Covid. ADN neandertal pode ser fator de risco

Genes ligados a casos mais graves do novo coronavírus. Estudo ainda não foi objeto de revisão pelos pares.

O ADN dos neandertais pode estar ligado aos casos mais graves de covid-19, revelou uma investigação realizada por dois cientistas suecos, publicado online na semana passada.

Com base no estudo do código genético de 3.199 doentes hospitalizados com covid, Hugo Zeberg, do Instituto Karolinska, e Svante Pääbo, diretor do Instituto Max Planck, concluíram que as pessoas com uma variante genética (seis genes do cromossoma 3), igual à de um Neandertal encontrados numa caverna na Croácia, têm três vezes mais hipóteses de sofrer covid-19 com gravidade do que a restante população.

A variante genética está mais presente no sul da Ásia (cerca de um terço dos habitantes) e em especial no Bangladesh, com 63% das pessoas.

Na Europa 8% dos europeus herdaram esta variante, tendo sido transportada para a América do Norte; no Extremo Oriente tem pouca prevalência e está quase completamente ausente em África.

Os cientistas ainda não sabem porque é que este segmento em particular aumenta o risco de doença grave do coronavírus. "A variante Neandertal pode contribuir substancialmente para o risco de covid-19 em certas populações. De momento não se sabe que característica específica originária do Neandertal confere risco de covid-19 grave e se os efeitos de tal característica são específicos dos coronavírus atuais ou mesmo de quaisquer outros agentes patogénicos. Contudo, na actual pandemia, é evidente que o fluxo de genes de Neandertais tem consequências trágicas", concluem os dois suecos.

"Convém sublinhar que neste momento isto é pura especulação", concedeu um dos autores, Svante Pääbo, diretor do Instituto Max Planck, em Leipzig, citado pelo New York Times.

"Ainda ninguém sabe exatamente que variantes genéticas conferem susceptibilidade ou resistência ao coronavírus", comentou Carles Lalueza Fox, geneticista do Instituto de Biologia Evolutiva de Barcelona ao El País. Mais contudente mostra-se a paleoantróloga María Martinón Torres, que relembra as "causas multifactoriais" das doenças: "Estamos a avançar para um terreno muito pantanoso e perigosamente sensacionalista."

"Dada a elevada frequência da variante genética do Neandertal no Sul da Ásia, é impressionante que no Reino Unido haja um excesso de mortalidade precisamente nas pessoas de origem sul-asiática, mas não noutras minorias étnicas", diz o seu colega de estudo, Zeberg, ao El País.

Um estudo publicado no The Lancet envolvendo 35 mil pacientes concluiu que os originários do sul da Ásia têm uma taxa de mortalidade por covid-19 19% mais elevada do que nos grupos classificados como "brancos".

Ao NYT, o geneticista da Universidade de Vanderbilt Tony Capra comenta que o pedaço de ADN Neandertal poderia ser um benefício, inclusive contra outros vírus. "Mas isso foi há 40 mil anos, e aqui estamos nós agora", disse. E o que era uma vantagem ido sistema imunitário contra outros vírus é hoje uma reação exagerada contra o novo coronavírus.

Os pacientes que desenvolvem casos graves de covid-19 normalmente fazem-no porque os seus sistemas imunitários lançam ataques descontrolados que acabam por causar inflamação e fibrose pulmonar.

Num estudo divulgado no mês passado, os investigadores compararam doentes em estado grave em Itália e Espanha com aquelas que tiveram infecções leves. Encontraram dois locais no genoma associados a um risco maior. Um está no cromossoma 9 e inclui o ABO, um gene que determina o tipo sanguíneo. O outro é o segmento Neandertal no Cromossoma 3 - e foi este resultado que desencadeou o estudo dos cientistas suecos.

No entanto, o consórcio internacional Covid-19 Host Genetics Initiative não validou as conclusões relativas à associação do grau de risco e tipo sanguíneo: na investigação alegava-se que as pessoas do grupo sanguíneo O terem maiores probabilidades de não serem infetadas com covid.

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