso estudá-las com equipamentos muito sensíveis. Precisávamos de medir reações ultra-rápidas. São equipamentos muito caros, só conseguimos comprá-los há cinco anos, na mesma altura em que as moléculas também ficaram disponíveis. O que fizemos nestes últimos anos foi esse estudo exaustivo.

É uma vitória com uma nota de tristeza. O professor Formosinho Simões faleceu inesperadamente e não teve oportunidade de ver os dados que mostram que a teoria que ele iniciou estava certa

O professor Formosinho Simões [falecido em 2017], que iniciou esta controvérsia, ainda participou no estudo?
O professor Formosinho Simões era uma pessoa de conceitos, nunca se interessou por fazer experiências. A ideia baseou-se em conceitos que ele começou a desenvolver há muitos anos. Há cerca de 30 anos comecei a partilhar com ele esse trabalho e essas ideias, e a certa altura senti a necessidade de encontrar a tal experiência decisiva. O professor Formosinho acompanhou sempre com muito interesse esse trabalho.

E agora, é a sensação de uma tarefa concluída?
É, com uma nota de grande tristeza, por o professor Formosinho ter falecido inesperadamente. Nem sequer teve oportunidade de ver o resultado conseguido. Na altura ainda não tínhamos dados suficientes para mostrar que a teoria que ele iniciou estava certa. É uma vitória um bocadinho amarga.
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Vai continuar a trabalhar nesta área, a partir deste novo conhecimento?
Gostaríamos de poder ir mais longe para termos o maior apoio possível da comunidade científica. Para que reconheça o valor da teoria que foi desenvolvida aqui em Coimbra. Vamos continuar a explorar experimentalmente estes sistemas, e espero obter mais resultados que tornem ainda mais robusta a nossa interpretação. Daqui até passar para as aplicações em novos dispositivos, é uma tarefa que vai durar muitos anos ainda, e dependerá de conseguir montar uma equipa e de obter financiamento para prosseguir esse objetivo.

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